As reações psicossociológicas às pandemias


Nestes 10.000 anos a Humanidade sofreu 2500 anos de Peste. Quando se estudam as pandemias, desde as primeiras até à mais recente, existe sempre uma procura de bodes expiatórios, cúmplices, teorias da conspiração que expliquem as mortes e o sofrimento.
A Peste mais grave foi a Peste Bubónica que se desenvolveu em três fases, das quais a segunda, a grande Peste Bubónica, foi a mais grave, no sentido em que mais tempo durou, com cerca de 18 ondas, e em que mais mortes fez.
A primeira fase foi a da Peste Justiniana, que se iniciou no delta do Nilo e chegou a Constantinopla no fim de dezassete ondas no tempo do Imperador Justiniano.
A segunda fase, chamada da Peste Negra iniciou-se na Ásia e chegou à Europa depois de uma época chamada “a grande fome” e desenvolveu-se em dezoito ondas. Foi a mais grave das três Pestes Bubónicas. Foram produzidas pela bactéria Yersina Pestis, que habitava na câmara visceral de uma pulga que era transportada por ratos, transmitida para os humanos e dos humanos para humanos. Atingiu o Ocidente em 1340. Viajou pelas grandes cidades, portos de mar, zonas mais miseráveis e evoluiu por dezoito ondas. Foi uma tragédia inimaginável pelo número de mortos. A única defesa que existia naquela época era o uso de máscara e confinamento em casa.
A terceira fase desenvolveu-se nos séculos XVII e XVIII e com o mesmo agente contagiante. Surgiu na Ásia e avançou até à Europa, para as grandes cidades, e, como já tinha sido descoberto o Novo Continente, viajou nos barcos até S. Francisco. É a responsável pelo cerco sanitário do Porto, quando Ricardo Jorge, com receio de que a Peste chegasse a Lisboa, determinou o cerco da cidade e a população quis matá-lo, a incendiar-lhe a casa e a fazê-lo fugir para Lisboa.
Outras pandemias emergiram: a cólera, a varíola, a Gripe Espanhola a Tuberculose e depois todas as de natureza viral: o HIV, o Ébola, H1N1, H1N5, o MERS, o SARS.CoV1 e finalmente a atual, o SARS.CoV2.
A natureza da situação sanitária obrigava os Estados, principalmente na Idade Média, porque não existiam outros meios de defesa contra a infeção, a decretarem emergências que nem sempre foram aceites, independentemente da gravidade da situação, número de mortes e infetados, número de países ou de regiões atingidas. Império, considerou que os seus efeitos letais estavam relacionados com a maldade e traição dos que o rodeavam e mandou matar todos os que considerou como inimigos.

Segundo as religiões praticadas nos países afetados, ou era pedido apoio ao Deus respetivo, cristão ou muçulmano, ou eram considerados culpados aqueles que não cumpriam as regras de comportamento decretadas por elas. Para além destas atitudes sociais, verificaram-se, em todos os tempos, reações contra as medidas impostas pelo poder vigente, interferência de ideias e comportamentos que tentavam inculcar, nas mentes dos cidadãos temerosos de morrer e de perder a sua família e bens, a crença da eficácia de ações miraculosas que as deixariam protegidas numa conjuntura autocrática ou ditatorial de abusos e desmandos de toda a ordem.
A Pandemia Justiniana levou Constantinopla a um quadro que se vai repetir ao longo dos tempos: a cidade estava deserta, os coveiros abriam valas para amontoar cadáveres e abundavam os saqueadores das casas de famílias ricas, cujos senhores e familiares, para escaparem à morte, as deixavam desprotegidas fugindo para as suas segundas e terceiras casas. Morreram os mais pobres. Os defensores das teses do crime e castigo acenavam com o castigo de Deus e instigavam à penitência dos homens.
A segunda peste bubónica, que funcionou com várias vagas, atingiu todas as classes sociais, embora com muito menor incidência na nobreza. Mais uma vez, as cidades tiveram maior percentagem de letalidade e, em algumas recorrências, mais em jovens do que em idosos.
Portugal, governado pelo jovem rei D. Sebastião, aconselhado por médicos espanhóis, estabeleceu normas sobre como cuidar do abastecimento da cidade, limpar as ruas, queimar as roupas dos doentes, colocar navios de quarentena, enterrar os mortos em fossa com cal. Quem não cumprisse com estas medidas seria açoitado na praça pública e degredado para S. Tomé.
As consequências sociais na Europa são importantes. Com a mortalidade que a pandemia provocou, foi perdida mão-de-obra para os campos, o que causou uma subida do preço de quem neles trabalhava. Com a lenta diluição do feudalismo, deu-se a ascensão da burguesia à custa da queda da aristocracia latifundiária. O fenómeno das cidades-estado consagra, principalmente em Itália, a burguesia com poder bancário e comercial.
Além disso, as pandemias alteraram então as sociedades onde causaram muitas mortes. Ao acabar o feudalismo, o Poder Régio aumentou e a Europa foi lançada numa fragmentação de reinos, repúblicas, cidades-estados e novos Estados soberanos.

O contributo da pandemia foi muito importante, porque, não só retirou mão-de-obra das classes dominantes, como agravou o sentimento de insegurança dos detentores do Poder assim propiciando uma evolução social no sentido do desenvolvimento. Foi uma espécie de revolução ao retardador com mortos, talvez tantos como os duma guerra daqueles tempos, quando ainda não tinham começado os cuidados médicos.
É também o momento em que a Igreja entra em crise com o desaparecimento de párocos, que eram muito atingidos porque tinham que dar a extrema-unção aos moribundos e acabavam, quase sempre, infetados. Durante a peste estava criado o momento para a Igreja Católica do Ocidente sofrer a grave secessão com o Papa Clemente VII de Avinhão. Ambas as Cúrias são criticadas pela luxúria, riqueza ilícita que em tempos de Peste é objeto de avaliação tanto pelo povo como pela nobreza. A morte de párocos durante a peste, quer no contexto das suas funções, quer na infeção, dificulta o seu trabalho e obriga os Bispos a essa função, que se prestava a ser mortífera. Grupos contrários, de contestação ao poder das Igrejas e à sua falta de apoio numa situação de catástrofe, formaram autênticos bandos que criticavam o poder da Igreja e a sua incapacidade, por disfunção, de aliviar o sofrimento e a dor dos doentes. Estes grupos de contestação apregoavam o fim da era e a segunda vinda do Messias. O Papa Clemente VII declarou que eles eram hereges e como tal deviam ser castigados duramente.
Nesta fase, uma das grandes teorias da conspiração é a acusação contra os judeus, como causadores da peste, numa ação perspetiva de liquidação dos cristãos. A Peste mudou totalmente o poder dos Judeus, que antes eram protegidos pela Nobreza e que passaram a ser vítimas de chacinas e saques, apesar de o Papa de Avinhão condenar estes atos.
Tanto na Peste de 1350-1351 como na do século XVIII foram descritos casos de loucura e desequilíbrio mental. O livro de Daniel Defoe “A Journal of the Plague Year” ficou famoso na descrição nos comportamentos humanos: o medo, o sofrimento, a compaixão, a revolta e o caos que a Peste semeou na vida de uma cidade, Londres.
Duzentos anos depois, Albert Camus descreve no seu livro “A peste” um período de confinamento de uma cidade no Norte de África com os mesmos sentimentos de impotência, medo de morrer, exclusão e solidão, mas também com a descoberta de seres que, até então considerados pouco importantes socialmente, revelaram uma atitude social e solidária com perigo das suas próprias vida. O único médico que existia na cidade ajudou as autoridades a tomar as medidas adequadas para impedir a propagação da doença.
No século XX, com a existência de estruturas de saúde como Hospitais e Sanatórios, a Tuberculose também foi objeto de manifestações sociais mas mais silenciosas e com afastamento dos doentes para locais considerados mais saudáveis, os Sanatórios, que eram construídos fora dos centros urbanos e na montanha. Finalmente, com o aparecimento dos antibióticos a Tuberculose começou a ser objeto de tratamento, prevenção e finalmente erradicada. Reaparece com a explosão de HIV na Europa e nos Estados Unidos, acompanhada de consumo de drogas. O SARS-CoV 1 não dá lugar a manifestações públicas contra as medidas adotadas, dada a sua rápida resolução da parte do Governo Chinês.

De resto, é fácil prever que não seriam toleradas e seriam objeto de prisão ou restrição de liberdade com o pretexto da proteção social sanitária.
A pandemia SARS-CoV2 ou Covid-19, pela sua extensão, rapidez de propagação e efeito surpresa, levou o Mundo a reações muito díspares: medo, recolhimento superior ao exigido pelas autoridades, explosão mediática, explicações científicas de uma situação sanitária por comentadores televisivos de áreas da política e, mais importante, colocou de joelhos as cadeias de transmissão que o sistema capitalista vinha utilizando para reduzir o preço da mão de obra e dominar o Mundo.
O facto de se saber muito pouco sobre o comportamento do Covid-19 contribuiu para o caos informativo. O momento de auge de comunicação permitiu que esta fosse destacada e provocasse vários tipos de comportamentos, entre os quais os de negação absoluta da existência da gravidade sanitária, inclusive negação feita por grupos médicos, contribuindo para este comportamento a baixa letalidade do vírus e as atitudes tomadas por países como a Suécia e a Inglaterra que combateram a pandemia apenas com algumas restrições e com delegação de capacidade decisória nos próprios cidadãos.
Nunca foram bem entendidas as razões para estas políticas, nem as próprias decisões bem explicadas, porque as sociedades do Norte da Europa são mais evoluídas, têm melhores condições de vida e sistemas de saúde mais robustos e, como tal, estão mais defendidas de “clusters” infeciosos, que não existem nos subúrbios das cidades.
A política de governos populistas como as do Brasil e dos EUA foi feita de decisões economicistas, cuja contrapartida foi um número substancialmente maior de infetados e de mortos. As eleições nos EUA conduziram a uma redução de mortes e vacinação com as medidas de controlo da pandemia, mas no Brasil a situação mantem-se, com carácter muito grave, com variantes e com incapacidade de imposição de medidas de proteção.
Outras correntes de opinião, porém, foram geradas: não existe negacionismo, mas as decisões políticas estão erradas e atrasadas em relação à progressão pandémica. Quanto a uns, estão erradas, porque decidem em bases economicistas e esquecem o valor da vida, a saúde, o risco de que tem que trabalhar em condições sanitárias mais perigosas; quanto a outros, há aproveitamento oportunista deste momento para negar direitos, liberdades e garantias e iniciar projetos que levam ao desemprego e aumentam o abismo social entre ricos e pobres, projetos de comando do Mundo pelos mais fortes, que podem fabricar vacinas contra um vírus e ainda podem, numa atitude solidária, contribuir para que todo o Mundo mais pobre possa ser vacinado, Esta atitude, curiosamente, nunca foi claramente avaliada face ao facto de que, num Mundo globalizado, todos tem que ser vacinados porque, se assim não for feito, todos serão novamente infetados. A imunidade da vacina dura alguns meses, os necessários para criar uma imunidade de cerca de 75% das pessoas, percentagem suficiente para poder aliviar os Serviços de Saúde.
Na Europa e EUA, ditos os países mais civilizados do Mundo do ponto de vista científico, assistimos a manifestações pela obrigatoriedade de usar máscara na via pública. Os que defendem o poder pelo poder não gostam de ideias peregrinas, superstições, ideias falsas nas massas que vão votar a sua permanência no poder.

Mas outras coisas mais graves têm acontecido durante estes períodos, que são uma mistura de confinamento, de medo de novas vagas e notícias do que se passa em outros países e continentes. Nunca o Mundo esteve tão transparente para a vivência de uma situação pandémica, classificada com sindémica, com inerentes alterações das desigualdades e até agravamento do abismo social já existente.
A necessidade de encerramento das escolas — porque as crianças e jovens têm um sistema imunitário que os defende da doença, embora possam ser portadores de cargas virais (mais reduzidas nas crianças até aos sete anos) e mais transmissores nos jovens para professores e pessoal auxiliar — tem sido objeto de discussão, por se considerar que o teleensino significa um atraso na escolaridade e na construção do mundo social, que é feito nessas fases da vida. O teleensino e o teletrabalho associados às más condições socioeconómicas é mais um fator de divisão entre classes sociais em que os mais jovens podem sofrer um atraso na sua evolução, mesmo que por curtos períodos de tempo. Estão descritas depressões e tentativas de suicídio nos adolescentes. A violência doméstica aumentou em todos os países. Todas estas reações podem estar relacionadas com as medidas tomadas de confinamento, que tem um impacto negativo nas economias baseadas na produção e no consumo.
A excecionalidade da situação tem perigos políticos. Tem sido aprovadas leis com o objetivo de diminuir as liberdades dos cidadãos, atrasar julgamentos e arrastar audiências de julgamentos de políticos ligados aos Governos atuais ou anteriores. Na Hungria passou-se a legislar por decreto, a corrupção aumentou mesmo nas democracias mais sólidas, a Bolívia atrasou as eleições presidenciais, no Brasil Jair Bolsonaro incitou a tomada de medidas sociais que evitassem o encerramento da economia. No Chile o exército saiu á rua para evitar manifestações anti-Governo, Israel fechou todos os tribunais, o que levou à não realização do julgamento criminal contra o Primeiro-ministro e finalmente ganhou as eleições tendo perdido um ano depois. Para esta vitória contribuiu a capacidade de ser um dos primeiros países a ter os seus cidadãos todos vacinados e poder inaugurar espetáculos presenciais. Na Jordânia foi aprovada uma nova lei que permitia prender quem disseminasse o pânico. Na China, Coreia e Singapura passou a existir controlo de telefonemas e contas bancárias. Podemos dizer que os autocratas são também uma pandemia, neste caso uma sindemia.
Algumas áreas foram atingidas com gravidade, provavelmente com incapacidade de resolução a curto prazo. Todas as atividades que tenham por base a comunicação de pessoas e bens através do mundo globalizado ficou suspensa e a aviação civil vai levar uma década a recuperar. O setor da hotelaria e turismo foi um dos mais atingidos com a vaga de desemprego associada. Esta vaga de desemprego fez subir a pobreza e a desigualdade.

Só não vê quem está cego. Perante uma crise sanitária a que se junta uma crise económica e social com desemprego e fome, a verdade tem ser olhada com a capacidade de resolver a crise sanitária e impedir, tanto quanto possível, a crise social. Nesta guerra os soldados estão doentes e podem morrer devido a um inimigo invisível. O “Ensaio sobre a Cegueira” de Saramago foi artigo de abertura da Revista Lancet para mostrar ao Mundo que a crise sanitária era real, quaisquer que fossem as causas e origem, e tinha que ser combatida com os meios medievais e, à medida que a etiopatogenia do vírus fosse conhecida, com medidas terapêuticas. A utilização de testes para cortar as vias de transmissão não foi efetuada em todos os países como modo de combater as cadeias de transmissão e evitar “lookdown”, sendo que neste vírus foram mais importantes devido à presença de assintomáticos com capacidade infetante. A inexistência de uma vacina no início da pandemia levou a um trabalho intenso de colaboração de cientistas de todo o mundo, com a participação da logística dos Laboratórios da Indústria Farmacêutica, mediante acordos não suficientemente claros, com desconhecimento dos cidadãos, que são quem paga as vacinas sobre as “patentes”, ficando sempre dependentes da indústria farmacêutica num momento de crise mundial.
No fim do mês de Dezembro de 2020, as vacinas estavam na fase de aprovação das Autoridades Sanitárias dos países, principalmente os E.U.A e a UE.
Contudo — talvez este o acontecimento mais importante –, as restrições impostas em períodos de algumas semanas oportunizaram um vitória demasiado curta para justificar o investimento nas alterações climáticas. A pandemia mostrou como, com algumas medidas, podíamos conseguir a regeneração de eco-sistemas que se pensavam em vias de extinção. Mostraram como a Mãe-Natureza é generosa com os humanos que estão a deixar o planeta morrer asfixiado. As sondas da NASA mostraram que cidades como Pequim e até Milão tiveram descidas históricas de consumos de CO2, os animais voltaram a cidades desertas, os bambies a Madrid, os patos a Paris, animais selvagens em cativeiro acabaram por passear em cidades como a leoa que em Nova Iorque saiu do Jardim Zoológico.
Esta pandemia ocorre num Mundo globalizado mas também alargado na informação. Esta corre com a rapidez própria da era que vivemos, através das redes sociais que têm funcionado em pleno, como autêntico consultório de psicanálise, alimentado pelo medo, pela incerteza das condições de vida, pela possibilidade de encontrarem quem possa defender os próprios problemas com a aplicação de “post” com censura às medidas dos governos. Nas redes sociais tudo pode correr e ser lido por quem não se sabe quem é, o que faz e que interesses tem na vida e como vai ser utilizada a nossa informação, nem que seja um simples estado de alma.
Todas as grandes plataformas enriqueceram com a pandemia porque o Mundo passou a ser digital. A transição para o Digital foi feita em menos de um ano. Como fazer que ninguém fique para trás é outro problema, que vai levar mais tempo e seguramente muito sofrimento e exclusão social.

1 Comentário

  • M. Lurdes Sousa Fernandes
    4 meses ago Publicar uma Resposta

    Excelente artigo. Muitos parabéns Professora Ana Aleixo. Muitos parabéns.

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