Qual é a origem das línguas ibéricas?
Parte II

O que aconteceu depois da chegada do latim?
O latim apagou as línguas anteriores, tanto as pré-indo-europeias, como as indo-europeias — excepto o basco, que sobreviveu a isto tudo.[3] Diga-se que as línguas anteriores influenciaram a maneira como a população aprendeu latim — e terão tido influência no particular percurso do latim até às várias línguas ibéricas. Essa influência é particularmente importante quando uma população adulta aprende outra língua. Um adulto já não consegue aprender uma língua como se fosse um falante nativo: a máquina de reconstruir a gramática começa a desligar-se na adolescência. Ora, se uma população adulta aprende uma língua, aprende-a de forma simplificada e com características fonéticas da sua língua materna. Ora, se muitos habitantes da nossa península aprenderam latim já na idade adulta, aprenderam-no como estrangeiros — e é desse latim mal aprendido que nasceram as nossas línguas…
Ora porque tinha sido trazido por soldados, ora porque tinha sido trazido por germanos que o tinham aprendido como adultos, ora porque foi aprendido na idade adulta pelas populações da península, o certo é que, pelas ruas da Península, o latim da população era diferente do latim de Roma — e do latim da escrita. Claro que a norma terá tido o seu efeito: muitos aprenderam o latim clássico e talvez alguns falassem quase como em Roma. Mas é dessas correntes de profundas mudanças que nasceram as nossas línguas de hoje em dia.
Nesta história abreviada, chegamos ao século VIII. Chegam os muçulmanos. A península divide-se em duas zonas. A sul, os muçulmanos governam e a população continua a falar o tal latim da rua, mas agora com muita influência da nova língua de prestígio: o árabe.
A norte, cria-se uma série de reinos, principados e condados cujo principal propósito era reconquistar território aos muçulmanos, para sul. A língua era ainda o latim, mas o latim que se afastava cada vez mais do latim clássico.
Nestas guerras entre norte e sul e nesta expansão vemos a história das línguas e dos povos actuais — entre elas a história da origem da língua portuguesa.
Qual era a situação por volta do ano 1000?
É um bom ano para pararmos um pouco nesta nossa viagem: redondo e fácil de encontrar nas cronologias.
No sul da Península, temos um grande território sob domínio muçulmano. Lá em cima, uma faixa cristã. Tirando a elite de língua árabe no Sul, quase toda a população da península fala qualquer coisa que descende do latim. Os cristãos sob domínio muçulmano falam um latim tardio a que hoje chamamos moçárabe. É um romance com muitas palavras árabes (compreensivelmente). Há-de ter alguma importância na história que estou a contar.
Ali num canto, onde os Pirenéus encontram o Atlântico, um velho povo resiste com a sua língua pré-latina. Aliás, pré-indo-europeia. Falo dos bascos. Nesse canto, o latim não entrou. Ou melhor, entrou, mas não fez desaparecer a língua que lá havia antes.
Deixemos, para já, o basco no seu recanto (havemos de lá voltar). Toda a faixa norte está ocupada pelos reinos, condados e demais entidades mais ou menos duradouras que se ocupam a ir conquistando a península de cima para baixo.
As fronteiras entre os reinos são muito, mas mesmo muito maleáveis. Surgem e desaparecem reinos entre a manhã e a tarde do mesmo dia. Talvez exagere: mas entre o nascimento e a morte de um rei, entram e saem territórios com grande à-vontade. Imagino que muitas pessoas tenham vivido a sua vida sem saber muito bem a que reino pertenciam.
Conhecemos alguns nomes: Astúrias, onde se deu a famosa – e provavelmente mítica – batalha de Covadonga. Aragão. Leão. Castela. Catalunha. Galiza. Portugal…
A lista acima está desordenada – não importa. O que importa, agora, é pensar na questão das línguas.
Pois, as línguas ibéricas, muito por culpa do processo de conquista, foram criadas nessa faixa norte e, depois, expandiram-se para sul, comendo o território ao moçárabe (que, no entanto, não desapareceu por completo — influenciou essas mesmas línguas no processo de expansão para sul).
O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico




