Costa da Mauritânia

Baía do Cansado e outros topónimos portugueses

© Joaquim Magalhães de Castro

A verdade é que a maioria dos estrangeiros não nutre grande simpatia pelos mauritanos. Visitam o país atraídos pelo deserto e não pelas pessoas. No entanto, quando se conhece melhor alguém desta empobrecida nação islâmica, depressa se desvanece a primeira impressão, que é quase sempre negativa. Os mauritanos são pessoas directas, e tão directos vão ao assunto que chegam a ser indelicados. A sua relação com os estrangeiros é essencialmente mercantil e, pontualmente, amistosa. Do tipo: «se nada consigo de ti, dou-te o que pretendes». Gostemos ou não deles, indiferentes a eles é difícil ficar.

Entre os próprios, as coisas passam-se de um modo muito peculiar, graças a uma sociedade nada flexível. O sistema de castas na Mauritânia é de tal modo estratificado que limita qualquer tentativa – e os cartazes nesse sentido vêem-se um pouco por todo o lado – de unificar a nação. A cor da pele é, neste caso, um factor preponderante na estratificação do tecido social. No topo da escala estão os bidan, mauritanos de pele clara que descendem dos guerreiros e dos letrados. Seguem-se os designados «comuns», de pele mais escura. No fundo da tabela estão os mauritanos haratin, negros, que desempenham funções artesanais, trabalho braçal ou simplesmente são escravos dos bidan, sem quaisquer direitos. Há quem nasça senhor – os bidan – e há quem nasça servo – os haratin. E dessa herdada condição não há escapatória.

Em 1980, existiam ainda na Mauritânia 100 mil escravos haratin, o que levou à abolição oficial da escravatura. Mas apesar das intenções, essa prática continuou a existir (e existe ainda), sobretudo no planalto interior do Adrar, o mais visitado pelos turistas. Muitos dos haratin estão de tal modo ligados às famílias bidan que, caso partissem, ficariam sem quaisquer meios de subsistência que lhes permitissem sobreviver.

Questionado acerca da razão pela qual não regressava ao seu país natal, o Mali, Jamal Soliko, empregado no Baie du Levrier, replicou:
– Aqui tenho alimentação garantida, no meu país nem isso consigo.
Por essa razão, tencionava seguir com a sua vida de «alimentado e alojado» mas sem qualquer salário. Tão só algumas ougyas diárias, «para o tabaco e assim», oferecidas pelo patrão Ali e alguns dos estrangeiros que no albergue pernoitavam.
Enquanto conversávamos, um canal televisivo senegalês transmitia telenovelas brasileiras com actores negros a contracenam com os brancos, o que não é muito normal. Provavelmente telenovelas escolhidas a dedo, para o mercado africano.

© Joaquim Magalhães de Castro

ESCRAVOS E FEITORIAS
Era aos correspondentes dos actuais bidan que os navegadores portugueses compravam os escravos negros, juntamente com o ouro. Primeiro no Rio do Ouro e posteriormente no Cabo Branco (Nouabidou) e no golfo de Arguim, onde seria estabelecido um entreposto comercial em meados do século XV. Começou por ser, em 1445, uma simples feitoria; só mais tarde, em 1461, a mando de Soeiro Mendes se ergueu o forte, como indica João de Barros: «E em 1461, el-rei Dom Afonso mandou Soeiro Mendes fidalgo de sua casa fazer o castelo».
Em Arguim, há vestígios da presença humana que remontam à pré-história. O modo de vida dos grupos de pescadores, que com milhares de aves migratórias de diferentes espécies partilham esse bocado de Éden, pouco mudou desde o tempo em que os portugueses trocavam panos, prata, pimenta e mel por escravos, ouro e goma-arábica, entre outros produtos.

Baía do Cansado. Assim passou a chamar-se a extensa baía a norte do Cabo Branco na sequência das sucessivas expedições de navegadores portugueses que ali arribavam, certamente porque era esse o estado de espírito da marinhagem depois de várias semanas em barcos de reduzidas dimensões. Hoje, a enseada abriga a cidade das intempéries e parece viver assombrada pelos destroços de uns quantos navios ferrugentos ancorados a escassas dezenas de metros da praia. Parecem ali estar há não muito mais do que uma década.

– Os seus proprietários afundaram-nos propositadamente para depois recuperarem o dinheiro das seguradoras –, informou o francês Alan Jaspard, cineasta parisiense, visitante regular destas paragens, também hóspede do Auberge La Baie du Levrier.

Cruzavam os destroços pequenas embarcações, quase pirogas, no regresso da faina rumo ao Port d’Artisanat, assim designado para se diferenciar do porto principal da cidade onde modernas traineiras descarregavam o peixe capturado a algumas milhas ao largo de Nouabidou.
Devido à forte corrente das Canárias, que permite uma grande oxigenação das águas, é alta a densidade piscatória, sendo esta uma das áreas mais ricas de todo o mundo. E se é farta a pesca, normal é que abundem predadores. Os tubarões são, naturalmente, os mais temidos pelos pescadores locais, que na sua maioria não sabe nadar. Ao contrário dos métodos de pesca tradicional, bastante arriscados dada a exiguidade e o estado dos barcos praticamente artesanais, a pesca industrial mostrava-se segura. E extremamente lucrativa. O camião TIR com matrícula portuguesa estacionado numa das ruas na zona portuária era a prova disso. O seu interior ocultava um viveiro repleto de marisco que devia chegar vivo e em bom estado ao nosso país. Pelo menos era o que garantia o motorista marroquino, encarregado de conduzir o veículo ao longo da costa até ao porto de Tânger.

Apesar dessa riqueza a bater-lhe à porta, as autoridades mauritanas não reivindicavam o direito de exploração exclusiva das suas águas territoriais, permitindo que todos nelas pescassem a troco do pagamento de licenças, o que nem sempre se fazia, pelo menos nos moldes previamente acordados. Mesmo assim, o dinheiro arrecadado pela venda das licenças parecia satisfazer a elite que regia o país.

Alain Jaspard, senhor de um forte sentido humor, tinha uma explicação para o facto:
– Estabelecer e consolidar uma frota pesqueira é um grande investimento que demora o seu tempo a recuperar.
Algo que os responsáveis políticos não pareciam dispostos a fazer, pois contradiz um certo espírito imediatista que, na opinião desse francês, caracteriza os mauritanos.
– Tudo o que querem é fazer dinheiro o mais rapidamente possível. E que seja, de preferência, dinheiro à vista.
A compra e venda de automóveis, por exemplo, era algo que os satisfazia plenamente, pois o automóvel é um bem de consumo que dá status. Era habitual o visitante estrangeiro ser abordado por um desconhecido na rua que lhe perguntava se tinha alguma viatura para vender, mesmo que este, no caso este vosso escriba, se deslocasse a pé e trouxesse uma mochila às costas.

© Joaquim Magalhães de Castro

OS HOMENS DE TÚNICA AZUL
Comprar e vender é a grande paixão desses homens de túnica azul que me fizeram lembrar centuriões romanos. E mesmo milionários – e há-os aqui dessa natureza –, não dispensam a tenda e os seus rebanhos de camelos e ovelhas dispersos nos oásis do deserto mais inóspito. No fundo, esta gente pouco mudou desde os tempos em que a pena do cronista Zurara a descrevia da seguinte maneira: «Toda a sua principal aplicação e trabalho está na guarda de seus gados, vacas e cordeiros e cabras e camelos. E quase cada dia mudam seus arraiais, que o mais que podem sossegar em um lugar serão oito dias».

A par com a pesca e as viaturas, o tráfico de droga é outro dos negócios que traz prosperidade a uma ainda mais incógnita minoria. A costa mauritana está referenciada como um dos principais pontos de entrada da cocaína originária da América do Sul. A outra é a costa da Guiné Bissau, ou melhor dizendo, uns quaisquer ignotos ilhéus do arquipélago dos Bijagós onde, segundo consta, os cartéis colombianos construíram aeródromos privados.

Os veículos dos mauritanos só muito raramente eram revistados nas fronteiras e nas centenas de postos de controlo que víamos surgir nas estradas no meio do nada. Com os estrangeiros, acontecia precisamente o oposto. Muitos e diversos, os estratagemas utilizados pelos agentes de autoridade locais para tentar extorquir-lhes os tão apetecidos euros. As sugestões, indirectas ou não, para que os dessem de boa vontade chegavam a ser exigências às quais era difícil fugir. Houve casos de estrangeiros obrigados a esperar horas nos postos de controlo, só porque se recusaram a pagar as sempre aguardadas e muito apetecidas «luvas».

A corrupção e o abuso de autoridade continuavam galopantes e, de há uns anos a essa parte, o governo tinha responsabilidade na matéria, podendo-se dizer até que era conivente.

– Todo este espalhafato é motivo de muita conversa e matéria anedótica para o futuro – comentava Jaspard –, mas o certo é que situação não deixa de ser incomodativa e nada abona em favor dos habitantes deste país.

© Joaquim Magalhães de Castro

Ao olhar para um mapa militar depressa me apercebi da quantidade de topónimos de origem portuguesa que classificam esta paisagem. A península onde se situa Noaubidou, dividida a meio por uma fronteira fictícia, é particularmente rica nesse domínio. Saliente-se que toda a zona oeste da dita, parte integrante do Saara Ocidental, está repleta de minas. Nos mapas marroquinos essa diferenciação era de tal forma bem vincada que, à altura de Nouabidou, vinha indicado o centro populacional de Lagouira, a letras gordas, quando Lagouira (ou La Aguero, como dizem os espanhóis) não passava de um simples ponto do mapa. Ali residiam, temporariamente, alguns pescadores. E era tudo. O lado marítimo da península é conhecido ainda como a Costa das Focas, seguida da Las Ballenas para terminar em três pontas: a Ponta da Águia – também conhecida como o Falso Cabo Branco – a Ponta das Lagostas, a Ponta de L’Opera (?!) e a Ponta Porta Ilha, antes de chegarmos ao Cabo Branco. Do lado interior, já em território mauritano temos, de sul para norte, a Ponta Central, o Cabo Cansado e a Ponta do Rei, que limitam a Baía do Cansado. Seguem-se a Ponta Flores, a Ponta dos Mouros, a Ponta Estrela – no extremo da aldeia de Kobanu (Cabana), a norte de Nouabidou – e a Baía da Estrela, perto de outro lugarejo denominado Domingo. Alguns destes termos aparecem escritos em francês, mas a maioria mantem a grafia portuguesa, como é o caso de Cansado ou Ponta Rei.

Na costa em frente à península, já no Banco de Arguim, de norte para sul, sucedem-se os nomes lusos: Ponta do Deserto; Ponta das Marés; Ponta das Hienas; Ponta das Avestruzes; Ponta das Conchas; Ponta Jerônimo, na Baía dos Pelicanos; Ilha dos Pelicanos; Cabo de Santa Ana e Ponta das Salinas, ambas opostas à Baía do Levrier. Há ainda uma Baía de Arquimedes e os bancos de areia Banco da Sentinela e Banco da Estafeta. A ilha de Arguim é também conhecida como Agadir, e as duas outras pequenas ilhas ali perto chamam-se Margarida e L’Ardent.

© Joaquim Magalhães de Castro

O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico

Acompanhe-me nesta magnífica viagem

Deixe um Comentário

Your email address will not be published.

Start typing and press Enter to search