Obra de Capa
Título: Mona Lisa revisitada
Dimensões: 140 x 96
Técnica: Pintura Digital – Intervenção Casimiriana na Mona Lisa
Artista Plástico: Manuel Casimiro

Manuel Casimiro, nasceu no Porto em 1941. Em 1976, foi bolseiro Fundação Calouste Gulbenkian em França, para fazer investigação no campo das artes visuais.
Desde sempre, este artista privilegiou a investigação, a “coisa mental”, em detrimento do “carreirismo”, das táticas e estratégias de mercado.
Em 1978, viveu um ano em Nova Iorque onde teve um excelente acolhimento. Nesse ano “Artists’ Postcards” escolheu um dos seus trabalhos interventivos, “Édipo Explicando o Enigma”, para integrar numa coleção de postais, publicada em 1979, de artistas como, Robert Motherwell, Douanne Michaelis, ou David Hockney. Os originais dos artistas convidados deram origem a uma edição de postais, cujos originais foram expostos no “Cooper-Hewitt Museum”, em Nova Iorque em 1978. Esta exposição viajou pelo mundo fora, de Nova Iorque a Tóquio, Londres, Paris, Berlim. Viveu duas dezenas de anos em França, que representou em participações internacionais: em 1980 na Alemanha, em Berlim no “D.A.A.D”. na exposição, “Nice à Berlin”, e em 1981 no Brasil, em S.Paulo, numa exposição paralela à Bienal, organizada pelo “Museu de Arte Moderna da Universidade de S. Paulo”.
Em Nice em 1986, integrou um conjunto de exposições individuais e em simultâneo, designadas “Peindre Photographier” de que faziam também parte, Christian Boltanski, Louis James, Annette Messager, Robert Rauschenberg.
Jean-Hubert Martin, organizou no Porto em 1996/97 a sua primeira retrospetiva na “Fundação de Serralves” que editou um volumoso catálogo com mais de duas dezenas de pertinentes textos de análise sobre a obra deste autor.
Em 2024 a Fundação da Casa Mateus adquiriu, instalou e acrescentou aos jardins do seu palácio o meu “Jardim Pintado”, organizando em simultâneo à apresentação desta obra ao público, uma exposição das minhas pinturas “Montanhas Inexistentes”.
Em 2025 foi convidado a participar na Bienal de Pontevedra, intitulada “Volver a ser Humanos” com 3 das suas obras de grandes dimensões “Desastres de Guerra”. que mereceram a atenção dos média não só de Espanha. Anteriormente neste país participou em diversas exposições.
A sua obra é analisada numa extensa bibliografia por grandes figuras ligados à cultura internacional, como é o caso de Pierre Restany, J.F, Lyotard, M.Butor, C.B. Glucksmann, Antón Castro… obra também representada em coleções privadas e públicas, em museus de vários países.
Em Portugal, no Porto, Museu de Serralves, no Museu Nacional de Soares dos Reis, em Lisboa, no Museu da Gulbenkian, no Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Museu Nacional de Arte Contemporânea, antigo Museu Coleção Berardo, em Amarante, no Museu Sousa Cardoso.
Mona Lisa revisitada
Se o acto de pintar se pode traduzir por uma espécie de organização em volta de uma suposta criação, de algo não-existente, que, todavia, teimou pela mão do artista em aparecer na superfície do mundo do visível, a recriação da criação, pega nessa existência original e eleva-a ao quadrado: criação2. Nesse sentido, podemos pensá-la como a criação do criado, ou desenvolver novas atitudes perante a criação já consumada. Manuel Casimiro parece-nos como o agente predestinado da criação2, da contínua redescoberta não só de obras anteriores da história da arte, como das suas próprias. Assim, a Mona Lisa casada com dois ovóides, vista no exemplo anterior, deixou-se alterar pela mão (re)criadora casimiriana que desta feita, acrescentou uma espécie de grelha de enquadramento visual (embora um pouco desajeitada), e decidiu que estava na altura de o rosto voltar a respirar o ar concentrado do ambiente de Leonardo. De salientar que estes sistemas de enquadramento tentam de certo modo ir ao encontro de uma certa reverência pelos moldes clássicos das grelhas de representação atribuídas a Albrecht Dürer, mas também utilizadas por Leonardo, onde se calculavam ângulos e se percebiam distâncias de objectos no espaço. Claro está, que aqui são manipulações lúdicas de uma certa disrupção da sua função original, operando, desta feita, como instrumentos de distração/reformulação de novas entidades. Mas centremo-nos na acção ovoidal.
O actor ovoidiano azul, ou por relutância ou por afirmação perentória, decidiu dar algum espaço de respiração àquele tão misterioso rosto, que assim nos tenta olhar de soslaio, nunca determinantemente o conseguindo, pois para já, na imobilidade da imagem, apenas entrevemos uma margem da fenda palpebral, cabendo-nos a intuição de a completar pela nossa vontade de interpretação. Muito sedutor este exercício, de uma ligeira trepidação erótica, quase como se víssemos La Gioconda desnudar-se perante os nossos entusiasmados olhos. Podemos então concluir que o pintor é um incorrigível desencadeador do irresistível fascínio da visão e a sua arte reformula os hábitos da decência, preferindo a indecência, eliminando o habitual pudor ou mesmo a heresia que não ousa retocar as imagens sagradas da história.
O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico

Rodrigo Magalhães
Rodrigo Magalhães. Nasceu em 1993. Doutorado em História da Arte. Colaborador mensal no jornal As Artes Entre As Letras, colaborador da ArteCapital. Participa em revistas e catálogos de Arte e exerce trabalho de curadoria. Os interesses de investigação ancoram-se na História da Arte, nomeadamente na análise e historiografia de tendências, movimentos e desenvolvimentos estéticos da arte contemporânea, desdobrando-se consequentemente numa ramificação com outras vertentes artísticas como a literatura, o cinema, a música, dando expressão à capacidade polivalente da arte no período contemporâneo.






