Qual é a origem das línguas ibéricas?
Parte III

Uma história em cinco faixas
Para percebermos o que se passou, dividamos a tal faixa norte em cinco parcelas, mais ou menos iguais, que correspondem a cinco línguas.
Isto é uma simplificação. Nas fronteiras entre as parcelas, havia muita mistura – aliás, estamos perante um continuum dialectal, ou seja, um território onde não há fronteiras muito definidas entre línguas (excepto, neste caso, as fronteiras do basco).
Esta divisão em cinco parcelas ajuda-nos muito a perceber a origem – e a situação actual – das línguas ibéricas. A sua expansão foi na vertical: de norte para sul – embora a língua central tenha começado a engordar, atropelando as vizinhas.
Comecemos a história pelo V, encostado ao Mediterrâneo, para terminar no I, encostado ao Atlântico.
Na faixa V, desenvolveu-se a língua que hoje conhecemos, em geral, como catalão. O catalão está muito próximo do occitano, uma língua falada no sul de França[4]. Está também próximo do francês. Isto, no que toca ao léxico. Note-se, por exemplo, palavras como «parlar», «manjar»… Ou «por», muito mais próximo do «peur» francês do que do «miedo» castelhano.
O catalão foi a língua principal da corte dos soberanos da Coroa de Aragão. Barcelona era a principal cidade, embora a capital fosse dupla: Saragoça e Barcelona. As línguas da corte eram também duas: aragonês e catalão. No entanto, na verdade, o catalão era a língua de mais prestígio, língua de Barcelona, a principal cidade marítima do território, língua por excelência daquela Coroa e da sua expansão pelo Mediterrâneo. Ainda hoje temos vestígios dessa expansão: há uma terra na Sardenha onde o catalão ainda se ouve entre as gerações mais velhas. Note-se que, em Valência, o nome habitual que se dá à língua própria da região é «valenciano» — se o valenciano é uma língua própria ou um nome alternativo para o catalão é discussão que ocupa muitos valencianos. Os linguistas, em geral, consideram o valenciano como um glotónimo (nome de língua) do catalão.
Saltemos (por agora) por cima da faixa IV e avancemos para a faixa do meio, a III. Falamos do castelhano — esta língua acabou por ser a língua de uma importantíssima coroa. Ganhou prestígio. Expandiu-se para sul, a cavalo da coroa castelhana — e pelo mundo a cavalo da expansão marítima. Entretanto, começou também a ser chamada «espanhol». Desta forma, é uma língua com dois glotónimos: «castelhano» e «espanhol». Com estes dois nomes, é língua de muitos países e oficial em toda a Espanha.
Repare-se que o castelhano surgiu encostado ao basco. Ora, isto tem a sua importância. Há características muito castelhanas, que distinguem a língua das sua vizinhas, que talvez tenham vindo do basco. Um dos exemplos por vezes apontados é a pobreza vocálica: tanto o basco como o castelhano têm poucas vogais (apenas cinco), enquanto as línguas vizinhas (o catalão e o português, por exemplo) têm muitas mais. Apetece dizer que o castelhano era o romance ibérico falado por gente habituada a ouvir e a falar basco.
O II e o IV são as duas faixas em que as línguas mais se perderam. Hoje, nenhuma delas é oficial, embora sejam reconhecidas como património cultural pelas Astúrias e por Aragão. Nestas faixas, a expansão para sul ficou cortada pela expansão do castelhano e do catalão. Hoje em dia, estão em perigo de desaparecer. A língua da faixa II, no entanto, é oficial… em Portugal! Sim, esta língua tem vários nomes e variedades. É o asturiano, mas também o leonês — ou o mirandês! O mirandês faz parte desta segunda faixa.
Chegamos, por fim, à faixa I. O galego — e o português… Tudo indica que a nossa língua começou nesse noroeste da Península, muito antes da criação de Portugal. Ninguém lhe daria nome, mas como estamos na Galécia, podemos falar de galécio — ou galego.
Quando chegamos ao século XII, a língua na rua era o tal galego, designado pelos seus falantes usando a palavra «linguagem» — era a linguagem da fala dos galegos e dos novíssimos portugueses. A língua dos documentos oficiais era, ainda, o latim. Note-se que, antes de se tornar oficial em Portugal, a língua foi usada, com muito proveito, para as produções artísticas da corte de vários reis. O rei castelhano Afonso X escreveu boa poesia na nossa língua!
Quando Afonso Henriques criou o reino de Portugal, a faixa I das línguas ibéricas, a mais ocidental, ficou dividida por uma fronteira política que veio a revelar-se uma das mais resistentes de todo o mundo. O Reino de Portugal expandiu-se de norte para sul e levou com ele a língua, que sofreu influências do moçárabe. Algumas gerações depois, a corte de D. Dinis transformou a tal linguagem trazida do Norte na língua oficial do reino. Em breve, começaria o processo de criação de uma norma escrita. Mas essa já é outra história…
O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico




