Portugal foi sempre a nossa casa

Acho que primeiramente é importante dar algum contexto para perceberem de onde vem o meu bichinho das viagens…
Eu fui o chamado acidente. Nasci depois de 3 irmãos mais velhos, com uma diferença de 20 anos, e com uma mãe supostamente a entrar na menopausa. Eu apareci de surpresa e para mudar o mundo, o deles e não só!
Foi o meu nascimento que levou os meus pais a mudarem radicalmente do Alentejo profundo, onde tiveram uma tasca por mais de 20 anos, para o Alentejo da borda de água (Sines). Nessa mudança, e depois de 20 anos a trabalhar na tasca da família, cansada de cozinhar petiscadas sem fim e das noites longas regadas a vinho e com muita testosterona, a minha mãe resolveu que iria mudar de vida depois dos 40 e todo o dinheiro que conseguiria guardar do trabalho que arranjou como doméstica, seria para viajar e correr o mundo. Por isso, desde pequena que a via a ir sozinha nas excursões, resolvida a conhecer todos os países que conseguisse. Cada tostão era para essa paixão assoberbada por passear e eu sempre achei extraordinário essa força de vontade, depois de tantos anos de trabalho ininterrupto. O meu pai ficava em casa porque não gostava de viajar, e eu também, a sonhar um dia seguir-lhe as pegadas. Aos 65 anos da minha mãe, e eu com 20 e pouco, fomos as duas fazer um Interrail pela Europa. Era o sonho dela e eu juntei-me à loucura. Em 22 dias conhecemos 11 países, muita cultura e muito, muito cansaço… foi uma aventura inesquecível de mochila às costas, e que daria muitas páginas…
Mas o meu bichinho começou aí. Com ela.
Mas como viajar não era propriamente uma profissão, entrei em Biologia em Évora, porque outro sonho meu era salvar os gorilas. Ser a Diane Fossey!
Em Évora apaixonei-me pela biodiversidade do Alentejo e pela conservação da natureza. E foi assim que comecei a trilhar esse caminho profissional, aproveitando todas as oportunidades de viajar que conseguia. Fiz Erasmus em Itália, na região da Calabria, que se tornou na minha primeira grande experiência a viver fora do país.
Quando terminei o curso, e fazendo um desvio na conservação, resolvi dar uma oportunidade ao meu sonho dos gorilas e fiz por isso a minha tese de licenciatura estudando o comportamento de gorilas cativos no zoo de Barcelona, onde vivi 1 ano. Aí trabalhei a fazer bocadillos para aguentar o custo de vida da cidade, enquanto fazia o meu trabalho de fim de curso, e foi assim que juntei mais uma experiência internacional ao meu currículo. Apesar de não ter conseguido fazer a minha tese com gorilas selvagens, senti-me um bocadinho mais perto de África e deles.
Mas foi só 5 anos depois, e já com alguma carreira de conservação em Portugal, que a minha oportunidade de ir para o continente africano apareceu. Um antigo professor partilhou uma oportunidade de emprego para ir certificar ambientalmente os hotéis na Ilha do Príncipe. Ao mesmo tempo, apareceu-me uma oportunidade na área da conservação nos Açores e eu fiquei dividida. Acabei por escolher ir para o Príncipe, pois apesar de não ser um trabalho na minha área, era uma oportunidade em África – como recusar? E afinal, seriam só 6 meses…
Mas 6 meses transformaram-se em 11 anos e ainda hoje nem sei como…
Foi no Príncipe que me apaixonei.
Pela Ilha. Pelas pessoas e pelo Fernando. Conheci o meu madeirense (fomos trabalhar para a mesma empresa) na Ilha e foi aí que encontrei também a minha missão, mudar o mundo, uma ilha de cada vez.
Na Ilha, certifiquei os dois primeiros hotéis em África com o Biosphere Responsible Tourism, e fui suportando o Governo Regional nos projetos da Reserva da Biosfera da Ilha do Príncipe. Fui também Diretora da Fundação Príncipe, uma ONG local que se tornou, nos 7 anos da minha gestão, na maior e mais relevante ONG no país. Com uma equipa de 67 pessoas, 98% locais, criámos oportunidades de desenvolvimento económico e social para a comunidades locais, enquanto protegíamos as espécies e habitats da Ilha.


Foi também no Príncipe que nasceu a nossa grande paixão, o nosso filho Joaquim. E o nosso privilégio de viver no Príncipe ainda se tornou mais relevante, porque ter a oportunidade de criar um filho neste paraíso, foi de facto extraordinário. O Joaquim teve uma infância extremamente feliz no Príncipe, e não podíamos ser mais gratos por isso! Mas como pais, as deficiências da Ilha a nível de saúde e educação, começaram a preocupar-nos. Além disso, a distância da família, os pais a ficarem velhotes e as lonjuras do nosso país, começaram a fazer-nos pensar em regressar a Portugal.
Esta decisão foi bastante ponderada, mas acabou por ser acelerada com a saída mais cedo do Fernando para uma oportunidade de trabalho na Repsol. Para aceitar que era tempo de regressar, ficou só a faltar o cumprimento do meu objectivo profissional: deixar a Fundação Príncipe com um Diretor local. O meu sonho era ficar desempregada. Acordar um dia e sentir que já não era necessária, que a minha organização já não precisava de mim. E foi quando encontrei o meu sucessor que senti que sair era a decisão mais sustentável e responsável para a minha organização e que eu estaria pronta para um novo desafio, uma nova Ilha. Estava pronta para ir atrás do Fernando!
Deixei a minha organização em muito boas mãos, mas a ligação ao Príncipe continuou, não só no amor pelas pessoas mas também porque deixámos um alojamento local – a Roça Atalaia, onde partilhamos o nosso cantinho especial no paraíso com quem nos quiser visitar!
Regressámos a Sines, minha terra, e onde também tínhamos já aberto outro alojamento local, a Villa Saudads (em Portugal), por isso já tínhamos alguma base criada para o nosso regresso.
O Fernando já tinha regressado e assentado as bases, e já tinha concorrido ao Programa Regressar. Foi ele me deu a conhecer o Programa e partilhou comigo os contactos certos. Para mim, que regressei sem ter ainda um trabalho definido, os apoios financeiros do Programa foram sem dúvida uma lufada de ar que me permitiu regressar a casa, com calma e tranquilidade.
O processo foi relativamente fácil e a equipa foi sempre extraordinária e rápida no esclarecimento de dúvidas. Fiquei surpreendida com a rapidez e facilidade do processo. No meio de toda a burocracia de uma mudança de vida, a facilidade do Programa Regressar foi sem dúvida uma lufada de ar fresco.
Regressámos a Portugal – eu, o Joaquim (o Fernando já tinha regressado), e trouxemos ainda a nossa comadre Maya com os 3 filhos, que emigraram do Príncipe para Portugal. Tínhamos que trazer um bocadinho do Príncipe connosco!
O Programa Regressar fez-nos sentir bem-vindos ao nosso país, e não podíamos estar mais gratos. Sentimo-nos tão bem-vindos de voltar que trouxemos também uma Jacinta na barriga, sem sabermos.
Hoje somos 4, e passado 1 ano, parece que o Príncipe foi noutra vida, e que Portugal foi sempre a nossa casa, e a verdade é que nunca deixou de ser!
O Programa Regressar deseja muitas felicidades neste vosso regresso e muitos sucessos!