CCP

Brexit

Conselho das Comunidades Portuguesas

Em Fevereiro de 2016, Boris Johnson famosamente escreveu dois artigos. Um, onde anunciava o seu apoio à manutenção do Reino Unido na União Europeia, e outro, onde, pelo contrário, defendia a saída do bloco Europeu em que o país tinha permanecido por mais de 40 anos.

Depois de meses a calcular qual das opções melhor serviria as suas ambições políticas, Boris Johnson decidiu-se pelo segundo artigo e resolveu associar-se a Nigel Farage para fazer campanha pelo Brexit.
Hoje, Boris Johnson está novamente perante uma decisão política entre os seus interesses políticos ou pessoais e o interesse do Reino Unido como um todo.
A escolha é simples: Há, ou não, acordo que regule a relação futura entre o Reino Unido e a União Europeia?

Preferirá Boris Johnson assumir os custos de um acordo irremediavelmente limitado, mas com inevitável e profunda disrupção na sociedade e economia, ou escolherá ele chegar a Janeiro sem qualquer acordo, desviando a culpabilidade decorrente das óbvias consequências para a inflexibilidade da União Europeia?
Veremos, a breve trecho, qual será a escolha desta vez mas, como na primeira, suspeito que irá preferir não assumir quaisquer riscos ou responsabilidades pelo que aí vem – e investir, de forma resoluta, na narrativa de que as consequências para o dia-a-dia dos que vivem nestas ilhas resultam do desejo da pérfida União Europeia em castigar os Britânicos pela temeridade que tiveram em querer re-ganhar a sua soberania e deixar de ser uma colónia dos Europeus.
Este é um cenário que me preocupa sobremaneira.
Seja qual for o desfecho das negociações, as repercussões para a sociedade e economia Britânicas serão inevitáveis e, para muitos, ruinosas. Em conjunto com o impacto desastroso que a pandemia nos trouxe, o adicionar dos efeitos do Brexit com uma tentativa deliberada de culpabilizar ‘Bruxelas’, poderá criar um ambiente absolutamente tóxico para aqueles que corporizam a União Europeia no Reino Unido, especialmente na Inglaterra: nós, os cidadãos comunitários.

Do referendo em 2016 resultou um aumento extremamente significativo nos chamados crimes de ódio. Perante um aumento do desemprego e outras consequências a nível social e económico, é vital que as autoridades Portuguesas no Reino Unido estejam atentas e prontas a actuar na sequência de reações nefastas por parte da sociedade Britânica para com os cidadãos Portugueses que cá residem. É igualmente importante que a rede consular no Reino Unido passe a ser capaz de responder às verdadeiras e inegáveis necessidades das comunidades Portuguesas cá radicadas.
Tal terá forçosamente que passar por reformular a própria rede, com a criação de estruturas consulares permanentes em Gales, na Escócia e também na própria Irlanda do Norte, por forma a aumentar e descentralizar a capacidade de resposta da mesma.
É imperioso que se acelere fortemente a desmaterialização de processos e a modernização administrativa de uma forma que não se esqueça dos Portugueses que residem no Estrangeiro. O próprio Reino Unido, aliás, deveria ser definido como país prioritário no lançamento e testagem de inovações que permitam aliviar a pressão que se abate sobre a rede consular.
Portugal deveria também preconizar a adopção, a nível Europeu, de um programa abrangente que apoie a relocalização de cidadãos comunitários que desejem deixar o Reino Unido – uma espécie de Programa Regressar, mas a nível comunitário.
Acima de tudo, é importante agir – e depressa. Haja ou não acordo, o Reino Unido, económica ou socialmente, irá passar por momentos extremamente complicados e desafiantes nos próximos meses e anos.
Boris Johnson irá, novamente, escrever ‘dois artigos’ nos próximos dias. É vital não abandonar as comunidades Portuguesas às consequências do egoísmo de um cálculo político, que a (quase) todos irá sair muito caro – e por bastante tempo.
A ver vamos se o Estado Português consegue demonstrar a capacidade e vontade política para responder de forma consentânea e à altura da dignidade dos muitos Portugueses que cá vivem.
A palavra, agora, a Lisboa.

Nota: O artigo foi escrito antes da conclusão das negociações

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