O rei vai nu

No passado dia 21 de janeiro de 2025, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, proferiu um discurso que, muito provavelmente, resistirá ao teste do tempo. Num mundo em rutura, marcado pelo fim da ordem internacional baseada em regras e pelo regresso cru das relações de força, Carney teve a coragem de chamar as coisas pelo nome e de expor uma verdade desconfortável: muitas das nossas certezas coletivas assentam hoje numa ficção.
Não posso deixar de o citar:
“Em 1978, o dissidente checo Václav Havel escreveu um ensaio chamado “O Poder dos Impotentes”. Nele, faz uma pergunta simples: como é que o sistema comunista se sustentava?
A resposta começa com um vendedor de hortaliças. Todas as manhãs, este merceeiro coloca um cartaz na sua montra: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!” Ele não acredita naquilo. Ninguém acredita. Mas coloca o cartaz na mesma, para evitar problemas, para sinalizar conformidade, para se acomodar. E, porque todos os lojistas em todas as ruas fazem o mesmo, o sistema persiste. Não apenas através da violência, mas através da participação de pessoas comuns em rituais que sabem, no seu íntimo, serem falsos.
Havel chamou a isto “viver dentro da mentira”. O poder do sistema não vem da sua verdade, mas da disposição de todos a representá-lo como se fosse verdade. E a sua fragilidade vem da mesma fonte: quando uma pessoa, uma pessoa que seja, deixa de representar, quando o vendedor de hortaliças retira o seu cartaz, a ilusão começa a quebrar-se.”
Esta metáfora aplica-se hoje, de forma inquietantemente clara, à dívida pública americana e ao papel do dólar. Todos sabem que a dívida é insustentável, mas poucos o dizem abertamente. Bancos centrais, governos e instituições continuam a tratar estes ativos como portos seguros, apesar de serem usados para financiar políticas coercivas, financiar possíveis invasões da Gronelândia ou dos Açores, guerras económicas e a subordinação de aliados ou pactos com inimigos declarados da Europa.
Ao mantermos as nossas poupanças e futuro ancoradas na dívida americana e no dólar, estamos também a manter o cartaz na montra. Alimentamos a ilusão de estabilidade enquanto aceitamos riscos políticos, jurídicos e financeiros cada vez mais evidentes.
Há quem argumente que não existe alternativa credível, que o sistema financeiro internacional não pode funcionar sem a dívida americana e sem o dólar como moeda de reserva. Mas esse argumento confunde conveniência com inevitabilidade. Ao longo da história, todas as moedas hegemónicas pareceram eternas até deixarem de o ser. O risco maior não está em reconhecer esta realidade, mas em fingir que ela não existe e continuar a comportar-nos como se nada pudesse mudar.
Viver na verdade, hoje, implica aceitar que segurança financeira não se constrói sobre promessas políticas instáveis nem sobre regras que já não são aplicadas de forma consistente. Implica compreender que a confiança é um ativo frágil e que, quando se perde, desaparece rapidamente. Retirar o cartaz da montra é, afinal, um ato de responsabilidade individual e coletiva: proteger as nossas poupanças, preservar a nossa autonomia e recusar sustentar uma ilusão que beneficia poucos à custa de muitos.
Tal como o merceeiro de Havel, também nós temos uma escolha. Continuar a “viver dentro da mentira” ou assumir que estes ativos são hoje investimentos altamente especulativos. A prudência exige coerência: diversificar, reforçar a confiança nas nossas moedas e nas dos nossos aliados, e recusar ser cúmplices de uma ficção que pode ruir a qualquer momento.
Retirar o cartaz não é um gesto ideológico. É um ato de lucidez. E dizer claramente que o rei vai nu.

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