Florbela Espanca-Parte I

Da infância conturbada à neurose

Minh’ alma é Princesa Desalento,
Como um poeta, lhe chamou um dia.
É revoltada, trágica, sombria,
Como galopes infernais de vento!
…In Livro de Sóror Saudade, 1923

Florbela da Alma da Conceição Espanca, a poeta alentejana de Vila Viçosa, onde nasceu em 1894, de uma relação fora do casamento de seu pai, João Espanca, que fazendo valer um costume de raiz medieval face à infertilidade da sua esposa, se sentiu legitimado para ter com Conceição Lobo, os filhos que desejava, primeiro Florbela e alguns anos mais tarde, Apeles.

Florbela revela-se ao longo da sua curta vida uma mulher de espírito livre de preconceitos mas sem a coragem de os quebrar a todos e, por isso, ao mesmo tempo, atormentada, quer pela realidade vivida, quer pelo seu imaginário, desejos não alcançados, frustrações múltiplas que acabam por a fazer viver num equilíbrio difícil entre a sua alma ousada, intensa, apaixonada, contraditória, doente e o desespero, a frustração, a angústia, a mágoa e o desalento a que facilmente se entregava. Esta neurose que foi sua companheira de vida e de solidão profunda que sempre sentiu, revelam-se nas suas ações, nos seus textos e na sua relação com a vida, com várias tentativas de suicídio. Criança ainda, aos 9 anos, escreve o seu 1.º poema com o título:

“A vida e a morte”. E poderia ser outro o título? Disse ela “aos oito anos já fazia versos, já tinha insónias e já as coisas da vida me davam vontade de chorar”. Ela, que apesar de ter sido amamentada pela mãe biológica nos primeiros meses de vida, mal a conheceu, tendo sido criada pelo pai e pela madrasta. A mãe biológica morre quando Florbela tinha 8 anos de idade. A relação com a madrasta oscila entre algum afeto e bastante rigidez. O pai, embora a tenha acolhido no seu lar, regista-a como filha de pai incógnito. Neste tempo não lhe falta nada no que respeita às suas necessidades materiais, apenas o amor paternal. João Espanca vive entregue aos seus afazeres profissionais, fotógrafo e negociante de antiguidades, fazia várias viagens, sem falar na sua vida de aventuras amorosas que o levavam a estar afastado dos filhos.

Florbela já então se considera uma criança triste. Esta tristeza há-de persegui-la por toda a sua vida, sendo apenas atenuada pelo grande amor fraternal que sente pelo seu irmão Apeles, cuja morte acaba por a levar a desligar-se cada vez mais da vida. O seu morto querido acentuará ainda mais o precipício em que já vivia, a falta de interesse por tudo. Continua apenas a escrever e destacam-se as tentativas de suicídio até ao episódio da noite de 7 para 8 de dezembro de 1930, que a levará a morte. A morte, sempre tão presente, sempre tão desejada, como se pode concluir das suas cartas, contos e poemas:

“E não há gestos novos nem palavras novas” escreve no dia 2 de dezembro de 1930 no “Diário do último ano”.

Florbela é a mulher que se revela e que se esconde, nas suas poesias, nas cartas para os amigos, no seu comportamento que não era de todo linear pois. Por um lado, é demasiado avançada para o seu tempo, em termos de comportamento amoroso, moral e sexual, por outro, tem um comportamento de burguesa conservadora e um pouco alienada da realidade social e política do seu tempo. Os movimentos feministas portugueses do seu tempo, passam-lhe completamente ao lado. Não se vê engajada nem nas questões políticas, nem nas questões de género do seu tempo. Ela que não aceitava confinar-se ao espaço doméstico nem a situações de repressão nesse mesmo espaço ou em espaço público.

Florbela e o irmão

Sempre contraditória, Florbela, nos poucos anos de vida, parece ter tido dificuldade em encarar a maturidade, parece querer permanecer na adolescência, numa ambivalência entre a vontade de querer ser uma mulher livre dos códigos de conduta do seu tempo e a necessidade de proteção e de um amor idealizado e imaginado, quer por parte dos familiares, quer dos homens por quem se apaixonou.

Esse amor idealizado, que não existe na realidade, porque todos os seres humanos falham, e a vida é mais do que sonho, fizeram dela uma sombra de si mesma, um ser cada vez mais amargurado, desiludido, triste, solitário, de uma melancolia exacerbada ao limite. Aos limites do sofrimento.
Poeta. Florbela Espanca, viveu numa época que não estava preparada para ela, para o seu sentimento de emancipação da mulher, para a intensidade das suas emoções, para a riqueza da sua personalidade, para o assumir da sua sensualidade e erotismo.

Personalidade de grande riqueza interior, e de existência singular para o ambiente da época, foram muitos os obstáculos que teve de enfrentar para editar e divulgar a sua obra. A sua obra alcançará eco nos meios literários especialmente após a sua morte, constituindo-se Florbela como um mito literário de difícil explicação. Com efeito, Florbela Espanca é um caso raro de popularidade no que diz respeito à poesia portuguesa contemporânea. A sua obra foi objeto de ensaios de nomes ilustres da literatura nacional, como Vitorino Nemésio, José Régio, Jorge de Sena e, mais recentemente, Fernando Pinto do Amaral e José Luís Peixoto.

Atualmente é das poetas portuguesas mais estudadas por investigadores brasileiros da sua vida e obra, com vários trabalhos publicados, alguns deles recorrendo ao Espólio Florbela Espanca da Biblioteca Municipal Florbela Espanca de Matosinhos. Este Espólio da autora inclui cartas para o seu segundo marido, António Guimarães, recortes de jornais, fotografias e outros documentos biográficos.
O que queria realmente da vida? Talvez o sonho intangível, talvez a imortalidade. Esta última conseguiu-a a partir da data da sua morte tal como ela o previu e desejou.

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