Editorial março

Caros Leitores,
Há edições que se leem apenas com os olhos e outras que se sentem com a memória, com a experiência e com o futuro. Esta é uma dessas edições que se vive por dentro: feita de rostos, de vozes, de territórios e de caminhos.
A obra de capa de Manuel Casimiro, com a sua intervenção sobre a Mona Lisa, recorda-nos que toda a criação é também recriação. Que a identidade, tal como a arte, se transforma sem perder a essência. Que o gesto de revisitar é, muitas vezes, o gesto de compreender melhor.
A AILD volta a mostrar que a cultura vive do encontro, da proximidade e do gesto que se faz no terreno. “Somos Milhões…”, é um hino à força dos lusodescendentes, à pluralidade das suas histórias e ao valor que representam para Portugal. É um texto que emociona e que lembra, com simplicidade e verdade, que a nossa maior riqueza está nas pessoas. Apresentamos o Lancaster College — centro de ensino e formação instalado na Figueira da Foz — numa simpática e agradável conversa com a sua diretora.
Na Grande Entrevista, Emídio Sousa, Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, conduz-nos a uma reflexão decisiva sobre o futuro do país com o conceito de Portugal Nação Global. Numa conversa clara e ambiciosa, revela uma visão que ultrapassa fronteiras e redefine o que significa ser português no século XXI: uma nação feita de pessoas, não apenas de território; de redes, não apenas de instituições; de oportunidades partilhadas, não apenas de memórias. Ao defender a criação de uma verdadeira comunidade económica e humana, Emídio Sousa aponta caminhos concretos para transformar afetos em desenvolvimento, talento em investimento e pertença em futuro. Uma entrevista que merece ser lida com atenção — porque nela se desenha um novo mapa de Portugal, feito de ligações que atravessam o mundo.
No campo da diplomacia, Francisco Oliveira faz-nos o retrato do último Seminário Diplomático, que reuniu, diplomatas, responsáveis governamentais e académicos para debater prioridades estratégicas da política externa portuguesa. Filipe Silva, Conselheiro das Comunidades Portuguesas, convida-nos a refletir sobre o futuro da língua portuguesa no Sudeste Asiático, agora que Timor-Leste e tornou Estado-membro da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático). Em Passagens, partimos pelo mundo como se folheássemos um álbum de memórias: em Laos e no Triângulo Dourado reencontramos paisagens, trajetórias e a presença portuguesa nas margens do Mekong. Imperdível! Christophe Fonseca, oferece-nos um olhar sobre cinema documental como testemunho e memória. As artes aqui presentes cruzam-se com as narrativas que ocupam o número — identidade, migração e memória — e convidam à reflexão sobre como contamos o passado e projetamos futuro. Falamos das tempestades e cheias que nos lembram a urgência da adaptação, que exigem respostas integradas, locais e nacionais. A rubrica Luso‑Criança desta edição coloca um tema urgente: educar as crianças na empatia pelos animais. Madalena Pires de Lima lembra que a formação da sensibilidade humana começa cedo e propõe medidas práticas — levar os miúdos à natureza, integrar a empatia animal nos currículos de cidadania — para contrariar a violência e cultivar responsabilidade. Para todos nós refletirmos sobre como a educação afetiva é parte essencial da construção de comunidades mais humanas. Magnífico texto! Vamos poder desfrutar da leitura da segunda parte dos sabores que nos cruzam com memórias e territórios, pela escrita única de António Manuel Monteiro, e fazemos uma chamada à proteção dos direitos individuais, à escuta empática e à responsabilidade coletiva na promoção da saúde integral — Liberdade de ser, sentir e expressar. Paulo Dinis (Fundação AEP) propõe transformar a dispersão lusófona em capital estratégico, mas para que funcione, exige visão de longo prazo, coordenação interministerial e diálogo genuíno com as comunidades.
Na Geração Sem Fronteiras, Rita Trabulo conta por que saiu — falta de oportunidades e baixos salários na investigação em Portugal — e descreve como foi a adaptação. O depoimento expõe tensões entre expectativa e realidade, a persistente «saudade» e a possibilidade de regresso, e deixa uma mensagem direta aos jovens: arrisquem, mas com planos claros.
Viajamos pela Lente de Henrique Manuel Botelho, numa seleção do Arquivo Municipal de Lisboa que nos devolve a poesia do quotidiano e a memória que se escreve em luz. O arquivo reúne aqui uma seleção magnífica de Henrique Manuel Botelho — retratos, paisagens e naturezas mortas que revelam um olhar preciso, íntimo e poeticamente moderno. As provas em bromóleo e coloração a óleo realçam a sua mestria técnica; as imagens escolhidas pelo Arquivo Municipal (de Laura Alves às paisagens nevadas e às cenas rurais) confirmam a versatilidade e o talento de um fotógrafo que fez da atenção ao humano e ao quotidiano a sua grande obra. O texto de Paula Figueiredo contextualiza com rigor e ternura o percurso de Botelho, sublinhando a importância histórica e estética do seu trabalho para a memória fotográfica portuguesa. Isalita Pereira traça uma leitura poética e histórica da Revolução dos Cravos: da conspiração dos capitães às ruelas de Lisboa onde um simples cravo se tornou símbolo universal de liberdade. Marco Neves traz a última parte da genealogia das línguas da Península, e deixamos o alerta que as catástrofes expõem fragilidades estruturais: escassez de mão de obra qualificada, défices de acolhimento e logística, e a dependência de respostas voluntárias e locais.
Cada rubrica, cada artigo, cada imagem desta edição é um convite: a conhecer melhor, a reconhecer-se, a sentir-se parte de uma comunidade global que não abdica da sua memória nem do seu futuro.



