Obra de Capa

Chasseur de Chimères

Uma criança perante uma paisagem desolada. Um caçador de Quimeras. Não a quimera que a poesia nos habituou a contemplar. Não é o devaneio ou o desejo poéticos, a utopia, que vemos neste trabalho de Sónia Aniceto. Aqui vê-se o futuro metamorfoseado em Quimera de mitologia grega, vê-se um futuro transformado em monstro.

Uma paisagem que queima tal qual o fogo que sai das narinas de uma Quimera, esse animal fabuloso com cabeça de leão, cauda de dragão e corpo de cabra. Será esse o futuro que vamos deixar em herança aos nossos filhos, um planeta que arde e esmaga? Teremos nós transformado os nossos filhos em involuntários caçadores de Quimeras? A criança isolada, como que coroando um mundo em ruínas, é, porém, ela própria, um símbolo de esperança. Não será essa palavra a definição de infância? Ela encara um céu de chumbo e afasta – “chasse”, portanto, não estivesse a língua francesa carregada de meandros e duplos sentidos  – as nuvens ameaçadoras com um sopro, fazendo reaparecer os raios do sol e uma nesga de céu azul. A nossa casa está doente, por vezes parece mesmo moribunda, mas a esperança está bem viva. E é o alento que vemos no corpo tenso desta criança que nos faz acreditar que o futuro (ainda) faz sentido.  


Texto: Nuno Gomes Garcia, escritor



1 Comentário

  • Duarte
    2 meses ago Publicar uma Resposta

    A obra da artista Sónia Aniceto e as palavras do autor Nuno Garcia causam perplexidade e levantam um questionamento quanto às nossas ações e ao futuro. É com enorme satisfação que testemunho estas referências prestigiantes.

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