Leiria e Coimbra
Entre ventos e tempestades

Noutros tempos eram apenas tempestades. Não eram menos intensas por isso. Nem menos destrutivas. Mas eram anónimas e, porventura, menos frequentes. Não se chamavam Kristin, nem Martinho, nem qualquer outro nome de gente. Chegavam do Atlântico, varriam telhados, faziam subir os rios e seguiam caminho para outras paragens, sem que deixassem o mais pequeno rasto digital, mas muita destruição. Todavia, essas grandes tempestades sem nome, eternizavam-se na memória do povo e nas marcas cravadas nas pedras e nas ombreiras das portas. Para a posteridade ficava: “a grande cheia do ano”, “aquele inverno rigoroso”, “a ventania que tudo levou”.
Hoje, as tempestades têm nome e, com elas, como noutros tempos, chega o vento forte e a chuva persistente. Com a Kristin, em Leiria, o impacto foi muito forte e traduziu-se em milhares de árvores derrubadas, estruturas profundamente danificadas, circulação condicionada e comunicações limitadas. Esta é apenas a face mais visível e imediata, porque os danos colaterais, esses, serão incalculáveis. Mais uma vez, a paisagem e as estruturas construídas pelo homem, revelaram a sua vulnerabilidade face a um clima cada vez mais instável e imprevisível, no tempo e no espaço. Não há surpresa nisto. As tempestades atlânticas serão cada vez mais intensas. Quando chove, chove muito; quando o vento sopra, sopra com muita força. É um padrão cada vez mais real e uma das faces mais visíveis das alterações climáticas.

Dias depois, em Coimbra, foi a vez do Rio Mondego transbordar do seu leito, daí resultando campos agrícolas submersos, colheitas destruídas, acessos cortados e o alagamento das zonas mais baixas da cidade. Não é que Coimbra não conheça este cenário. A memória das cheias faz parte da história da cidade. O problema não surpreende, mas não deixa de ser preocupante. Durante décadas, investiu-se na regularização do Mondego, em diques, em canais, no controlo hidráulico. Foi um esforço técnico relevante. Mas nenhuma infraestrutura consegue eliminar totalmente o risco quando a precipitação excede padrões históricos. E a acrescentar a isso, importa referir uma variável que raramente entra nas crónicas da meteorologia: o solo. Como sabemos, o solo urbano é cada vez menos permeável. O betão e o asfalto aceleram o escoamento superficial. A água infiltra-se menos na terra e corre mais depressa, resultando num maior volume dos rios e numa maior pressão num curto espaço de tempo.
Leiria e Coimbra são dois momentos do mesmo sistema. A primeira recebeu o impacto atmosférico imediato de uma tempestade; a segunda absorveu a consequência das cheias.

Entre ambas, está, não só, mas também, a gestão territorial. A adaptação climática deixou de ser um conceito estratégico para se tornar numa premente necessidade operacional de revisão dos planos diretores municipais, limitação da construção em zonas de risco, criação de áreas de retenção e recuperação de margens naturais dos rios, entre outras. Significa aceitar que o clima está em mudança e o rio precisa de espaço, do seu espaço. Sem dramatismos, mas com planeamento adequado e atempado.
As tempestades continuarão a atravessar o Atlântico. Com nome ou sem nome, a água continuará a cair. Os rios continuarão a galgar as suas margens no inverno. A diferença, em termos de resultados, residirá na capacidade de minimizar os danos, de antecipar eventuais cenários destrutivos e de integrar conhecimento científico nas decisões locais. A tempestade Kristin foi um episódio marcante, com elevado grau de destruição num curto espaço de tempo. As cheias em Coimbra foram uma consequência da elevada precipitação que se fez sentir na região.
Perante estes cenários, a questão já não é se voltará a acontecer ou como se chama a tempestade, ou de quantos metros vai ser a cheia.
A questão é quando. E o que fazemos depois dela passar para prevenir e minimizar eventos futuros.
O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico




