Obrigado pelos 110 milhões de euros

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No Barroso, o tempo avança, lento, entre silêncios e resistência, sob o aroma da terra molhada e do feno guardado no palheiro. Por cá, nunca houve ministérios, mas sempre houve bom senso. Nunca se chamou estratégia ao disparate, nem se chamou progresso ao que deixava a terra pior do que estava. Por cá, sempre se soube contar o dinheiro. Não porque houvesse muito, mas porque fazia falta. Um saco de centeio dava para o inverno inteiro se fosse bem repartido; uma broa de pão centeio para a semana toda. De igual modo, um lameiro mal tratado poderia ser sinónimo de fome no ano seguinte. Aqui, nunca se gastou sem se saber o preço das coisas.
Por isso custa explicar aos mais velhos, e até aos mais novos, que resistem em ficar, que o Estado português resolveu dar cento e dez milhões de euros a uma empresa privada para abrir uma mina que vai desfazer a terra onde eles aprenderam a viver e da qual retiram o sustento. Dar é a palavra certa. Convém dizer assim, sem floreados, porque no interior sempre se falou claro. O resto são palavras, e essas, leva-as o vento. Não é fácil explicar, porque não há explicação que resista ao frio cortante da serra agreste. Chamam-lhe apoio estratégico à transição energética. Em Barroso, o povo chamar-lhe-ia outra coisa. Mas aqui ainda há pudor.
É a transição, dizem. Sempre a transição. Mas quem transita? E, para onde? E, quem fica? Como fica?
Cento e dez milhões de euros.
Dinheiro que transita directamente dos cofres públicos (vulgo, dinheiro dos contribuintes), para os bolsos particulares de uma empresa privada, estrangeira e extra-comunitária. Dinheiro esse que vai financiar a destruição da região de Barroso, sem apelo, nem agravo. Quantos mais milhões serão necessários para a destruir completamente? Já fizeram as contas? Ora vamos lá pensar: cento e dez milhões para a Mina do Barroso. Quantos mais para a Mina do Romano? E para a Mina da Borralha? E para a Mina do Alto das Forcadas? E para tantas outras a proliferar na região? Quantos mais milhões de euros!?
Cento e dez milhões de euros.

Uma soma astronómica de dinheiro proveniente de um Estado que não encontra verbas suficientes para manter as escolas a funcionar convenientemente, que não fixa médicos no interior, que não investe na segurança, que não apoia devidamente a agricultura familiar, que reduz e retira serviços públicos, que não constrói estradas dignas, que não segura gente, que falha no apoio às crianças e aos mais idosos, que fala de coesão territorial como quem recita um provérbio gasto. Mas isso, caros leitores, não se iludam, isso são ideias impregnadas de romantismo, próprias de quem não percebe nada de lítio, nem de investimentos estratégicos, nem de futuro elétrico. O Estado sim, percebe isso muito bem, daí que, de repente, destinou cento e dez milhões de euros para financiar a devastação de um território único, através de uma decisão tomada longe, muito longe, da realidade local.
Dirão ser um facto consumado. Inevitável. Inevitável como foi inevitável o êxodo migratório. Inevitável como foram inevitáveis as barragens que afogaram aldeias e alagaram os campos mais produtivos, as eólicas e linhas de alta tensão a recortar o topo dos montes, os incêndios tratados como fatalidades sazonais. Mas, não. Não sejamos ingénuos. Nada é inevitável quando há escolha. E aqui houve escolha, clara e assumida.
Cento e dez milhões de euros.
E depois admiram-se da revolta. Chamam-lhe radicalismo. Chamam-lhe atraso.
Todavia, essa revolta, esse radicalismo, esse atraso, mais não é que uma recusa convicta e informada em aceitar que o futuro risonho de alguns tenha de ser uma ferida aberta no peito de outros. E quando um Estado começa a financiar a ideia de que alguns territórios são descartáveis e sacrificáveis, não está apenas a destruir a paisagem, está a minar o próprio contrato social e a confiança dos cidadãos no próprio Estado de direito democrático.
A Savannah vem de fora, e como todas as empresas que vêm de fora, leva mais do que traz. É sempre mais fácil “investir” onde não se vive, sobretudo quando se trata de minas a céu aberto. O Governo, esse, voluntarioso, vai à frente, de carteira aberta e candeia acesa, a abrir caminho.

Cento e dez milhões de euros.
Dizem que é para contribuir para algo a que chamam de transição energética. Caros leitores, um incêndio também é uma transição energética: transforma uma floresta em cinza. Também dizem ser um investimento estratégico. Estratégico para quem? Para a Europa que precisa de lítio ou para a empresa que precisa de lucro? A estratégia de investimento, por estas bandas, sempre foi outra coisa e não passa por aí.
A região de Barroso que sobreviveu às invasões francesas de Soult, à ditadura de Salazar, à emigração dos anos 60, aos incêndios, ao abandono por parte do poder central e às constantes promessas nunca cumpridas, irá agora sucumbir, ironicamente, ao “progresso sustentável”, à transição energética financiada a cem por cento com boas intenções e dinheiro público? A verdade é que, o Barroso só chegou inteiro até aqui, como região protegida, onde se enquadra boa parte do Parque Nacional Peneda-Gerês, e classificada como Património Agrícola Mundial e Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés, porque sempre foi uma terra isolada, pobre e esquecida, longe dos grandes projectos de desenvolvimento. Foi esse “atraso” que o salvou. Agora vem o “progresso” corrigir esse “atraso”. E nós, vamos deixar que isso aconteça? Pensem nisso.
Um dia, quando a terra estiver esgotada, a mina fechará do mesmo modo que fecharam todas as outras, no Barroso, no país e no mundo, e ficará o que fica sempre. E aí, alguém perguntará o que ganhou o Barroso com tudo isto. A resposta, essa, será curta e envergonhada, pois aqui, sempre se falou pouco, mas sempre se disse tudo. E, cento e dez milhões de euros depois, o que ganhou o país? Haja alguém que se atreva a responder com seriedade. Mas não sejamos ingratos: o “progresso” passou por aqui.
Obrigado pelos 110 milhões de euros!

O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico

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