José Governo

Fundador e Diretor executivo da AILD

Fotografia ©Vieiras Foto

Professor, gestor, político, fundador e diretor executivo da Associação Internacional dos Lusodescendentes, com uma vida sempre muito agitada, cheia de projetos e desafios, tendo tido uma experiência política no gabinete da presidência da Câmara Municipal de Moimenta da Beira, e mais tarde uma marcante passagem pelo Governo, na Secretaria de Estado das Autarquias Locais e no Ministério dos Negócios Estrangeiros, o que lhe permitiu estreitar relações de proximidade com as Comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo, acompanhando de perto a política externa e internacional, proximidade que continua a manter até à data.

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Nasceu em Provins – França no ano de 1975. Hoje é o Diretor Geral da Santa Casa da Misericórdia de Sernancelhe. Deixando os ofícios e posições de lado, quem é José Governo?

É sempre um exercício difícil de falarmos de nós próprios, mas a idade, a experiência e a maturidade, permite-nos atenuar um pouco a dificuldade de fazer este exercício. Sou uma pessoa compenetrada e de bem com a vida, que gosta de viver, de se sentir útil e sempre com vontade de abraçar novos desafios e projetos. Mas, considero-me ser acima de tudo, uma pessoa que valoriza muito o lado humano e afetivo, colocando os valores da família, o papel de pai, marido, amigo, num patamar de excelência e de prioridades. Com a ainda recente perda do meu pai, estas prioridades passaram a ter uma dimensão ainda maior na minha vida, passando inclusivamente, a desprezar cada vez mais o lado material. Atraem-me pessoas positivas, de sorriso fácil, bem-dispostas, de bem com a vida, com princípios e valores morais e humanos como orientação de vida. Não é por acaso que aceitei este desafio e a difícil missão de ser o Diretor Geral da Santa Casa da Misericórdia de Sernancelhe, trabalhar na área social, gerir uma instituição com dificuldades financeiras e de tesouraria, mas sentindo todos os dias estar a dar um pouco de mim por quem mais precisa, sentindo as imensas dificuldades do setor, mas sobretudo, o maravilhoso que é podermos contribuir para conquistar e alimentar sorrisos, assegurar o bem-estar, muitas vezes de pessoas abandonadas pela família e pela sociedade.

Tem um percurso de vida muito ligado às Comunidades portuguesas. De onde surgiu esse apelo e quais os momentos mais marcantes no seu percurso junto dos portugueses expatriados?

O facto de ser lusodescendente terá com certeza contribuído para esta minha maior sensibilidade e ligação às Comunidades Portuguesas, conhecendo a história da emigração portuguesa, as dificuldades, mas também, as virtualidades. No entanto, tive a sorte e o privilégio de ter sido convidado pelo Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas da altura, Dr. José Cesário, uma pessoa que conhece como ninguém esta área, para com ele exercer funções no governo, e com quem aprendi imenso, permitindo-me ainda conhecer, aprofundar e contactar de perto com as várias realidades das Comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo. Esta experiência foi sem dúvida um dos momentos mais marcantes no meu percurso político e das Comunidades Portuguesas, onde vivi momentos de enorme intensidade e emoções junto dos portugueses além fronteiras, estabelecendo contactos com associações, com empresas, luso-eleitos, professores da rede do ensino de português no estrangeiro, diplomatas, e com pessoas extraordinárias que tive oportunidade de conhecer, permitindo-me hoje ter uma visão muito próxima da realidade das Comunidades Portuguesas. No final de 2019, um outro momento marcante, continuou a manter-me ligado às Comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo, a criação da Associação Internacional dos Lusodescendentes, da qual sou orgulhosamente um dos fundadores e diretor executivo.

No período em que esteve no Governo, esteve envolvido em várias iniciativas com o objetivo claro de aproximar os portugueses que vivem fora de portugal daqueles que residem no país. Pedíamos que nos fizesse o destaque de alguns desses projetos.

Existem muitos momentos que me marcaram em tantos projetos e iniciativas políticas que fizemos em prol das comunidades portuguesas, mas destacava o projeto dos Encontros Mundiais de Formação de Dirigentes Associativos da Diáspora, ao qual o Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas depositou em mim a confiança e a responsabilidade de coordenar o projeto, tendo-se realizado 4 edições, trazendo dirigentes associativos dos 4 cantos do mundo a Portugal, para durante 3 dias terem formação associativa, conhecer Portugal e aproximar estes dirigentes associativos de Portugal. Este projeto teve como parceiro a Confraria dos Saberes e Sabores da Beira – Grão Vasco, da qual destaco o meu amigo, prof. José Ernesto, que lidera a Confraria mais internacional de Portugal. Outro projeto que me marcou imenso, foi a necessária reestruturação da rede do ensino de português no estrangeiro, onde se impunha a necessidade de reduzir o número de professores da rede, ajustando-a à realidade, mas também, introduzir outros fatores de qualidade, como foi o caso da certificação.

Em finais de 2019 nasce a AILD – Associação Internacional dos Lusodescendentes, da qual é um dos fundadores. Como surgiu a ideia de criar uma associação de lusodescendentes e quais os principais objetivos?

Esta associação surgiu através de um grupo de lusodescendentes que foi falando desta realidade e condição de ser-se lusodescendente, e a existência de um vazio e um espaço/oportunidade de ação e intervenção junto dos lusodescendentes de cá e de lá e emigração em geral. No final de 2019, passamos das ideias e intenções aos atos, criando e fazendo nascer a Associação Internacional dos Lusodescendentes – AILD, destacando a existência de um núcleo que foi determinante para esse momento e para tudo o que tem vindo a acontecer, que é o Phillipe Fernandes, presidente da direção, o Jorge Vilela, a Cristina Passas, a Gilda Pereira e eu próprio.
A AILD pretende trabalhar para a divulgação da vivência da lusofonia e cultura portuguesa, identificação, união e representação de todos os lusodescendentes, representação e defesa dos legítimos interesses e direitos dos mesmos, desenvolvimento de um espírito de solidariedade e apoio recíproco entre os seus membros e associados, realização de ações, estudos e publicações que visem promover soluções coletivas em questões de interesse geral ou de interesse setorial, estruturação de serviços executivos e serviços de apoio, com capacidade de assessoria e de dinamização de assuntos de natureza de integração económica, tecnológica, social, formativa e informativa, qualificativa, associativa e de aconselhamento aos associados e instituições públicas. Acrescenta-se, ainda, o objetivo de envolver os portugueses de cá e de lá, aproximando-os, criando empatia, laços e redes de contacto. Torna-se cada vez mais importante promover ações e planos estratégicos, políticas, práticas e iniciativas, potenciadoras da proximidade às nossas comunidades portuguesas, permitindo e estimulando a construção de uma cadeia de valor. A AILD quer ser um veículo aglutinador, promotor de parcerias e aberto a todos os que se queiram associar, e estamos a dar frutos nesse sentido, já com muitas ações e objetivos alcançados.

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Que balanço faz destes quase 4 anos de atividade da associação?

Como referi anteriormente, estamos a dar frutos naqueles que eram e são os nossos propósitos, já com muitas ações, metas e objetivos alcançados, o que nos motiva naturalmente, a continuar. É portanto, um balanço de 4 anos muito positivo, que está efetivamente a valer a pena, num caminho difícil, com muitas adversidades e dificuldades, mas que é compensado com todos os ganhos coletivos que temos conseguido. O objetivo da aproximação das Comunidades Portuguesas a Portugal está claramente alcançado quando temos uma associação constituída maioritariamente por membros de associações e por lusodescendentes residentes nas Comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo, reunindo religiosamente online todos os meses. Temos trazido para a AILD o melhor de cada um de nós e colocado ao dispor do coletivo, criando um conjunto de ações, iniciativas e projetos de enorme interesse e sucesso. A AILD não nasceu para ser apenas mais uma associação, pois, ambicionamos que seja uma referência no movimento associativo das comunidades portuguesas, pelo seu carácter e objetivos de se abrir aos outros, mas, também, porque este núcleo de pessoas, os fundadores, são todos pessoas jovens, com a sua vida, o seu percurso, em áreas diferenciadas, com conhecimentos práticos e teóricos dos lusodescendentes e das nossas comunidades portuguesas, gente que respeita a pluralidade das ideias e opiniões, pessoas com coração, com humildade, com enorme sentido de solidariedade, amizade, cooperação e respeito. E, portanto, tem sido um grupo que tem estado a funcionar de uma forma incrível, onde todos os dias nos surpreendemos uns com os outros pelos bons motivos. Temos desenvolvido importantes ações, projetos e iniciativas de que destaco alguns: As “Obras de Capa”, que fazem a capa de cada edição da Descendências Magazine, feitas por artistas plásticos das comunidades portuguesas e que a cada ano, a cada 12 edições dá origem a uma nova exposição de “Obras de Capa”, que inicia sempre na sala de exposições do Instituto Camões, enquanto exposição residente, através de uma parceria estabelecida com este organismo público, circulando depois fisicamente pelo mundo, pelas comunidades portuguesas; “Obrigado e Boa Viagem”, já vai na segunda edição, que pretende no final do Verão e das férias marcar simbolicamente presença na fronteira de Vilar Formoso, desejando “Boa Viagem” aos portugueses que regressam ao seu quotidiano além-fronteiras, e ao mesmo tempo “agradecer” a sua vinda a Portugal, por toda a importância e simbolismo que representa, sendo esta ação realizada em parceria com a autarquia de Almeida, com a GNR local, as Infraestruturas de Portugal, e com empresas privadas que partilham os seus produtos de marca portuguesa para distribuir aos nossos concidadãos, como é o caso da marca “Saborosa”; “Literanto”, um projeto de promoção da língua portuguesa dinamizado pela Sara Nogueira em França, e que tem sido um enorme sucesso; “Colóquios temáticos” sobre a emigração, a lusodescendência e outros temas de interesse nesta área. Destacar ainda que alguns dos dirigentes das delegações da AILD, são escritores e investigadores que têm lançado vários livros e criadas várias obras de arte, como é o caso da Gabriela Trindade do Reino Unido (também ela com um projeto muito importante para a língua portuguesa – Portuguese in Translation Book Club); do Nuno Gomes Garcia de França; do Joaquim Magalhães de Castro, da Ásia; do Ismaël Sequeira de São Tomé, da EriKa Jâmece, de Angola, entre outros, e que têm sido promotores diretos da língua, da arte e da cultura portuguesa, e que muito orgulha a AILD.

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Estabeleceram várias parcerias, no entanto na sua maioria as entidades protocoladas estão sediadas em Portugal. Ainda existe alguma resistência por parte dos movimentos associativos fora do território nacional em juntarem sinergias?

Essa é sem dúvida uma particularidade que nos diferencia das demais associações, pois, somos uma associação sempre com a porta aberta para todos, para estabelecer relações de parceria e cooperação, pois, o nosso lema, citando Clarisse Lispector, em algo que é determinante para o nosso sucesso: “Sozinhos vamos mais rápido. Juntos vamos mais longe.”. E tem sido esse o nosso lema, que por ser diferente cria desconfiança e resistência. Temos estabelecido parcerias com associações, com autarquias, com empresas, com entidades, como por exemplo o Instituto Camões, ou o Observatório da Emigração, o único observatório que tem realmente desenvolvido trabalho de investigação sobre os lusodescendentes e sobre a emigração em geral, com dados concretos e extremamente importantes para a definição da estratégia política em matéria de emigração. Temos, também, uma parceria e relação estreita com a própria “Descendências Magazine”, que tem sido de enorme importância no nosso percurso. Esta nossa diferença, tem efetivamente ajudado a quebrar muros e resistências que ainda vão existindo por parte dos movimentos associativos fora do território nacional em juntarem sinergias, onde vão percebendo os ganhos que existem em trabalhar estas mesmas sinergias. Mas dava um exemplo concreto dessas resistências que ainda existem, a Descendências Magazine, em articulação com a AILD, lançamos o desafio e o convite aos órgãos de comunicação social das Comunidades Portuguesas para colaborarem connosco, nomeadamente, para divulgar esses mesmos órgãos na revista Descendências Magazine, que seria no fundo promover o trabalho que desenvolvem nos países de acolhimento e também como forma de promoção da língua e cultura portuguesa, mas muito poucos responderam afirmativamente, exceção por exemplo do Lusojornal, pois, a maioria nem sequer respondeu. Esta dimensão da cooperação e pluralidade, não só enriquece a estrutura, como tem sido responsável pelos resultados e dinâmicas que temos conseguido conquistar em tão pouco tempo e temos procurado passar esta mensagem.

Tiveram algum apoio ao longo destes anos do Governo, nomeadamente da Secretaria de Estado das Comunidades ou da DGACCP?

Desde o início que procuramos estabelecer contactos, relações de parcerias, de cooperação e colaboração institucional, em prol de objetivos comuns, ou seja, as comunidades portuguesas. Mas, tenho que ser franco e dizer que numa primeira fase, quer por parte da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas, quer por parte da DGACCP, essa ligação e esse apoio não foram muito fáceis. No entanto, com a mudança da anterior Secretária de Estado, com a existência de uma maior proximidade e um conhecimento mais efetivo do trabalho que temos vindo a realizar, as circunstâncias inverteram-se e passou a haver abertura, diálogo, parcerias, tal como ainda agora fomos convidados para participar ativamente no programa do próximo “ENCONTROS PNAID 2023”, que irá decorrer de 14 a 16 de dezembro, no Centro Cultural de Viana do Castelo, uma iniciativa que aplaudimos e que constitui “um farol para as centenas de empresários portugueses e lusodescendentes residentes no estrangeiro que queiram investir em Portugal. A AILD irá marcar presença com um stand próprio, onde teremos a apresentação da associação, mas também, a apresentação pública de livros de autores portugueses oriundos das Comunidades Portuguesas e dirigentes da AILD, promovendo assim a língua e a cultura portuguesa. O exemplo ainda, do Instituto Camões, I.P. , uma estrutura que tem a superintendência do Ministério dos Negócios Estrangeiros e que tem por missão propor e executar a política de ensino e divulgação da língua e cultura portuguesas no estrangeiro, com quem temos tido uma excelente relação de parceria no que se refere ao nosso projeto das “Obras de Capa”.
Considero que a área e o tema das Comunidades Portuguesas é de todos e não é de ninguém, onde todos somos chamados a contribuir, e é um espaço de grandes oportunidades onde cabem todos, e o Governo tem o dever e a obrigação política de ser o primeiro a unir e a promover as sinergias vindas da sociedade civil, sejam elas organizadas ou individualmente, quando se trata de acrescentar valor em prol desta causa, e portanto, esta relação de apoio existe e a tendência será mesmo de evoluir, cumprindo-se este entendimento que tenho sobre esta questão e que nos deixa satisfeitos.

A AILD e a Fundação AEP, vão lançar o primeiro encontro mundial dos Lusodescendentes. O que é o “Lusodescendências” e para quando está prevista a sua realização (sabendo que o local ainda não pode ser anunciado)?

O “Lusodescendências” é um ambicioso projeto organizado pela AILD, com a co-organização da Fundação AEP, um parceiro com quem nos identificamos pela comunhão da mesma visão estratégica, e a criação de valor através do melhor das duas entidades, aquilo que chamamos de cooperação estratégica.O projeto tem dois objetivos concretos, em primeiro mostrar as potencialidades de Portugal enquanto País de acolhimento ao nível económico, social e com destaque para a vertente turística, e em segundo lugar, identificar, premiar e reconhecer pessoas, projetos e iniciativas de sucesso desenvolvidas pelos lusodescendentes nas comunidades em que se inserem ou para o nosso País. Serão convidados os lusodescendentes de diferentes áreas profissionais, da arte à ciência e ao empreendedorismo, mas também Luso eleitos, destacando todos e cada um deles. Serão ainda desafiados, a poderem também, dar o seu contributo em soluções coletivas para as comunidades e para Portugal. No fundo, será despertar os lusodescendentes, o seu talento, as suas capacidades, a sua disponibilidade e o seu amor a Portugal, dando o seu contributo, apresentando ideias e soluções que possam ser potenciadas e apoiadas.
O Lusodescendências – Encontro Mundial dos Lusodescendentes, sublinha o compromisso da AILD e da Fundação AEP na importância de se estabelecerem relações de proximidade entre os lusodescendentes e Portugal. O Lusodescendências, terá um programa amplo onde haverá um espaço de encontros de negócios promocionais, espaços culturais e animação, atribuição de prémios de mérito e reconhecimento, realização de uma noite de gala, e a promoção dos espaços e território onde ocorrerá o evento.
Já não foi possível implementar para este ano de 2023, porque estava inicialmente previsto avançar através de um programa financiado pelo Turismo de Portugal, mas depois, acabou por rumar noutro sentido, mas irá acontecer no segundo semestre de 2024.

Um dos grandes projetos da associação é a sua internacionalização. Fale-nos um pouco desta ação e das delegações que já foram abertas.

Esta nossa atitude, oriunda do nosso código genético de trabalhar em parceria, em cooperação, trouxe-nos um “problema bom” – a necessidade de crescer, a necessidade de encontrar uma solução que permitisse envolver mais pessoas, envolver mais lusodescendentes, que permitisse envolver de forma mais ativa Portugal e as comunidades portuguesas pelo mundo, que permitisse mais facilmente alcançar os nossos objetivos enquanto Associação Internacional dos Lusodescendentes. Não só encontramos a solução para o problema, como já a estamos a implementar, e que veio revolucionar o conceito e a dimensão associativa. A partir da AILD-mãe, sediada em Portugal, estamos a criar delegações da AILD em diversos países do mundo, da Europa e Fora da Europa, algumas já constituídas e outras em fase de constituição, cujas estruturas são dirigidas pelos próprios residentes dos diversos países, em articulação com a estrutura mãe em Portugal.
Temos neste momento já criadas as delegações da AILD de França, tendo como Diretora geral a Leocádia Dias; o escritor e investigador Joaquim Magalhães, o coordenador geral para a Ásia/Pacífico, já promoveu a criação da AILD de Hong Kong, sendo o Diretor geral o Patrick Rozario; do Brasil, tendo como Diretora geral a Gislaine Carrijo; do Reino Unido, tendo como Diretora geral a Gabriela Trindade, estando outras delegações a constituir-se e organizar-se, criando-se assim uma nova dinâmica espalhada pelo mundo, potenciando e dinamizando uma rede viva das Comunidades Portuguesas, em contacto direto e permanente com Portugal.

A associação tem marcado a sua agenda em diversos projetos culturais, mas também em iniciativas de carácter científico e outras de ação social. Recentemente tiveram uma intervenção pública, relacionada com a comunidade lusodescendente do Myanmar, os bayingyis. Do que se trata?

Foi com profunda consternação que a Associação Internacional dos Lusodescendentes veio tomando conhecimento das atrocidades cometidas pela Junta Militar de Myanmar (desde o Golpe de Estado de 01 de fevereiro de 2021) contra a minoria católica lusodescendente, os Bayingyis, que totaliza várias dezenas de milhares de pessoas. A Associação Internacional dos Lusodescendentes está a acompanhar os desenvolvimentos desta barbárie através do Joaquim Magalhães de Castro, Director-Geral da AILD para a Ásia/Pacífico, que conhece bem esta comunidade e há décadas tem vindo a divulgar a sua existência, seja com artigos publicados nos media, livros, documentários ou exposições fotográficas. Urge agora alertar as nossas entidades públicas e a comunidade internacional para as atrocidades cometidas e tomar as medidas necessárias para tentar travar o processo genocida em curso. Além das posições públicas já tomadas, já alertamos o Governo português, já fizemos chegar o assunto à Assembleia da República, por forma a que estes lusodescendentes possam ter igual tratamento enquanto descendentes portugueses.
Mas estamos também sensíveis e solidários com as vítimas da guerra da invasão Russa à Ucrânia, e mais recentemente do bárbaro ataque do Hamas a inocentes Israelitas, dando origem ao conflito armado entre Israel e o Hamas, ao qual temos vindo a tomar posições públicas em defesa das vítimas inocentes e de repúdio a estes ataques.

Lançaram em 2022 um concurso literário que este ano passou as fronteiras da portugalidade para se abrir ao mundo da lusofonia. Quais os objetivos deste concurso que já está na II edição, e quando vão ser anunciados os vencedores?

Sendo as crianças e os jovens lusófonos a viverem fora dos países onde se fala português um dos principais pilares do nosso idioma comum e os principais embaixadores da(s) nossa(s) cultura(s) no estrangeiro, a AILD, e a LEYA, nosso parceiro deste projeto, sempre preocupadas com a promoção da língua e da cultura lusófona, lançamos já a 2ª edição do Concurso Literário “As minhas Férias…” que este ano visa homenagear o BRASIL, o quinto maior país do mundo. Um evento que visa fomentar a criatividade literária e a escrita em português dos jovens a viverem fora do país de origem familiar. Nesta iniciativa destacava também, a “Maison du Portugal”, em Paris – França, que foi o palco para receber a entrega do prémio da primeira edição, e a “Casa das Rosas”, em S. Paulo – Brasil, que recebeu também, a entrega do prémio de uma das vencedoras do concurso, uma lusodescendente brasileira. Em data oportuna será agendada a entrega dos prémios 2023 que será presencial, tal como aconteceu na primeira edição.

Continuamos a assistir ao descontentamento por parte das comunidades portuguesas dos constrangimentos existentes nos postos consulares. Que soluções acha que têm faltado para resolver este problema?

Penso que deve existir uma preocupação permanente na melhoria destes serviços públicos, e na própria organização de toda a rede consular, que precisa de ser reestruturada, indo de encontro aos novos fluxos migratórios e à evolução demográfica das próprias Comunidades, tal como defende o próprio Conselho das Comunidades Portuguesas. É preciso dotar os postos consulares de meios humanos, financeiros e tecnológicos necessários e adequados às necessidades das Comunidades Portuguesas, alargando a novas e diversificadas soluções, nomeadamente, soluções digitais e de atendimento à distância, procurando trazer celeridade, eficiência, eficácia e satisfação para os utentes.

Depois da experiência tida nas políticas desenvolvidas ao nível do ensino do português no estrangeiro, como olha hoje para esta política de promoção da língua portuguesa?

Em primeiro lugar é preciso continuar a trabalhar para, não só aumentar o número de alunos, como também para negociar a presença do ensino da nossa língua nos vários sistemas de ensino no estrangeiro, nos respetivos currículos de estudos. Tem sido uma batalha difícil, mas que progressivamente tem havido alguns resultados positivos, de que dependem as boas relações bilaterais entre Portugal e o país de acolhimento. À semelhança das soluções apontadas para a melhoria do funcionamento consular, também, no ensino de português no estrangeiro é importante diversificar e modernizar a oferta, também, com novas soluções digitais, modelos presenciais mas também, online, por forma a consolidar o ensino de português no estrangeiro.

O Conselho das Comunidades Portuguesas – CCP, no passado dia 26 de novembro elegeu os seus novos conselheiros nos diferentes círculos eleitorais no mundo. Considera este órgão e esta estrutura importante e relevante para Portugal e para a estratégia da política externa e das Comunidades Portuguesas?

Sim, sem dúvida, é um importante órgão de consulta do Governo para as políticas relativas à emigração e às comunidades portuguesas no estrangeiro, com a virtualidade de ser constituído por diferentes conselheiros locais residentes em diferentes círculos eleitorais nos diferentes países do mundo onde as Comunidades Portuguesas têm presença. E é por nós considerado de tal forma importante, que desde o nascimento da “Descendências Magazine”, foi criado um espaço de intervenção do CCP em cada edição da revista, promovendo a liberdade de pensamento deste órgão através dos artigos que vão escrevendo, dando a conhecer a sua ação e pensamento estratégico em cada momento. No entanto, considero que o CCP deveria ser dotado de mais meios e com uma maior proximidade ao governo, por forma a poder exercer com mais eficácia o seu papel de emitir pareceres, apresentar propostas, recomendações e respostas concretas ao governo, em prol das Comunidades Portuguesas, que localmente, conhecem e vivem a realidade. Mas acrescentar ainda, que os conselheiros têm e devem ter um papel e responsabilidade de enorme importância, pois, são conselheiros eleitos nos seus círculos de residência, e portanto, conhecem a realidade local, que deve fazer eco junto do governo, além do papel interventivo que podem ter junto da comunidade portuguesa ali residente.

Sabemos da sua paixão pela política. Pensa em regressar a um papel mais ativo e interventivo junto das Comunidades Portuguesas, área que reconhecidamente domina?

Efetivamente, desde muito cedo, nutro paixão pela política. Tenho nos últimos anos feito uma paragem na política ativa, fruto de algum desencanto com alguns políticos que apenas gravitam na política apenas para a sua sobrevivência política, sem nunca terem o objetivo de exercer a verdadeira essência da política, que é a resolução dos problemas das pessoas, dos territórios, do bem comum e coletivo. Conheço gente na política, que outrora apelidei de “amigo”, que continuam até hoje na política sem nenhuma ideia, sem conteúdo, sem projetos, mas apenas agarrados à sobrevivência política, sempre com truques e esquemas, onde vale tudo, mesmo pisar ou trair o amigo. No momento que me afastei da política ativa, senti o que outrora outros já sentiram e partilharam comigo, que não somos nós que somos importantes, mas sim o lugar que ocupamos em determinado momento, e no que podemos eventualmente ser úteis a alguém. Quando penso no exercício de funções políticas há duas frases inspiradoras de Francisco Sá Carneiro nas quais me revejo plenamente e espelham a minha forma de estar na política e na vida: “A política sem risco é uma chatice, mas sem ética é uma vergonha”, “…a honra é a bússula dos homens de bem…”. Considero que o meu afastamento foi de enorme importância, pois, permitiu-me fazer uma reflexão profunda, olhar outras perspetivas, compreender melhor o mundo, a sociedade, as pessoas e sobretudo, compreender que a nossa participação na política deve ser uma missão e não uma profissão. Esta paragem ou interregno, teve ainda outras importantes virtualidades, pois, permitiu-me, de novo, maior proximidade e disponibilidade à família, aos amigos e a projetos que tinham ficado para trás.
Mas respondendo à pergunta, de facto a área das Comunidades Portuguesas é uma área política que me fascina e à qual não me consigo desligar, por tudo aquilo que ela representa e de tantos amigos que tive o privilégio de conhecer e manter ao longo destes anos. Não quero fazer futurologia, nem dizer que não regressarei à política ativa, mas para já no imediato não está nos meus planos, mas vou acompanhando de perto enquanto cidadão ativo e interventivo, com direitos e deveres. As Comunidades Portuguesas têm hoje um alcance extraordinário no mundo, um ativo que pode e deve ser cada vez mais aproveitado em Portugal, a vários níveis, destacando o investimento e o desenvolvimento dos territórios do interior e de baixa densidade, onde é urgente um envolvimento estratégico entre o poder central e o poder local, criando sinergias e plataformas estratégicas de ação em prol de uma maior coesão territorial. Não acho hoje aceitável, que os municípios não tenham um mapeamento do seus emigrantes e lusodescendentes, não tenham contacto, ações e políticas concretas com estes munícipes que um dia deixaram o território e partiram além-fronteiras. Até a este nível é preciso pôr os poderes executivos, sejam centrais ou locais, a trabalharem em sintonia, a conseguirem conversar e alcançarem entendimentos por forma a conquistar novos resultados, sobrepondo o interesse coletivo e das pessoas, ao interesse partidário. É isso que os cidadãos esperam dos políticos, e neste quadro de campanha eleitoral que se avizinha vamos continuar a assistir às promessas eleitoralistas, aos populismos, às soluções milagrosas, que costumam surgir nestas alturas.
Cada vez mais precisamos de líderes e políticos no ativo que sejam uma referência de confiança, honestidade, seriedade, empenho e serviço de missão para os cargos que lhes são confiados, com o claro espírito de governar para as gerações, para a resolução dos problemas das pessoas e dos territórios, e não para eleições. É deste lado dos políticos que estou, e se um dia regressar será sempre para desafios onde possa colocar este espírito e esta postura, seja nas Comunidades Portuguesas, seja no poder local, seja noutros desafios que impliquem a vida dos outros. Tenho hoje a noção que o meu regresso à participação ativa na política, daria um contributo mais efetivo, onde humildemente acrescentaria valor, não só pelos motivos acima enumerados, mas porque transportaria para a política o conhecimento e a experiência da verdadeira realidade da vida dos portugueses, nas mais variadas áreas da sociedade, pois, a política, é disso que se trata, e muitos políticos, desconhecem essa realidade e fazem política a partir dos gabinetes preocupados apenas com os soundbites, com as sondagens, com os likes e a sua popularidade, quando na verdade, o que tem que ser popular são as políticas, as ações, as medidas e o impacto dos resultados, e não os políticos.

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1 Comentário

  • José Carlos Tomé
    7 meses ago Publicar uma Resposta

    Tive o privilégio de me cruzar com o Dr. José Governo em momentos de trabalho no Ministério dos Negócios Estrangeiros.
    Só lamento não existirem mais homens como este. Se tivesse que o classificar teria um Super Excelente. Deixo aqui um grande abraço amigo.

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