Editorial Novembro

Caros Leitores,
Há edições que nos convidam a olhar para o mundo a partir de uma ideia central. A edição 71 nasce do encontro entre a arte e a inclusão, a memória e a diáspora, a participação cívica e os desafios de um futuro que se constrói todos os dias. Entre Portugal e o mundo, estas páginas procuram reconhecer pessoas, projetos e lugares que continuam a criar ligações.
Começamos pela obra de capa de Manuel Casimiro, numa nova intervenção sobre a Mona Lisa. Em “11.ª Tentativa”, Rodrigo Magalhães acompanha o gesto artístico que transforma o conhecido em matéria de interrogação. Entre a criação e a reprodução, a originalidade e a cópia, a obra recorda-nos que a arte não é apenas aquilo que vemos, mas também aquilo que nos obriga a olhar de novo.
A inclusão ocupa um lugar especial nesta edição. O projeto Realces mostra como a arte pode ser sentida através do toque, da audição, da imaginação e da emoção. Ao aproximar pessoas cegas ou com baixa visão do universo artístico, o projeto demonstra que a acessibilidade não limita a experiência cultural: amplia-a. Também a reflexão sobre a inclusão das comunidades portuguesas no estrangeiro lembra que nenhum cidadão deve ficar afastado da informação, dos serviços, da participação ou da vida em comunidade por causa de barreiras que podem e devem ser ultrapassadas.
A Grande Entrevista com Jorge Feliciano, Presidente da Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto, conduz-nos ao papel insubstituível do movimento associativo. As coletividades continuam a ser espaços de encontro, aprendizagem, cultura, desporto e participação popular. Mas enfrentam dificuldades concretas: a falta de financiamento, o aumento das rendas, a renovação geracional e a necessidade de uma relação mais próxima com o Estado. Apoiar estas estruturas é reconhecer que a vida em comunidade também se constrói através do trabalho persistente de milhares de dirigentes e voluntários.
A ligação entre Portugal e as suas comunidades prolonga-se na reflexão do Conselho das Comunidades Portuguesas. A escola, o reconhecimento de diplomas e o acesso aos serviços consulares fazem parte de uma mesma questão: garantir que viver longe não significa viver à margem dos direitos. Portugal também se constrói fora de Portugal, através de cidadãos que mantêm laços com o país e procuram participar plenamente nas sociedades onde vivem.
É igualmente essa ligação que encontramos em Macau, apresentado como uma plataforma de diálogo entre Portugal, a China e o mundo lusófono. A diáspora associada ao território reúne conhecimento, confiança e experiência. Mobilizar essa rede pode abrir novas oportunidades económicas, culturais e académicas, aproximando empresas, universidades, associações e jovens de diferentes geografias.
A entrevista à Chocolate Boutique, empresa associada desta edição, mostra-nos como um projeto familiar pode transformar a paixão pelo chocolate numa forma de levar a identidade portuguesa a diferentes partes do mundo. Entre a tradição e a inovação, a formação internacional e a valorização dos sabores nacionais, a empresa revela que a internacionalização também pode ser uma forma de preservar e reinventar aquilo que nos distingue. Cada coleção, cada ingrediente e cada criação transportam uma história de dedicação, qualidade e ligação a Portugal.
A viagem leva-nos ainda à Mauritânia, pela escrita de Joaquim Magalhães de Castro, entre paisagens costeiras, comunidades piscatórias e topónimos que preservam marcas portuguesas. A história não vive apenas nos grandes acontecimentos. Também permanece nas palavras, nos lugares e nas relações que atravessam o tempo.
Na rubrica “Viagem Lusitana”, o artigo “Natal do Emigrante entre Solidão e Saudade” recorda-nos que celebrar longe de casa tem uma dimensão própria. Entre a antiga “mala de cartão” e as novas formas de comunicação, entre a distância e a criação de comunidades, o Natal dos emigrantes revela como as associações ajudaram a transformar a solidão em pertença. As tradições atravessam fronteiras e encontram novas formas de continuar vivas.
Nas páginas dedicadas às Artes e Artistas Lusos, Márcia Lima partilha um percurso entre Portugal e França, marcado pelo teatro, pela interpretação, pela encenação e pelo ensino. A sua experiência recorda-nos que partir não significa necessariamente romper. Muitas vezes, a distância permite aprofundar uma identidade e levá-la a novos palcos, sem perder a ligação às raízes.
A nova emigração tem também o rosto de Francisca Armelim, que partiu de Espinho para Londres para estudar teatro musical. A sua história fala de coragem, procura e reinvenção, mas também de saudade, comunidade e vontade de regressar. Na fotografia de Francisco Silva, encontramos outro modo de preservar momentos e construir significado: um olhar atento às pessoas, aos lugares e às emoções que permanecem depois do instante.
O ambiente recorda-nos que a responsabilidade começa em gestos simples. Uma garrafa abandonada junto à estrada pode parecer insignificante, mas a repetição transforma o descuido em paisagem. Cuidar dos lugares por onde passamos é reconhecer que o espaço comum também nos pertence.
Esta edição aproxima-se ainda das tradições e dos sabores, com as doçuras de amêndoa que guardam memórias de conventos, famílias e territórios. A saúde convida-nos a pensar no envelhecimento feminino e na possibilidade de viver mais anos com autonomia e qualidade de vida. A língua leva-nos a discutir a pronúncia de “vizinho”, lembrando que a diversidade linguística não é um erro, mas uma expressão viva da nossa história.
Entre a gestão da tesouraria e as exigências de novembro, as páginas de Fiscal mostram que o lucro nem sempre chega para pagar as contas. E, para os mais novos, o Luso-Criança aproxima-nos do outono, das histórias e das aprendizagens que continuam a formar leitores e cidadãos.
Assim se constrói esta edição 71: entre a arte que se reinventa, as comunidades que resistem, as empresas que levam Portugal mais longe, a diáspora que participa e as memórias que atravessam fronteiras. Que estas páginas sejam uma oportunidade para reconhecer o que nos liga e para imaginar formas mais inclusivas, próximas e humanas de construir o futuro.
Boas leituras! Encontro marcado para dezembro.



