Qual é a origem das línguas ibéricas?

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É verdade que a sorte que tiveram foi muito diferente — mas, do mirandês ao castelhano, as línguas que hoje encontramos na nossa península fizeram quase todas, na sua origem, uma viagem de norte para sul (o «quase» está ali por culpa dos bascos). Aqui fica uma brevíssima viagem pela origem das línguas ibéricas.

Que línguas se falavam antes da chegada do latim?

Os linguistas, desde o século XIX, estudam a história antiga das línguas, antes mesmo da escrita, através do método comparativo. Como funciona este método? Sabendo que as línguas tendem a divergir, presume-se que divergem de um ponto comum, no passado. Assim, comparando-as, conseguimos encontrar famílias de línguas com a mesma origem mais ou menos remota.

Todos sabemos, por exemplo, que as línguas românicas têm origem no latim. Há, aliás, alguns vestígios escritos que permitem chegar a essa conclusão — e há, acima de tudo, o próprio latim escrito com o qual podemos comparar as línguas românicas actuais, encontrando facilmente linhas de continuidade e divergência que apresentam muita regularidade. No entanto, se não conhecêssemos o latim, conseguiríamos mesmo assim encontrar semelhanças suficientes entre as línguas latinas para reconstruir com alguma segurança muitas das características dessa língua-mãe.

Catalão: amor
Espanhol: amor
Francês: amour
Italiano: amore
Português: amor
Romeno: amor

Se não soubéssemos latim, poderíamos concluir que estas proximidades são fruto da coincidência? É difícil, com tantas línguas a acertar na palavra. Podia ser uma questão de empréstimo? Sim: o islandês, por exemplo, também tem a palavra «amor». Aliás, se olhássemos para a palavra «rosa», pareceria que as línguas germânicas e as latinas têm a mesma origem:

Francês: rose
Alemão: Rose
Holandês: roos
Dinamarquês: ros
Inglês: rose
Espanhol: rosa
Português: rosa

É por esta razão que o método comparativo não funciona com uma palavra isolada. Funciona com muitas palavras e traços gramaticais, rigorosamente comparados.

O certo é que as línguas latinas partilham muitas palavras e muitas características gramaticais que não partilham com as línguas vizinhas. Para chegar a esta conclusão é preciso estudar com afinco as palavras, as características gramaticais — e há muitas hesitações, caminhos errados, descobertas. Mas consegue-se. E consegue-se mais ainda: sabendo as alterações típicas de cada língua mais recente, podemos reconstruir a língua original.

No caso do latim, não temos de reconstruir a língua original. No entanto, este método (o método comparativo) permitiu-nos descobrir que o latim do qual descendem as línguas românicas não é exactamente o mesmo latim dos textos escritos clássicos. A língua da oralidade nunca é igual à da escrita. A língua formal nunca é igual à língua da rua. E, na verdade, as nossas línguas actuais descendem do latim da rua e não do latim dos livros.

Pois bem: se olharmos para o que veio antes do latim, não temos registos escritos. Mas o método comparativo deu os seus interessantíssimos frutos: descobriu-se que quase todas as línguas da Europa descendem duma língua comum. Essa língua deu também origem às línguas iranianas (o persa, por exemplo) e às línguas do Norte da Índia. Assim, o nome que lhe foi dado é este: proto-indo-europeu. As investigações linguísticas permitiram também descobrir onde vivia o povo que falava essa língua — com toda a probabilidade, no território que é hoje a actual Ucrânia.[2]

Essa tribo indo-europeia espalhou-se e invadiu os territórios vizinhos. O certo é que quase toda a Europa fala hoje línguas que descendem da língua desse povo. As excepções são curiosas: o turco, falado no pequeno território turco na Europa; o húngaro, finlandês e estónio, com origem em povos que chegaram à Europa já depois da expansão indo-europeia, vindos das profundezas da Sibéria; o maltês, aparentado com o árabe; e o basco, num recanto da Península Ibérica.

Bem, mas pensemos nesses indo-europeus, pais das línguas da Europa quase toda. Chegaram à nossa península ali entre os séculos VIII e VI a.C. Encontraram povos autóctones que podemos chamar de iberos, embora saibamos muito pouco deles. Estes invasores indo-europeus são muitas vezes referidos como celtas — por esta época já o povo indo-europeu estava dividido em várias famílias linguísticas e a primeira invasão foi desses celtas.

Foram esses povos que os romanos e os povos germânicos que se lhes seguiram vieram encontrar — note-se que, na península, o latim foi introduzido não apenas pelos romanos, mas pelos germanos que vieram governar a península e que já tinham adoptado o latim.

O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico

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