CCP

Liberdade, Igualdade, Saudade

Conselho das Comunidades Portuguesas

No início da minha caminhada nesta aventura que é a emigração concentrei-me nos meus estudos, fiz amigas e amigos de todos os horizontes na Universidade em Paris, mas não foi aí que procurei Portugal. Foi no fim do Doutoramento, já com dois filhos nascidos em França, numa época de grave crise económica no nosso país, e já com poucas ilusões sobre o tão esperado regresso, que fui à procura de Portugal, de Família alargada. Encontrei-a no mundo associativo. Encontrei portuguesas e portugueses em França e de França, os que tinham acabado de chegar e os que já cá estavam há várias gerações.

Com todas e todos aprendi muito, mas sobretudo com a geração que para cá veio para fugir à Ditadura, ao Salazarismo, à prisão, à guerra, à miséria. Ouvi horas e horas de histórias de vida, de histórias de resistência, de histórias de coragem. Ouvi-as sempre com a mesma emoção, respeito, admiração e sempre grata por quem tinha participado de perto ou de longe à nossa Liberdade, ao Portugal de Abril. Foi sempre um privilégio ter acesso a estes testemunhos, acolhia-os como um tesouro de transmissão. Perguntei-me sempre o que faria se estivesse no mesmo lugar. Teria resistido? Teria atravessado montanhas a pé pela Liberdade? Cada história foi para mim uma lição de humildade. Lembrando-me também a minha própria história de filha de cabo-verdiano que emigrou para Portugal não pela montanha, mas pelo mar. As dificuldades do desenraizamento, as saudades do país de origem, da família que por vezes não se voltou a ver durante anos, tudo isso já conhecia desde sempre a partir da vivência do meu pai.

O progresso técnico permite-nos agora viver a distância de forma não tão dolorosa, mas o virtual nunca poderá substituir o pessoal, o verdadeiro olhar, o verdadeiro abraço, o verdadeiro acompanhamento em situações importantes da vida, sobretudo as mais frágeis como a doença. No início de 2021 ficámos a saber que a “Palavra do Ano 2020” resultante de uma votação promovida pela Porto Editora foi SAUDADE. Mas para os emigrantes que somos essa é palavra constante, que nos acompanha sempre. Palavra agri-doce.

Os portugueses residentes em Portugal que votaram preferiram a palavra saudade à palavra COVID-19 que ficou em segundo lugar e à palavra pandemia que ficou em terceiro. Preferiram o sentimento que prevaleceu durante o ano que acabou às suas causas. Os portugueses residentes em Portugal, pelo facto de serem obrigados a estar distantes de quem mais amam viveram de certa forma aquela que é a vivência constante dos portugueses no estrangeiro. A saudade permanente.

Estamos distantes, mas não é por isso que deixamos de ser Portugueses, não é por isso que deixamos de nos preocupar pelo nosso país ou pela nossa língua. Duas das nossas maiores lutas no Conselho das Comunidades Portuguesas é a dos direitos cívicos e a da língua portuguesa. Foi um grande passo para a Igualdade a conquista do recenseamento automático. Todas as portuguesas e portugueses têm agora menos uma barreira para exercer os seus direitos, outras continuam. Mas fiquemos por enquanto pelas conquistas. Dia 24 de janeiro vamos poder votar para uma Presidenta ou um Presidente da República de todas e todos os Portugueses.

Para as Comunidades que tanto lutaram pela ideia de que somos todos Portugueses, que tanto lutaram pela Igualdade, é uma anomalia que um candidato se posicione enquanto candidato da desigualdade, que declare sem rodeios que não será o Presidente de todos os Portugueses.

Para as Comunidades é uma falta de respeito que o candidato André Ventura tenha escolhido como sua mandatária para os portugueses residentes no estrangeiro, os mesmos que fugiram precisamente à Ditadura, que tanto sofreram e lutaram pela Democracia, a comediante Maria Vieira, que cita o fascista Marcelo Caetano e que declara não festejar o 25 de Abril.

Para as Comunidades é uma ameaça um candidato que se alia à extrema-direita europeia que exclui imigrantes, que defende a prioridade nacional, que tem como projeto a destruição da União Europeia, fazendo com que os portugueses deixem de ter a cidadania europeia. Um candidato que passeia em Lisboa de braço dado com Marine Le Pen, a mesma que quer proibir em França as aulas de português para os nossos filhos. A mesma que dirige o partido que acolhe aqueles que escreveram em paredes “morte aos portugueses” e “voltem para a vossa terra”.

Para as Comunidades constitui uma perplexidade que um candidato à presidência de Portugal desconheça a este ponto a História, desconheça que Portugal é um país de emigração e trate os imigrantes no seu programa e nas suas palavras como nós não gostaríamos de ser tratados nos nossos países de origem. Ao discriminar os imigrantes, dá autoridade a que outros governantes tratem os emigrantes portugueses da mesma forma.

Para as Comunidades é um perigo que o seu partido abrigue elementos racistas com ligações a grupos neonazis, que através da violência xenófoba atacam estrangeiros nos países onde vivemos como na Polónia, em França ou no Reino Unido, nomeadamente desde o início do processo do Brexit.

Durante esta busca por Portugal cá fora talvez uma das histórias que mais me tenha comovido tenha sido a de um exilado que vive agora na Bélgica, que ainda emocionado falou do assassinato do seu irmão pela PIDE no hospital. Ter de novo a extrema-direita em posição de poder voltar ao poder é uma desonra para a memória dos que morreram pela nossa Liberdade e pelos que sofrem pela perda.

Fui à procura de Portugal, e foi este Portugal que encontrei o da Liberdade, da Igualdade e da Saudade. Não passarão.

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