Descobertas à maneira deles

Assim, na douta opinião dos donos do documentário “Guerra e Civilização”, coube aos norte-americanos a função de quebrar um isolamento do Japão com mais de 250 anos.
Mas… e antes disso? Que é feito desse período que a historiografia moderna denomina de “século cristão” e que medeia entre 1543 – ano da chegada dos namban jin, “bárbaros do sul”, António da Mota, Francisco Zeimoto e António Peixoto à ilha de Tanegaxima – e 1639, ano da expulsão dos portugueses, pré anunciada pelo édito anti-cristão do imperador Ieyasu e definitivamento concretizado na sequência da violenta revolta de Shimabara? Será que é possível fazer tábua rasa de um século de profundos contactos luso-nipónicos em que se fez comércio; se exerceu proselitismo; se circulou com certa à vontade pelos diferentes espaços geográficos do país, e onde até se geraram processos de miscigenação através de casamentos com mulheres locais?
Será que as observações efectuadas pelos portugueses que resultaram, como observa o historiador Rui Manuel Loureiro, “numa fabulosa acumulação de conhecimentos sobre a realidade nipónica, a nível da geografia, da etnografia, da história e da linguística”, que, uma vez traduzidos em textos e mapas, configuraram “uma autêntica revolução a nível da visão europeia do mundo”, não é digna de registo e aceitação por parte de quem hoje domina o universo do audiovisual no planeta?
Com a expulsão dos portugueses das terras do Sol Nascente encerrava-se, “de forma inglória”, como nota Rui Manuel Loureiro, um capítulo da história nipónica, que, “feitas as contas, tão grande benefícios – materiais, espirituais e culturais – trouxera a ambos os povos.”
Será que semelhante cabedal nada pesa nos compêndios dos consultores científicos destes e doutros documentários do género?
Pelos vistos, não.
Mas não se pense que a “Guerra e Civilização” é caso único. Já o comediante Michael Palin, no seu tão baladado documentário “De Pólo a Pólo”, ignora o referido “século cristão” no episódio em que aborda o arquipélago nipónico, embora não se tenha esquecido de dar o devido destaque aos holandeses, que ocupariam o lugar dos portugueses sem nunca terem conseguido, porém, obter da parte das autoridades locais os mesmos privilégios e a mesma liberdade de actuação.
O tal Michael Palin que regularmente temos de aturar em deambulações temáticas, pretensamente despreconceituosas mas sempre, e tendencialmente, anglo-saxónicocêntricas. Palin percorreu o continente africano de lés a lés e não encontrou um único motivo para falar da passagem dos portugueses, o que é, de facto, extraordinário! Visitou Ceuta e Tânger e os fortes da costa saariana e não reservou uns trinta segundos que fossem do seu discurso para falar, que fosse, ao menos disso, das toneladas de mármore retiradas das paredes do sumptuoso palácio do sultão no decorrer da sangrenta expedição henriquina pré-expansão.
E se Palin assobia para o lado, o mesmo faz Peter Ustinov ao protagonizar uma série documental para a BBC, centrada no Pacífico e na figura do escritor Mark Twain. Também o actor ignorou tudo o que tivesse a ver com os nossos navegadores, pioneiros ali como em qualquer outra imensidão oceânica.
O esclarecimento que urge
Ainda da Discovery Channel, com narração de Mel Gibson, o documentário “Galeão Aventura” remete-nos para o pirata inglês William Kidd, cujo navio naufragou na costa de Madagáscar. O filme acompanha caçadores de tesouros que vão encontrando objectos nas carcaças dos barcos que repousam no leito do oceano. Moedas, canecas, porcelana, crucifixos. Estamos em finais do século XVII e há referências frequentes a ingleses, holandeses, franceses, espanhóis. De todos se fala, menos dos portugueses.
E nós, patetas alegres, parece que não nos sentimos minimamente incomodados com todo este desprezo. Antes, apressamo-nos a incluir trabalhos deste cariz na programação televisiva, na de cá e na de lá e na da antena internacional, anunciando-os como o supra-sumo do documentarismo de carácter histórico que se produz na actualidade. Com isto, não defendo que se devam boicotar tais programas. Pelo contrário. Devem ser transmitidos, mas é fundamental que sejam precedidos de um devido esclarecimento que denuncie as falsidades e contextualize os acontecimentos. E para tal, basta convidar alguém versado na matéria, que é para isso que existem cadeiras nos estúdios das televisões.
Em nome da verdade, e do nosso amor-próprio, não creio que seja pedir muito.
Caso contrário, estaremos a contribuir para uma ainda maior ignorância dos nossos compatriotas, e a continuidade no desconhecimento fora de portas de fundamentais páginas da História da humanidade.
O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico




