O Crescimento e a Diversificação Económica de Macau

Macau, como Região Administrativa Especial da China, tem passado por transformações económicas significativas nas últimas décadas, com um modelo tradicionalmente centrado no setor do jogo (casinos) a enfrentar a necessidade urgente de diversificação económica, conforme as políticas definidas pelo Governo da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) nas Linhas de Ação Governativa nos últimos 10 anos. O crescimento e a reconversão da economia são orientados tanto por políticas locais como por diretrizes nacionais, visando garantir estabilidade a longo prazo e reduzir a dependência de um único setor.
Trajetória do Crescimento Económico
- Base histórica: Durante anos, Macau foi conhecida como a “Capital Mundial do Jogo”, com o setor a contribuir para mais de 80% das receitas fiscais e cerca de 50% do PIB (pré-pandemia).
- Recuperação pós-pandemia: Após um declínio acentuado durante a COVID-19, a economia retomou o crescimento em 2023, com um aumento real do PIB de 80,5% (devido à baixa base de comparação). Para 2024, projeta-se um crescimento mais moderado, entre 15% a 25%, impulsionado pela retoma do turismo e do consumo.
- Desafios: A economia de Macau é altamente volátil devido à sua dependência do jogo e do turismo externo, exigindo estratégias de mitigação de riscos.

Estratégias de Diversificação Económica
O governo da RAEM tem promovido ativamente a diversificação, alinhada com as diretrizes nacionais, nomeadamente no Plano Quinquenal de Macau e nas políticas de integração na Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau. As áreas prioritárias incluem:
a) Desenvolvimento de Indústrias Não-Jogo
- Turismo de Experiência e Lazer:
• Promoção de turismo cultural (ex.: Centro Histórico de Macau, património da UNESCO), turismo médico, e eventos internacionais (como o Grande Prémio de Macau).
• Desenvolvimento de complexos hoteleiros e de entretenimento familiar (ex.: atracões temáticos, espetáculos). Conforme informação divulgada pela Direção dos Serviços de Estatísticas e Censo, em 23 de janeiro do corrente ano, o número de entradas de visitantes na RAEM totalizou 40 069 360, mais de 14.7%, em termos anuais.
Serviços Financeiros:
• Expansão do setor financeiro, com foco em finanças verde e finanças entre a China e os Países de Língua Portuguesa aproveitando o papel de Macau como plataforma de serviços na cooperação económica e comercial entre a China e os nove Países de Língua Portuguesa.
• Criação de uma bolsa de ativos em yuan (RMB) e desenvolvimento de serviços de gestão de património.
Tecnologia e Inovação:
• Cooperação com Zhuhai (especialmente na Zona de Cooperação Industrial Guangdong-Macau) para desenvolvimento de tecnologias como inteligência artificial, medicina tradicional chinesa digital e big data.
• Atração de start-ups e incentivos fiscais para empresas de alta tecnologia.
Economia Cultural e Criativa:
• Apoio a indústrias como cinema, design e gastronomia (ex.: inscrição de Macau como “Cidade Criativa da UNESCO na Gastronomia”).
a) Integração Regional na Grande Baía
- Macau colabora com cidades como Guangzhou, Shenzhen e Hong Kong em projetos de logística, I&D, e mobilidade de talentos.
- A Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau e a facilitação de vistos reforçam a conectividade.
b) Plataforma de Cooperação China-Países de Língua Portuguesa - Macau posiciona-se como um hub comercial, financeiro e de mediação entre a China e os países de língua portuguesa, promovendo negócios em setores como energia, agricultura e infraestruturas.
Com o apoio da República Popular da China e os Países de Língua Portuguesa (Angola, Brasil, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe) foi criado o Secretariado Permanente, em 2024, um ano após a fundação do próprio Fórum de Macau, que ocorreu em outubro de 2003, com a sua sede permanente em Macau e com a presença dos delegados de todos os países participantes, à exceção do Brasil cuja função do delegado é acumulada pelo Cônsul-geral do Brasil em Hong-Kong e Macau. O Secretariado do Fórum de Macau tem estado a organizar atividades para promoção económica e comercial destinados aos empresários dos países participantes do Fórum de Macau para concretizar a diversificação económica de Macau.

Resultados e Desafios na Diversificação
Progressos:
- Redução da contribuição do jogo para o PIB (de 60% em 2019 para cerca de 40% em 2023, embora ainda dominante).
- Aumento do investimento em infraestruturas não-jogo (ex.: novos centros de conferências, hospitais especializados).
- Expansão do setor de serviços financeiros, com crescimento anual de cerca de 10% (2020-2023).
Desafios persistentes:
- Dependência estrutural do jogo: Difícil alterar rapidamente um modelo económico consolidado.
- Escala limitada: Pequena população (cerca de 680 mil) e território restrito dificultam a diversificação industrial.
- Concorrência regional: Competição com Hong Kong (finanças) e outras cidades da Grande Baía (tecnologia).
- Qualificação da força de trabalho: Necessidade de requalificação profissional para setores emergentes.

Perspetivas Futuras (2025-2030)
- Metas do governo: Alcançar uma economia mais equilibrada, com os setores não-jogo a contribuírem para 60% do PIB até 2030.
- Oportunidades chave:
• Desenvolvimento da economia digital (ex.: comércio eletrónico transfronteiriço).
• Turismo de saúde e bem-estar, aproveitando a medicina tradicional chinesa.
• Finanças islâmicas e gestão de ativos em RMB. - Riscos: Flutuações do turismo global, tensões geopolíticas, e ritmo lento de diversificação.
Conclusão
Macau está numa fase crítica de transição económica, equilibrando a manutenção da vitalidade do setor do jogo com a criação de novos motores de crescimento. O sucesso dependerá da implementação eficaz das políticas de diversificação, do reforço da cooperação regional, e da capacidade de adaptação a tendências globais. A integração na Grande Baía e o papel único de plataforma com os Países de Língua Portuguesa são vantagens estratégicas que poderão transformar Macau numa economia mais resiliente e multifacetada.
Com base nos dados mais recentes (geralmente referentes a 2023 ou estimativas para 2024), o PIB per capita de Macau, aproximadamente USD 80 000 a USD 90 000 (dependendo da flutuação, do setor, do jogo e do turismo) que é consistentemente classificado entre os mais altos do mundo, geralmente na segunda posição global e primeira na Ásia, dependendo da metodologia utilizada.
No entanto, o PIB per capita elevado em Macau não reflete necessariamente a distribuição equitativa da riqueza…




