Entre Duas Pátrias
Quando o coração tem duas casas

Viver no estrangeiro é uma experiência que transforma profundamente quem a vive. Mais cedo ou mais tarde, todos os emigrantes acabam por fazer a mesma pergunta: onde é, afinal, a nossa casa?
A resposta nunca é simples. Portugal continua a ser o país das nossas raízes, da língua, da família, das memórias e das tradições que moldaram a nossa identidade. Mas, com o passar dos anos, “casa” passa também a ser o país que nos acolheu, onde construímos uma carreira, criámos amizades e, muitas vezes, constituímos família.
Ser emigrante é aprender a viver entre dois países. É sentir saudades sem deixar de agradecer as oportunidades encontradas. É perceber que o coração consegue guardar dois lugares sem que um substitua o outro.
O regresso a Portugal durante o verão simboliza bem esse sentimento. Mais do que férias, representa um reencontro com as origens… os abraços adiados, os sabores da infância, as ruas familiares e os momentos partilhados com quem nunca deixou de nos esperar.
Mas regressar também nos faz perceber que mudámos. Continuamos profundamente portugueses, mas a vida ensinou-nos a pertencer também ao país onde vivemos. Tornámo-nos cidadãos de dois mundos, enriquecidos pelas experiências de ambos.
Apesar disso, muitos emigrantes continuam a sentir que são lembrados apenas em determinados momentos. Reconhece-se o seu contributo económico, o investimento que realizam em Portugal, a promoção da cultura portuguesa e o orgulho com que representam o país além-fronteiras. No entanto, persistem desafios que merecem maior atenção, desde os serviços consulares até ao reconhecimento do papel das comunidades na definição das políticas que lhes dizem respeito.
O papel do Conselho das Comunidades Portuguesas
É neste contexto que o Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP) assume particular importância.
Enquanto órgão consultivo do Governo para as políticas relativas às comunidades portuguesas residentes no estrangeiro, o CCP tem como missão representar os portugueses da diáspora, acompanhar os problemas que enfrentam e apresentar propostas que contribuam para melhorar a sua ligação a Portugal.
Os conselheiros são eleitos pelas próprias comunidades e constituem uma ponte entre os portugueses residentes no estrangeiro e o Governo português. O trabalho do CCP passa por identificar necessidades, emitir pareceres e apresentar recomendações em áreas tão diversas como a melhoria dos serviços consulares, o ensino da língua portuguesa, a participação cívica e eleitoral, a valorização dos luso-descendentes e o reforço dos direitos dos portugueses residentes no estrangeiro.
Enquanto conselheira das Comunidades Portuguesas no Luxemburgo, considero que esta missão só faz sentido se for exercida com proximidade. Ouvir as comunidades, compreender as suas preocupações e transformá-las em propostas concretas é uma forma de contribuir para que nenhum português se sinta esquecido por viver além- fronteiras.
Um dos temas que continua a merecer reflexão é a representação política da diáspora. Atualmente, os portugueses residentes no estrangeiro elegem apenas quatro deputados para a Assembleia da República, dois pelo círculo eleitoral da Europa e dois pelo círculo Fora da Europa. Tendo em conta a dimensão das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, é legítimo defender que esta representação merece ser reavaliada, de forma a refletir melhor o peso e a importância da diáspora.
A participação eleitoral continua, por isso, a ser essencial. É importante que os portugueses residentes no estrangeiro mantenham a morada do Cartão de Cidadão permanentemente atualizada para o país onde vivem, uma vez que essa informação determina o respetivo recenseamento eleitoral. Exercer o direito de voto é uma das formas mais importantes de participar na vida democrática do país e de fazer ouvir a voz das comunidades portuguesas.

Férias em Portugal… pequenos gestos que fazem a diferença
O regresso a Portugal é um dos momentos mais aguardados do ano. Para que as férias decorram com tranquilidade, importa recordar algumas recomendações úteis.
Em caso de doença ou necessidade de aconselhamento clínico, o primeiro contacto deverá ser feito através da Linha SNS 24 (808 24 24 24). O número 112 deve ser utilizado exclusivamente em situações de emergência, como acidentes graves ou risco de vida.
Para quem viaja de automóvel, sobretudo em longas distâncias, a prudência é fundamental. O cansaço continua a ser uma das principais causas de acidentes rodoviários. Planear a viagem, fazer pausas regulares, hidratar -se e nunca conduzir com fadiga são cuidados simples que podem fazer toda a diferença.
Chegar em segurança é sempre o melhor começo para umas férias em família.
A diáspora também é Portugal
As comunidades portuguesas constituem um dos maiores patrimónios de Portugal. Espalhadas pelos cinco continentes, levam consigo muito mais do que a nacionalidade. Levam a língua portuguesa, a cultura, as tradições, os valores, a capacidade de trabalho e a forma de estar que distinguem Portugal no mundo. São verdadeiros embaixadores do nosso país, promovendo diariamente a sua imagem através do seu contributo económico, social, científico, empresarial e cultural.
Mas preservar esta ligação exige mais do que sentimento. Exige um compromisso contínuo entre Portugal e a sua diáspora, assente na proximidade, no reconhecimento e em políticas públicas que respondam às necessidades das comunidades.
Entre todas as prioridades, há uma que merece especial atenção: o ensino da língua e da cultura portuguesas.
A língua é o principal elo de ligação entre as novas gerações e Portugal. É através dela que se transmite a história, a identidade, a cultura, os afetos e o sentimento de pertença. Quando uma criança aprende português, não está apenas a adquirir uma segunda língua, está a conhecer as suas origens, a comunicar com os avós e familiares, a compreender a cultura dos seus pais e a manter viva uma herança que atravessa gerações.
No entanto, em muitos países, o ensino do português continua a enfrentar dificuldades. Sendo, na maioria dos casos, uma formação extracurricular, as aulas decorrem ao final do dia ou ao fim de semana, depois de longas jornadas escolares. Muitas famílias percorrem dezenas de quilómetros para que os filhos possam frequentar um curso de português, conciliando horários profissionais e familiares cada vez mais exigentes.
É, por isso, fundamental continuar a investir numa rede de ensino mais próxima das comunidades, com horários adequados à realidade das famílias, uma oferta pedagógica de qualidade e condições que permitam a todas as crianças e jovens terem acesso ao ensino da língua portuguesa, independentemente do local onde residem.
Da mesma forma, importa valorizar os professores de português no estrangeiro. São eles que, muitas vezes longe de Portugal, desempenham um papel determinante na transmissão da nossa língua e da nossa cultura. Merecem estabilidade, reconhecimento, boas condições de trabalho, formação contínua e recursos que lhes permitam desenvolver a sua missão com qualidade. Investir nos professores é investir na continuidade da língua portuguesa além-fronteiras. A promoção da cultura portuguesa deve acompanhar este esforço. Apoiar associações, grupos folclóricos, ranchos, coros, escolas de música, bibliotecas, iniciativas literárias, festivais e eventos culturais significa fortalecer o sentimento de pertença das comunidades e dar às novas gerações oportunidades para conhecerem e valorizarem as suas raízes. Portugal tem na sua diáspora uma das maiores forças do país. Milhões de portugueses e lusodescendentes mantêm viva a nossa identidade muito para além das fronteiras nacionais. Cabe também ao Estado português continuar a criar condições para que essa ligação se fortaleça, garantindo que a língua e a cultura portuguesas permanecem vivas nas gerações futuras.
Porque emigrar nunca significou deixar de ser português. Significou levar Portugal connosco, transmiti-lo aos nossos filhos e netos e acreditar que a nossa identidade se fortalece sempre que a língua, a cultura e os valores portugueses encontram espaço para crescer, independentemente do país onde vivemos. A diáspora não está longe de Portugal.





Domingos Brito
5 horas agoTudo isso referido no texto é mais do que verdade, portanto enquadra-se no contexto. Parabéns pelo trabalho desenvolvido em prol das comunidades imigrantes.
Domingos Brito
Mário Francisco da Costa Ferreira
3 horas agoMinha querida Conselheira e amiga,
Obrigada por partilhares este texto maravilhoso.
Que texto tão caloroso e sincero, que sem dúvida vai tocar muitos de nós, mas que só poderia ter sido escrito por ti. Uma mulher profissional e compassiva. Falaste com eloquência do nosso orgulho comum e infinito pelo nosso amado Portugal e pelas nossas pátrias de adoção.
Mas para aqueles de nós que tiveram a sorte de a conhecer e de a conhecer um pouco melhor, não é surpresa nenhuma. Tal como não é surpresa que nós — coletivamente — tenhamos expectativas tão elevadas em relação a si. É uma líder nata — ainda que gentil —, mas tão perspicaz e competente.
Agradeço-lhe também por ter sublinhado o caminho — o trabalho que ainda resta — que ainda precisamos de percorrer para erradicar a privação de direitos dos nossos compatriotas portugueses que residem no estrangeiro — por escolha ou por necessidade. Enquanto a situação de todos aqueles que querem votar — para que a sua voz seja ouvida — não for resolvida, seremos tanto menos democráticos. Esta mudança eleitoral está ao nosso alcance. Também sublinhaste a falta de uma representação adequada — proporcional — na Assembleia da República. Esse dia chegará.
Talvez me tenha escapado. Mas a diáspora também precisa de modernizar-se e de conferir mais poderes ao Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP) — ou de o dissolver. Reunir-nos e fazer recomendações apenas para que estas sejam ignoradas não vale o nosso precioso tempo. Até o atual presidente do Conselho Permanente admitiu isso mesmo — o CCP não tem poder. Porque é que não temos um lugar no Conselho de Estado? Todos os outros grupos da sociedade portuguesa têm. Não somos todos portugueses? Não estamos a reivindicar nenhum direito de que os nossos compatriotas não disponham.
Aproveita as tuas férias. Partilha as tuas fotos. Estou tão entusiasmado por ter feito o mesmo recentemente. As memórias que criamos são revigorantes, fortalecem os laços que temos com a pátria e são eternas. São as coisas que, no fim de contas, importam na nossa vida. Tal como os laços entre bons amigos unidos pelo destino.
Com os melhores cumprimentos,
Mário Francisco
Washington, DC