Retratos da nova emigração
Andreia Oliveira, de Espinho para a Suiça

Aos 31 anos, Andreia Oliveira construiu um percurso internacional marcado pela curiosidade científica e pela vontade de ultrapassar limites profissionais.
Natural de Nogueira da Regedoura e criada em Espinho, decidiu emigrar em 2018 depois de perceber que as oportunidades em Portugal eram insuficientes para concretizar a carreira que ambicionava na área da Física Médica. O primeiro passo levou-a ao CERN, em Genebra, experiência que abriu caminho a um doutoramento em Berna e a novas etapas de formação e investigação na Áustria. Atualmente trabalha no Instituto Paul Scherrer (PSI), na Suíça, onde conjuga atividade clínica, investigação e ensino, mantendo também ligações académicas a Portugal. Apesar de reconhecer as melhores condições de trabalho e de valorização profissional no estrangeiro, fala com emoção do país de onde partiu — o mar, as pessoas e a espontaneidade portuguesa continuam a fazer parte da sua identidade e alimentam o desejo de, um dia, poder regressar sem abdicar da carreira científica que construiu além-fronteiras.

O que a levou a tomar a decisão de emigrar?
Emigrei para a região de Genebra / Pays de Gex (Suíça/França) em 2018, para trabalhar no CERN.
Em 2019, iniciei o doutoramento em Berna (Suíça).
Em 2022, fiz a pós-graduação em Viena e o internato em Física Médica no MedAustron em Wiener Neustadt, na Áustria.
Em 2025, comecei a trabalhar no PSI, em Villigen, Suíça.
Depois de terminar o mestrado, trabalhei em proteção radiológica no sector privado, lidando com diversos equipamentos, clínicas, hospitais e indústrias que recorreriam a fontes de radiação ionizante no norte e centro de Portugal. Aprendi muito e adquiri uma bagagem de conhecimento valiosa ao trabalhar com diferentes sistemas e marcas, diferentes pessoas com diferentes formações e visões em relação ao uso de radiação. Algo que ainda me beneficia sempre que enfrento uma nova aquisição. No entanto, a médio prazo, percebi rapidamente que a margem de progresso era limitada em termos de funções e salarial e que o trabalho se tornaria rotineiro, e isso não correspondia ao que eu procurava para a minha carreira. Estagnar aos 22 anos não fazia parte dos meus planos, e percebi que o emprego que tinha na altura não se alinhava com os meus objetivos profissionais. Procurava uma posição que me permitisse conciliar a vertente clínica com a investigação e, simultaneamente, manter uma ligação ao ensino.
Comecei a procura de uma oportunidade mais desafiante quando surgiram duas possibilidades: uma no CERN, através de uma bolsa portuguesa da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, e outra num hospital perto de casa, em Portugal, para ser física médica.
O CERN abriu-me também o caminho para alcançar um dos meus objetivos: trabalhar com protões e iões no tratamento de doentes oncológicos, uma tecnologia que, na altura, ainda não estava disponível em Portugal. Hoje, sou Física Médica no PSI (clínica, investigação e ensino), professora auxiliar convidada na Universidade do Porto e cientista visitante no CERN.
Que fatores em Portugal mais pesaram nessa decisão?
Para mim, a escolha foi evidente. Sempre sonhei, como física, em trabalhar em instituições como o CERN. Como física médica, a minha ligação à física de partículas tornava esta oportunidade ainda mais atrativa. O projeto permitiria-me trabalhar com aceleradores de protões e iões no tratamento de pacientes com cancro em países como a Suíça, a Itália e a Alemanha. O CERN é o maior laboratório do mundo na área da física de partículas, ter acesso à tecnologia de ponta e ao conhecimento que lá se produz foi o fator decisivo na minha decisão.
Foi uma decisão rápida ou amadurecida ao longo do tempo?
Depois da entrevista e de receber a proposta, a decisão foi tomada de forma relativamente rápida. Apesar de alguns receios que me levaram a refletir com cuidado, desde cedo tive a sensação clara de que esta era a escolha certa, tanto a nível pessoal como profissional.
Quais eram as suas principais expectativas em relação à vida no país de acolhimento?
Partia com a vontade de conhecer novas realidades e com a expectativa de poder explorar “novos mundos”: contactar com pessoas diferentes, outras culturas e outras formas de estar e de ser. Trabalhar numa organização internacional, com mais de 100 nacionalidades representadas, pareceu-me um contexto ideal para iniciar essa aventura, proporcionando um enorme crescimento e enriquecimento, quer a nível humano, quer profissional.
E como foi a sua chegada? Quais foram as maiores dificuldades de adaptação?
Lembro-me muito bem do dia em que cheguei a Genebra de autocarro, sozinha, e pensei: “uma jovem nascida à beira-mar, que vivia numa aldeia como Guetim com menos de 1500 habitantes, agora está sozinha num país diferente”.
Nas primeiras semanas fiquei no hostel do CERN, onde partilhava tudo, inclusive o quarto, e tive o meu primeiro choque cultural, principalmente em relação aos níveis de higiene. Essa fase foi complicada e percebi rapidamente que precisava de ter um quarto só meu. Acabei por encontrar um apartamento partilhado em França, o que tornou a adaptação mais confortável.
Outro desafio foi a questão da minha assertividade. Como mulher, o facto de ser afável foi muitas vezes confundido com investidas de carácter romântico, e percebi rapidamente que teria de ajustar ligeiramente a minha forma de estar para reduzir esse tipo de abordagens, que chegaram a tornar-se desconfortáveis.
Encontrei também um grupo de portugueses que me fez sentir parte de uma família desde o início, através de uma colega da minha cidade. Lidar com toda a burocracia francesa foi uma das maiores dificuldades no processo de adaptação e, mais tarde, na Áustria, acabei por repetir, infelizmente, essa experiência. Já na Suíça, a minha vivência foi bastante diferente: encontrei sempre apoio e respostas eficientes por parte dos serviços administrativos, o que facilitou muito a integração inicial e o cumprimento correto de todos os procedimentos burocráticos.

Que estereótipos tinha sobre o país e descobriu que não eram verdade?
Um preconceito que tinha era que os suíços poderiam parecer reservados ou pouco comunicativos. De facto, no início, as pessoas tendem a ser reservadas nos primeiros contactos, mas rapidamente se revelam muito prestáveis e educadas. Por exemplo, a funcionária administrativa da receção do meu local de trabalho, que é suíça, cumprimenta-me todas as manhãs em português: “Bom dia! Como estás?”. Estes pequenos gestos tornam o dia de um emigrante muito mais doce.
Como conseguiu arranjar trabalho e casa?
Inicialmente, consegui uma bolsa portuguesa através da FCT e fiquei algumas semanas no hostel do CERN para poder procurar casa pessoalmente. Em nenhum dos países fui diretamente para a residência final de destino e recomendo sempre visitar o local antes de escolher a casa onde viver. Residências para expatriados ou residências estudantis podem ser muito úteis nesse período, permitindo ganhar tempo para reunir toda a documentação necessária, o que facilita bastante quando se está a candidatar a um imóvel. O mercado de habitação na zona de Genebra é extremamente competitivo e as rendas eram elevadas para uma bolseira portuguesa. Por isso, nos primeiros anos, vivi na zona francesa, partilhando casa com pessoas de outras nacionalidades. Para encontrar este quarto em França, utilizei uma plataforma interna do CERN (Marketplace), onde eram partilhados anúncios de aluguer de quartos e casas, bem como vendas de mobília e carros. Na Suíça francófona, o processo de procura de casa fez-se principalmente através de imobiliárias e visitas presenciais.
Na Áustria, fiquei temporariamente numa residência de estudantes e procurei casa através de plataformas online. Consegui trabalho na Áustria após candidatar-me ao MedAustron, que é um dos poucos locais no mundo que oferecem terapia tanto com protões como com iões de carbono. A tecnologia dos aceleradores tinha sido pensada no CERN e parecia uma boa oportunidade. Portanto, candidatei-me e, depois das entrevistas, consegui o emprego.
Quando regressei à zona germânica da Suíça, fiquei os primeiros três meses na casa de amigos enquanto procurava habitação através de imobiliárias. Um currículo bem elaborado pode ajudar bastante neste processo. O trabalho na Suíça surgiu também após três entrevistas online e mais de sete entrevistas presenciais.
Tem melhores condições de trabalho na Suíça? Sente-se mais valorizada?
Sim, sem dúvida. Começo por destacar a formação, que é proposta em conjunto com o meu supervisor e cuidadosamente alinhada com os meus objetivos profissionais.
O meu bem-estar no trabalho é valorizado. Sou consultada com antecedência sobre a preferência dos turnos, o que permite organizar melhor a vida pessoal e há também flexibilidade para viagens a casa.
A hierarquia é mais horizontal, o que traz várias vantagens, especialmente na forma como as ideias são discutidas. Quando algo não corre como esperado, somos incentivados a falar e partilhar, visto como uma oportunidade de aprendizagem. Até “quase erros” são reportados, para evitar que outros colegas os cometam. Existe espaço para reunir a equipa, analisar a situação e tomar medidas para melhorar os processos.
Em termos financeiros, em empresas privadas é comum haver valorização salarial ou bónus como prémios. No meu caso, isso não se aplica, pois sigo tabelas salariais institucionais, sem espaço para negociação individual.
Além disso, quando o trabalho é bem feito, há sempre reconhecimento perante toda a equipa. Os elogios são feitos publicamente, enquanto críticas e sugestões de melhoria são abordadas de forma privada.
O que mais a surpreendeu no mercado de trabalho suíço?
Tenho que admitir que me surpreendeu como o networking e as relações profissionais podem facilitar os processos de contratação. Como eu não conhecia ninguém no meio hospitalar, até conseguir o primeiro “sim” para ser física médica hospitalar, foi necessário um esforço consistente e muita persistência da minha parte.
Há algo em que considera que Portugal está mais avançado do que a Suíça?
No que toca ao trabalho, diria que Portugal se destaca pela capacidade de improviso e pelo tão conhecido “desenrasque”. Aqui, tudo é muito protocolar, o que oferece segurança, mas torna a mudança lenta e o processo de decisão por vezes moroso. O maior número de cenários e problemas é tomado em consideração e debatido antes da tomada de ação. Por outro lado, uma vez tomada a decisão, sinto que tudo avança rapidamente porque as regras e os planos são seguidos à risca.
Além disso, Portugal está mais avançado em algumas áreas do dia a dia: telecomunicações e acesso à fibra ótica, sentido de comunidade (embora esta perceção seja muito influenciada pelas minhas experiências pessoais), limpeza na restauração e qualidade dos alimentos.
Outro aspeto notável é a digitalização. Na Suíça, a quantidade de papel usada no trabalho e recebida em casa é impressionante. Desde a comunicação oficial, contas do dia a dia, folhetos sobre o que se passa no equivalente a uma junta de freguesia, até processos e documentos clínicos de pacientes, tudo é impresso. No entanto, a eficiência das respostas dos serviços administrativos na Suíça é algo que sempre me fascinou. Por outro lado, em Portugal, a digitalização já é uma realidade concreta da qual, como emigrante, aprecio e usufruo bastante.
Como é viver longe da sua família e dos amigos de infância?
Esta é, sem dúvida, a parte mais complicada da emigração. No meu caso, o apego familiar é real, e sentir falta da rede de apoio da família e dos amigos tem um impacto negativo no meu bem-estar. É verdade que é possível construir uma nova rede de apoio aqui, mas viver longe da família continua a ser um dos maiores contras de estar emigrada.

A distância afetou as suas relações pessoais ou familiares?
Sim, bastante. A distância acabou por pôr fim a algumas relações amorosas e, noutros casos, levou a um afastamento natural de algumas pessoas, por não existir contacto diário ou semanal. O meu avô também foi emigrante noutra época, e refletir sobre o privilégio que temos hoje, com as videochamadas que nos permitem ver os nossos entes queridos, traz-me conforto. Ainda assim, procuro manter a ligação com os amigos que consigo preservar em Portugal e com os familiares sempre que regresso.
Por outro lado, as pessoas que realmente se interessam fazem um esforço para me visitar nos países onde estou, manter o contacto e dar-me um abraço quando vou a Portugal.
Mantém maioritariamente contacto com portugueses ou com locais?
Vivo numa aldeia pequena, mas trabalho num ambiente internacional. A comunidade portuguesa na Suíça é muito peculiar, e o meu contacto limita-se aos amigos que conheci durante a época do CERN, espalhados agora pelo país, e a alguns portugueses que conheci em viagens de avião a Portugal.
Se comparar a sua vida em Portugal e na Suíça, quais são as maiores diferenças?
A maior diferença, diria, é a espontaneidade que sinto em Portugal! Algo que aqui praticamente não experiencio. Em Portugal, a minha vida dependia muito do acesso privilegiado ao Oceano Atlântico: nadava frequentemente, apanhava sol e comia muito peixe e marisco frescos. A tranquilidade que sinto à beira-mar em Portugal não a experimento em nenhum outro lugar, mas o mais próximo que encontro aqui são as montanhas. Subir uma montanha ou descer é algo que não fazia em Portugal, e agora faz parte da minha vida tanto no inverno, com o snowboard, como no verão, fazendo trilhos.
Na Suíça, noto menos eventos sociais. As pessoas, de modo geral, são mais reservadas e prezam muito o seu espaço individual. Não ter família e amigos por perto faz diferença em pequenas coisas: jantar sozinha, treinar sem parceiro, fazer por vezes uma caminhada sozinha em vez de acompanhada.
Outra diferença é que, em Portugal, os encontros com as pessoas giravam muitas vezes à volta da mesa e da comida. Já aqui e na Áustria, quando me encontro com amigos, dão-se mais valor a atividades ao ar livre e desportivas. Esta experiência, depois de me tornar emigrante, permitiu-me reunir o melhor dos dois mundos, que para mim representa a beleza da diversidade. Procurei também adaptar-me aos meus amigos e familiares portugueses, tentando combinar uma refeição com algum tipo de atividade diferente.
Por outro lado, tenho uma rotina mais previsível, descanso mais e há menos drama e conflitos no dia a dia. Uso mais a bicicleta e o transporte público. Dos países que visitei, só no Japão é que encontrei uma eficiência nos transportes semelhante à suíça. A articulação entre os vários tipos de transportes é incrível e ter acesso a sítios remotos sem precisar de carro é algo que ainda hoje me surpreende. Nessa linha, fiquei contente por ver Portugal a colocar investimento na ferrovia no horizonte.
Que aspetos positivos encontra em Portugal e que acha que deviam ser mais valorizados?
Se tivesse que escolher um, destacaria a mão de obra qualificada que produzimos como país. Na minha opinião, algo que devia ser mais valorizado. Depois, há os clichés que encantam tanto os portugueses como os turistas: a simpatia das pessoas, a boa comida, o clima agradável, a riqueza histórica e cultural e a incrível diversidade de paisagens que Portugal preserva. Num espaço de duas horas, de Espinho podemos estar numa cascata no Gerês, na Serra da Estrela ou a explorar cidades históricas cheias de charme, como Porto ou Guimarães.
Volta regularmente a Portugal?
Sim, diria que, em média, faço uma viagem a Portugal por mês.
Sente saudade do seu país?
Saudade é aquele misto de amor e tristeza pela ausência. Na minha opinião, só sentimos saudade daquilo que verdadeiramente amamos. Sim, sinto muitas saudades do meu país, das minhas pessoas e dos convívios. Sinto também saudades do mar e de tudo o que lhe está associado: a maresia, as caminhadas à beira-mar, a brisa, o cheiro, a sensação das ondas, o peixe e o marisco de qualidade, a pele salgada depois de um banho ou um café espontâneo na praia após o trabalho.

Sente que mudou como pessoa depois de emigrar? Acha que seria uma pessoa diferente se tivesse ficado em Portugal?
Sim, aos 23 anos, ter de recomeçar do zero num país sem rede de apoio é algo que realmente nos molda. Se nunca tivesse saído da minha zona de conforto, seria, sem dúvida, uma pessoa diferente. Os países por onde passei também me ensinaram o valor do planeamento e da antecipação. Era algo que, como adolescente, já tentava praticar, mas depois destes anos de emigração em lugares onde, por exemplo, a festa de Natal se programa em julho, desenvolvi esta capacidade a um outro nível e aplico a quase todos os tópicos da minha vida.
Que imagem têm os suíços dos portugueses?
Quando coloco esta questão aos suíços, recebo frequentemente respostas de que veem os portugueses como pessoas humildes e com grande capacidade de adaptação. A comunidade portuguesa é, de forma geral, considerada organizada e coesa, mantendo as suas tradições. Reconhece-se também a nossa presença em setores como construção, hotelaria, limpeza e saúde, valorizando-se a ética de trabalho que trazemos. Por exemplo, já fui questionada várias vezes sobre trabalhar na área da limpeza. Alguns estereótipos associados aos portugueses incluem uma certa “despreocupação”, assim como o gosto por socializar e aproveitar a vida. Por outro lado, há o reconhecimento de que somos trabalhadores dedicados, uma imagem que muito agradeço à geração de emigrantes portugueses anterior.
Como vê Portugal agora, estando longe?
Continuo a ter, em Portugal, experiências culturais muito interessantes, boas reflexões e interações acolhedoras com as pessoas em geral. É, e será sempre, um cantinho à beira-mar que faz parte de mim.
No entanto, também vejo uma crescente divisão política e algum desfasamento da realidade. Algo que observo igualmente em parte da comunidade portuguesa no estrangeiro e que considero potencialmente perigoso. Muitas pessoas informam-se através de pequenos excertos de vídeos, frequentemente manipulados, informações falsas que se espalham rapidamente, frases com comentários discriminatórios e insultos são agora ditas em voz alta, com normalidade. Vejo uma tendência a não questionar a desinformação recebida, preferindo-se o insulto à conversa educada e construtiva.
Sou confrontada algumas vezes com dificuldade na compreensão de textos complexos, gráficos e estatística assusta-me sinceramente, pela vulnerabilidade que cria da população face à desinformação. Tenho assistido a algumas conversas onde existe também a dificuldade em aceitar a evidência científica, substituída por “achismos” e crenças pessoais. Há uma certa dissociação da realidade e uma perceção distorcida alimentada pela comunicação social em vários tópicos como, por exemplo, em relação ao crime. Quando pergunto se já sentiram na pele um aumento real da criminalidade, muitas vezes dizem-me que não e, quando apresento os dados oficiais, colocam em causa a sua veracidade.
Na Áustria, já fui tratada como suspeita apenas por causa do país que aparece no meu passaporte. Sei o que é sentir esse peso injusto e, tal como não quero ser discriminada por ser portuguesa, também gostaria que Portugal não discriminasse ninguém com base na etnia, cor de pele, nacionalidade, aspeto físico, nome, apelido, religião, etc
Algumas generalizações que percebo que nascem de um medo geral do que é diferente, na minha opinião, poderiam tentar ser desconstruídas com experiências multiculturais vividas em primeira mão que teriam todo o potencial de aumentar a riqueza e diversidade do nosso país.
Sinto, em parte da população, mais um grito por mudança sem direção clara do que uma verdadeira discussão estruturada, onde haja união em torno do objetivo de melhorar o estado da sociedade portuguesa. É um problema complexo com várias frentes. Penso que parte desta realidade pode ser consequência do “desenrascanço” rápido, que nos permite resolver problemas de imediato, mas que tem o seu lado negativo: uma mentalidade muito focada no presente. Procuram-se soluções simples e respostas rápidas, resolvendo-se problemas agora, sem grande reflexão sobre as consequências futuras. O temporário tende a tornar-se permanente, e a evolução com sentido e planeamento dificilmente acontece.
O queixume sem propor soluções e o “vamos andando” de algumas pessoas também me incomodam. O fatalismo, a ideia de que o nosso destino está traçado, é algo com que não me identifico. Um exemplo particular é a questão da reforma: ouço frequentemente pessoas a dizer que o Estado não será capaz de assegurar a sua pensão. Compreendo a preocupação e entendo o receio da população ao ouvir estas previsões.
Na Suíça, pelo contrário, existe uma mentalidade de planeamento antecipado da própria reforma e da segurança financeira, de modo a não depender exclusivamente do Estado. Naturalmente, a literacia financeira influencia muito as escolhas que a população faz.
A falta de conhecimento em relação ao sufoco financeiro entristece-me, sobretudo quando tantas pessoas dependem de um salário mínimo, muitas vezes sem gestão financeira adequada e sem capacidade de criar um fundo de emergência, sobrevivendo no limite da pobreza. Esta falta de condições cria uma frustração enorme numa parte da população que compreendo. Vejo, no entanto, os portugueses a falar cada vez mais sobre dinheiro, quebrando tabus sobre rendimentos, poupanças e investimentos. Fico contente por ver este progresso na comunicação social e nos círculos de amigos, e espero que, em poucos anos, se reflita também no setor empresarial, pois acredito que esta transparência e conhecimento poderão beneficiar muito os portugueses.
Algo que aprecio na Suíça é a transparência do poder local e a democracia direta. Como qualquer sistema, tem desvantagens, mas envolve mais a população e faz com que as pessoas sintam que a sua opinião conta para o desenvolvimento do país.
Houve mudanças em Portugal desde que emigrei, mas nem todas são positivas no meu ponto de vista, e algumas deixam-me desiludida. Sempre tive a ideia de que éramos um país naturalmente acolhedor, mas hoje sinto que isso já não se aplica a todos. Por outro lado, vejo mudanças positivas que me dão esperança de que este cantinho bem situado no sudoeste da Europa possa ser um bom lugar para viver, trabalhar e criar família.
Idealmente, gostaria que continuássemos… ou voltássemos.. a ser um país onde a dignidade e o respeito não dependem da origem de cada pessoa. Um povo unido e solidário, como se viu recentemente nos desastres na zona centro, com foco na inovação, no conhecimento, na ciência e em reformas estruturais que promovam a qualidade de vida de todos os cidadãos sem exceção.
Acha que Portugal valoriza a sua diáspora?
Acredito que, como em muitos temas, existe espaço para melhoria. Vejo esta questão como uma estrada de dois sentidos: também nós, enquanto diáspora, temos de nos envolver ativamente. No entanto, pessoalmente sinto que ainda há um caminho significativo a percorrer no que toca à valorização da diáspora portuguesa.
Foi precisamente por reconhecer essa necessidade que, em 2020, fiz parte da fundação da Associação de Portugueses Graduados na Suíça (AGRAPS). Entre vários objetivos, destaco, no contexto desta pergunta, o de estreitar laços com os meios académicos, científicos, industriais, culturais e governamentais, tanto em Portugal como na Suíça, promovendo a cooperação bilateral. A associação procura também intervir no âmbito da Diplomacia Científica, posicionando-se como parceira estratégica do Governo e das Instituições de Ciência e Tecnologia.
Em 2024, através do Fórum Anual de Graduados Portugueses no Estrangeiro (GRAPE), tive a oportunidade de colaborar com outros emigrantes portugueses e, por exemplo, de contactar o Ministro da Educação, Ciência e Inovação em Portugal. No início deste ano, recebi a visita do Embaixador da Suíça e do Liechtenstein no meu trabalho. No ano passado, fui contratada como Professora Convidada Auxiliar na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP). Estas experiências mostram que existem pontes a serem construídas, mas acredito que ainda há potencial para uma valorização mais estruturada e consistente da diáspora portuguesa.

Vê uma nova “geração de emigrantes portugueses” diferente das anteriores?
Sim. Na Suíça, por exemplo, existe uma nova geração de emigrantes portugueses. Quando estava no CERN, existia a necessidade de criar redes de apoio para este grupo, e foi assim que surgiu a AGRAPS. Em 2020, junto com outros graduados portugueses, fundámos a AGRAPS com o objetivo de facilitar a integração de novos emigrantes qualificados e apoiar esta nova geração.
Que conselhos daria a jovens portugueses que estão a pensar emigrar?
Para mim, é muito importante conhecer o local antes de dar o salto. Nem sempre tive essa oportunidade, mas seria um conselho valioso: fazer uma visita, ter uma entrevista presencial, conhecer as pessoas, os caminhos e o local onde se vai trabalhar e a região onde se vai potencialmente viver.
Também é essencial preparar com alguma antecedência toda a parte burocrática possível, quer através do RH da empresa, quer através dos serviços administrativos da comunidade onde se vai morar.
Procurar comunidades de apoio faz toda a diferença. As redes sociais ajudam bastante, mas no meu caso, encontrei sempre algum ponto de referência através de amigos de amigos.
Por fim, é preciso coragem para enfrentar o medo da mudança. Um pensamento que me ajudou muito quando tomei a decisão de emigrar foi: “Se correr mal, posso sempre voltar a casa, a Portugal.”
Considera a emigração como solução temporária ou definitiva?
Não existe uma resposta simples de “sim” ou “não” que seja absolutamente verdadeira para mim e que possa ser escrita na pedra. Saí de Portugal com a intenção de ficar 12 meses no estrangeiro. No entanto, já passaram sete anos e meio e continuo emigrada. O meu sonho é poder voltar um dia, sem ter que abdicar da minha carreira profissional.



