Obra de Capa

Mona Lisa revisitada

Era uma vez a história ingénua de um ponto escuro (ou obscuro) que pretendia inscrever-se em todos os sítios, em todos os lugares, numa tentativa de pertencer ao universo total e absoluto da história das imagens. Na sua infância e juventude, esta forma minimal, o ovóide, deixava-se gestualizar pela mão treinada casimiriana, que o integrava em sucessões ritmadas ou sequências manifestadas por explorações de cores e linearidades de direção. Ao crescer, a sua formatação lógica/ilógica passou a adoptar uma nova configuração de parasitar/dinamizar o espaço da imagem, incorrendo na contaminação directa de várias obras da história da arte, utilizadas como depósitos de reflexão sobre a originalidade e reprodutibilidade artísticas. Será a obra um evento terminado no qual mais ninguém dele se pode apropriar? Não poderá um artista pegar na obra de um outro e continuá-la até ao fim dos tempos? A herança cultural pareceu a esta forma ovalada o caminho certeiro para efectuar a sua nulidade de expressão (já que ela não nos diz nada) para exponenciar a possibilidade da totalização da escolha (a escolha de obras é ilimitada), até porque Casimiro aparenta-se-nos como o eterno transgressor ou disruptor. Estas escolhas de obras (desde os primórdios artísticos até à contemporaneidade) representam a coligação directa entre a entidade elevada das belas-artes, na sua sublime e imparável narrativa espiritual e o gesto ovoidal como agente de abertura de vazios ou abismos na linearidade da representação.
Assim surge este improvável enlace entre a sobejamente conhecida Mona Lisa e este furtivo e inquietante ser/mancha, que renitentemente persiste em se delongar nas imagens. Com que propósito se insere no amplexo do corpo de La Gioconda? Que espécie de transposição de significado pretende ele estruturar? Não será a obra de Leonardo da Vinci um acto terminado, ou melhor, não será uma heresia ousar tocar na perfeição da imagem? Ao nos libertamos das ideias preconcebidas das imagens enquanto irredutíveis presenças perfeitas e imaculadas, o ovóide casimiriano irrompe como actor teimoso em cena, para desvirtuar o passado findo, catalisando uma nova metodologia de olhar para aquilo que tínhamos por garantido, utilizando o já feito como ponto de partida para dinamizar aquilo ainda por fazer.
Rodrigo Magalhães

O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico


Rodrigo Magalhães

Rodrigo Magalhães. Nasceu em 1993. Doutorado em História da Arte. Colaborador mensal no jornal  As Artes Entre As Letras, colaborador da ArteCapital. Participa em revistas e catálogos de Arte e exerce trabalho de curadoria. Os interesses de investigação ancoram-se na História da Arte, nomeadamente na análise e historiografia de tendências, movimentos e desenvolvimentos estéticos da arte contemporânea, desdobrando-se consequentemente numa ramificação com outras vertentes artísticas como a literatura, o cinema, a música, dando expressão à capacidade polivalente da arte no período contemporâneo.



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