Os romances de aventuras de Emílio Salgari

Sandokan e os heróis portugueses

O profícuo escritor italiano Emílio Salgari, autor de Sandokan, o Tigre da Malásia, viu muitas das suas obras serem vertidas para a Língua portuguesa, se bem muitas outras não tenham, inexplicavelmente, merecido essa distinção. E recorro ao termo “inexplicavelmente” pelo simples facto de (pouca gente sabe disso) muitos dos heróis retratados nos livros de Salgari serem de estirpe portuguesa. O mais famoso de todos é Yanes (Eanes) de Gomera, ou melhor Gastão de Sequeira (assim chamado nas edições portuguesas), o irmão branco de Sandokan, mas muitos outros (ilustres desconhecidos em Portugal) foram imortalizados pela pena desse transalpino que aos 21 anos de idade começou a escrever os seus contos em folhetins nas páginas de jornais de Verona e Milão. De 1883 a 1911, ano da sua morte, Emílio Salgari produziu 87 romances e várias dezenas de contos. E não se julgue que Salgari fosse trota mundos de craveira: em toda a sua vida efectuou apenas uma viagem no mar Adriático, quando frequentava um curso de marinha que nunca lhe serviria de nada. Tão pouco a vastidão da sua obra lhe proporcionou desafogo económico, já para não falar na ausência de reconhecimento público na época em que viveu. Os críticos nunca deram atenção ao seu trabalho, considerando-o mesmo como um escritor menor. Opiniões à parte, o certo é que o trabalho do veronês é hoje mais lido que o de Dante e integra o currículo das escolas italianas. Emílio Salgari encontra-se entre os 40 autores italianos mais traduzidos de sempre. Filho de modestos comerciantes, casado com uma camponesa, pai de quatro filhos, e, sobretudo, vítima de sucessivos editores que o exploraram ao longo da sua carreira, Emílio Salgari passou por sucessivas privações que o levariam ao suicídio, por harakiri, em Turim, a 25 de Abril de 1911.
As Maravilhas do Ano 2000, ficção científica escrita noventa anos antes da mudança do milénio, fez sonhar gerações inteiras. É, seguramente, um dos seus livros mais interessantes. Entre as antevisões de Salgari, está a transmissão das notícias através da televisão. Em jeito de curiosidade, recorde-se que a narrativa de Maravilhas do Ano 2000 termina em Lisboa, local onde as suas personagens são hospitalizadas por não aguentarem o ambiente eléctrico que as rodeava. Na altura em que o livro foi escrito, a electricidade dava os primeiros passos o que levava a que as pessoas associassem a nova forma de energia a efeitos algo funestos.

A descrição que Salgari faz de Gastão de Sequeira – que muitos dos leitores certamente se lembram de ver encarnado no ecrã pelo actor francês Philippe Leroy –, desmistifica o cliché que habitualmente se tem dos portugueses. Escreve Salgari que Sequeira é “um europeu de estatura igualmente alta, de feições correctas, aristocráticas, de olhos azuis e doces, e um bigode negro que começava já branquear, ainda que parecesse mais jovem que o outro (Sandokan).” No livro Os Tigres de Mopracem, de 1883, Sequeira é apresentado como uma pessoa “ágil como uma enguia. Alegre como podia ser um marinheiro que navega no luxo, atascado em ouro e com um misto de altivez e cortesia que o davam a conhecer à primeira vista como um fidalgo”. Ele era, na imaginação de Salgari “um nobre português das Celebes, um daqueles homens que emigrando haviam centuplicado o património, e que depois tinham tido a coragem de velejar num pequeno parau, comerciando entre as ilhas da Malásia.” Gastão de Sequeira representa o típico homiziado, português por conta própria que se enquadra perfeitamente com os restantes heróis de Salgari, “proscritos, foras-da-lei ou bárbaros perseguidos pela avidez de colonizadores “civilizados” denunciando o fundo libertário da visão salgariana de um mundo então eurocêntrico, racista e imperialista”.
Os heróis portugueses de Salgari espalham-se pelos cinco continentes e pelos sete mares, povoando vários dos romances do escritor, que em Portugal deram à estampa graças à editora Romano Torres. O continente americano é palco de excelência das aventuras saídas da prodigiosa imaginação do italiano. Em o Homem do Fogo é romanceada a vida de Diogo Álvares Correia, figura histórica que ficou conhecida entre os índios brasileiros como o Caramaru, “pau de fogo”, pois foi ele o primeiro homem que viram disparar uma espingarda. Salgari descreve-o assim: “Diogo Álvares Correia, que tão grande parte havia de tomar na colonização do Brasil, e pelas suas aventurosas proezas tanta curosidade havia de despertar na corte de Portugal e na de Henrique II de França, nascera em Viana do Castelo, pela época em que toda a Europa estava impressionada com os prodigiosos descobrimentos na América e com as audaciosas empresas dos portugueses nas Índias Orientais”. Referindo as dificuldades deste tipo de empreendimentos, Salgari nota que “uma viagem de cinco e seis meses não assustava os marinheiros portugueses nem castelhanos, habituados que estavam a fazer a travessia até à Ásia e América em barquinhos insignificantes que hoje nem sequer se atreveriam a sair do Mediterrâneo”. Na Ilha dos Sargaços, Dom Fernando de Ulmo, rico fidalgo de Lisboa, deixa toda a sua riqueza e, a bordo de uma caravela, atinge “a lendária ilha das Sete Cidades resplandecentes de ouro que possuía palácios de mármore e castelos que lembravam a arquitectura portuguesa de muitos séculos atrás.” Entre os livros de Salgari que nunca mereceram (!?) tradução para português, estão o Il Faro di Dhoriol, cuja trama tem lugar na nossa costa “à entrada do Tejo, o rio mais importante do país, em cujas margens se encontra a bela e opulenta Lisboa” e que tem como herói um simples mas bravo faroleiro chamado João Miguel; o Il Re Della Pratera, onde assistimos às aventuras do marquês de Almeida, por entre as plantações de açúcar brasileiras e os grandes espaços do México; e, finalmente, o Nelle Floreste Vergini onde o herói, Antão Cordeiro, é seringueiro e enfrenta todos os perigos que se ocultam nas densas florestas do Mato Grosso.

O enredo do Dramas da Escravatura, publicado em Roma em 1896, centra-se na costa africana que é escrutinada pelo navio Guadiana que tem ao seu comando o capitão Alves “um dos mais audaciosos negreiros que por esse tempo sulcavam o Atlântico”, acompanhado nas suas andanças pelo contramestre Furtado, o médico Estevão e o jovem Vasco. Juntos embrenham-se no Congo e pelas terras do rei do Bango, no Gabão. Também em África, desta vez na Costa do Marfim, decorre a acção do romance La Costa d´Avvorio (também sem tradução para português) que tem como herói o caçador Antão de Carvalho. Ele e o seu melhor amigo, o italiano Alfredo Lusardo, enfrentam amazonas negras e entram na cidade santa de Dahomé disfarçados de embaixadores do Bongú. Os seus carregadores negros envergam “ricos calções brancos, cintas vermelhas, mantos cheios de arabescos, lenços de seda de cores vivas e armadas de carabinas. Para eles próprios reservaram os dois aventureiros os dois melhores cavalos que foram adornados de guarnições vermelhas e ricas gualdrapas recamadas de ouro. E duas umbrelas encarnadas, guarnecidas de franjas, distintivos das personagens reais.” Antão de Carvalho, fazendo jus à reputação do português miscegenador de raças, é acompanhado por Urada, uma guerreira local muito bela que no fim da aventura acompanha o português de regresso ao solo pátrio.
Na Austrália decorre o romance O Continente Misterioso, cujas figuras centrais são os marinheiros Diogo e Cardoso, cúmplices na aventura de um excêntrico cientista paraguaio. A trama da Cimitarra de Buda tem lugar em Maio de 1858 numa festa da feitoria dinamarquesa da China, “na ilha da foz do Si-Kiang”. Nessa festa, abrilhantada por uma orquestra portuguesa mandada vir expressamente de Macau, estão vários jogadores, entre os quais o português Olivais. Escreve Salgari que eram “todos ricaços que ganhavam ou perdiam somas respeitáveis sem pestenejar.” Também nos mares da China decorre a acção do I Solitari di Oceano, igualmente sem tradução para a língua de Camões. Tem como figuras centrais os irmãos João e Cirilo Ferreira, passageiros do Alcião “cujo comandante e proprietário era um capitão Carvalho, um gigante que fazia tremer toda a tripulação apenas com um olhar.”
Uma reedição ou edição de todo este (e outro) manancial de relatos de aventuras seria uma óptima forma de cativar as crianças e jovens portugueses para a leitura e ao mesmo tempo fazerem-nos apaixonarem-se pela história do seu país comum. É que não existe, nem existiu em Portugal ninguém na área das letras que contribuisse através do romance juvenil para a divulgação das mais fascinantes personagens da nossa história, mesmo que muitas delas, como é o caso, sejam ficcionadas.

O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico

Acompanhe-me nesta magnífica viagem

Deixe um Comentário

Your email address will not be published.

Start typing and press Enter to search