Retratos da nova emigração

Francisca Gomes, do Porto para os Países Baixos

Francisca Gomes, tem 30 anos. Trocou o Porto pelos Países Baixos, onde trabalha como Account Manager (Gestora de Conta) dos ACROBiosystems, um fornecedor de empresas farmacêuticas e biotecnológicas. Em junho de 2020, emigrou para os Países Baixos, concretamente para a cidade de Enschede, para fazer o doutoramento. Concluiu-o em março 2025 e em junho do mesmo ano mudou-se para Haia. Já antes fizera o estágio de mestrado no mesmo país, em Groningen.
Nesta entrevista, fala da sua experiência e lança um olhar crítico sobre Portugal mas também sobre alguns aspetos da mentalidade dos holandeses.

O que a levou a tomar a decisão de emigrar?

Várias razões me levaram a sair de Portugal.
Primeiramente, em contexto laboral, nunca me senti enquadrada nem realizada em Portugal. Durante o meu estágio de conclusão de mestrado, no Porto, o ambiente no instituto era absolutamente hostil e contra-produtivo, tanto a nível profissional como pessoal. No meu contrato seguinte, como bolseira de investigaçäo noutro instituto no Porto, encontrei um ambiente mais simpático, mas ainda assim corrompido por preguiça e projetos sem futuro.
Em contexto pessoal, devo dizer que sempre gostei mais da minha vida nos Países Baixos do que em Portugal. Depois de viver no estrangeiro pela primeira vez, apercebi-me de que havia, no meu entorno em Portugal, uma obsessão crónica por poupar dinheiro, que era compreensível mas absolutamente castrante. A organização infraestrutural do país está feita por forma a impedir hábitos simples, como deslocar-se entre cidades e vilas de transportes públicos e, mais marcantemente, vejo a população portuguesa geralmente programada para a inveja, a aversão a novas ideias, e a baixa auto-estima.

Que fatores em Portugal mais pesaram nessa decisão?

A mentalidade, os salários, e as oportunidades foram os três principais fatores da minha decisão.

Foi uma decisão rápida ou amadurecida ao longo do tempo?

Foi uma decisão amadurecida, sem dúvida, que esteve sempre presente desde a minha adolescência e que se materializou mais tarde. Tive sempre apoio da minha família. Senti vontade de partir.

Quais eram as suas principais expectativas em relação à vida no país de acolhimento?

Maior independência financeira, um maior sentimento de satisfação pessoal, e um ambiente laboral com colegas que partilhassem a mesma ética de trabalho. E mais oportunidades desafiantes na minha área.

E como foi a sua chegada? Quais foram as maiores dificuldades de adaptação?

Estava muito contente, ansiosa, e determinada a seguir a minha vida normalmente. No comboio a caminho da minha nova cidade, depois de sair do aeroporto, vim à conversa com um empresário holandês que tinha regressado nesse dia do Peru. Falámos da vida no Peru, das desigualdades entre classes, e do contraste com a Europa, e da beleza da cidade natal dele, Zutphen. Assim que ele saiu, comecei a programar os aspectos práticos da minha nova vida, como arranjar uma bicicleta em segunda-mão.
A maior dificuldade de adaptação foi a cultura e a solidão. Cheguei ao país em Junho de 2020, em pleno COVID-19, e não pude conhecer muitas pessoas. Estava restringida a um grupo específico de colegas de trabalho, vizinhos, e trabalhadores de serviços mínimos, e a grande maioria (homens, de várias origens e idades) interpretavam a minha simpatia, tipicamente portuguesa, como um avanço romântico ou sexual. Sofri muito, sobretudo no ambiente de trabalho, e comecei a isolar-me. Com o tempo, mudei de casa, consegui uma transferência para um grupo de trabalho onde me sentia mais confortável, comecei a fazer mais amigos, aprendi a adaptar os meus níveis de simpatia, e tornei-me mais assertiva.

Que estereótipos tinha sobre o país e descobriu que não eram verdade?

Sempre pensei que os holandeses eram antipáticos e trabalhadores. Estava enganada: os holandeses são, em geral, mais simpáticos do que os portugueses, e pouco trabalhadores, mas muito produtivos nas poucas horas em que trabalham. No entanto, é de notar que a simpatia holandesa é apenas superficial, e a população em geral é condescendente, egoísta, e gananciosa.

Como conseguiu arranjar trabalho e casa?

Consegui a minha posição de doutoramento ao candidatar-me à vaga no Linkedin. Consegui casa ao contactar várias agências, e ao deslocar-me à Holanda durante um dia para visitar apartamentos.

Tem melhores condições de trabalho Nos Países Baixos? Sente-se mais valorizada?

Sim e não. Em Portugal, a minha ética de trabalho e eficiência eram bastante elogiadas, enquanto que no estrangeiro não, porque estas qualidades são a norma. Por outro lado, sinto-me mais valorizada no estrangeiro em termos de compensação salarial – o meu salário tem sido aproximadamente três vezes superior ao salário que receberia em Portugal; tenho horários mais flexíveis, e muito melhor progressão de carreira. Neste momento trabalho em gestão de clientes em vendas. É uma área distinta da minha área de formação (bioengenharia).

O que mais a surpreendeu no mercado de trabalho dos Países Baixos?

Os incentivos fiscais para atração de estrangeiros altamente qualificados. Em 2020, quando cheguei aos Países Baixos, foi-me apresentada a regra dos 30%, uma legislação que permitia a cidadãos estrangeiros não pagar impostos sobre 30% do seu salário durante 5 anos, mediante certa condições. Estas condições incluíam: certificação de que nenhum holandês, candidato à mesma vaga de trabalho tivesse as mesmas qualificações profissionais; e que o candidato estrangeiro nunca tivesse vivido nos Países Baixos e num raio de 150 km da fronteira. Consegui qualificar-me para esta modalidade, o que me ajudou a poupar algum dinheiro.

Há algo em que considera que Portugal está mais avançado do que os Países Baixos?

No que diz respeito a questões laborais, não.

Como é viver longe da sua família e dos amigos de infância?

É um processo tranquilo. Não retive nenhum amigo de infância nem da adolescência, e quase todos os meus amigos portugueses estão no estrangeiro. Consigo comunicar e visitar os meus amigos à mesma frequência que provavelmente conseguiria se estivesse em Portugal. Quanto à minha família, falo com eles todos os dias, mas mesmo assim gostaria de os ver com maior frequência.
Cheguei em pleno COVID-19, o que restringiu a minha capacidade de criar novas amizades, e no pós-COVID notei que as pessoas eram muito reservadas durante as suas actividades pós-laborais. Fiz apenas alguns amigos no trabalho.

A distância afetou as suas relações pessoais ou familiares?

A distância melhorou a qualidade das minhas relações familiares e não afectou as minhas relações de amizade.

Mantém maioritariamente contacto com portugueses ou com locais?

Mantenho contacto com portugueses (aproximadamente 50%), mas também locais e internacionais (outros 50%).
Atualmente, trabalho remotamente para uma empresa multinacional. Trabalho desde casa todo o dia, tenho aulas de holandês no centro de Haia às terças-feiras, e vou começar aulas de ténis em breve durante a semana. Passo os fins-de-semana com o meu namorado, as minhas amigas da cidade onde morei anteriormente (Enschede), amigos portugueses espalhados pela Europa, ou família que me visita.

Se comparar a sua vida em Portugal e nos Países Baixos, quais são as maiores diferenças?

Em Portugal, tinha uma vida confortável mas desinteressante. Tinha pouca oportunidade de ir sair com amigos e pouca variedade de atividades pós-laborais. Na Holanda, sinto-me um pouco mais desconfortável porque estou distante das minhas origens, mas tenho uma vida social mais ativa, sinto-me mais desafiada profissionalmente, tenho mais atividades pós-laborais, e mais oportunidades de conhecer pessoas de outros países (Itália, França, Grécia, Turquia, Argentina, Equador, México, China, Índia, Irão, e outras).

Que aspetos positivos encontra em Portugal e que acha que deviam ser mais valorizados?

Devo dizer que os portugueses se sobrepõem (e muito) aos estrangeiros em termos de boas maneiras, maturidade, humildade, e empatia. Penso que as paisagens naturais de Portugal, o clima, e a gastronomia estão severamente subvalorizados pelos próprios portugueses, e seria importante mudar essa perspectiva.

Volta regularmente a Portugal?

Volto a Portugal duas a três vezes por ano. Sinto que é uma das minhas duas casas.

Sente saudade do seu país?

Saudade é sentir a falta de alguém ou algo que nos é querido. Sinto falta do clima ameno no inverno, certos pratos portugueses como o peixe grelhado e o bacalhau com natas, e os cafés das cidades.

Sente que mudou como pessoa depois de emigrar?

Sim. Sinto-me mais assertiva, confiante, inteligente, optimista, e calma face a problemas.

Acha que seria uma pessoa diferente se tivesse ficado em Portugal?

Sim, sem dúvida. Seria uma pessoa muito menos confiante, mais inflexível, e mais pessimista.

Que imagem têm os holandeses dos portugueses?

Os holandeses estereotipam os portugueses como mediterrânicos: pele escura, cabelo escuro, sestas, preguiça, e mulheres que gostam de limpar. No entanto, cada vez mais portugueses entram em relações com holandeses (uma tendência que, curiosamente, não tenho verificado noutros povos sul-europeus na Holanda), e rapidamente o estereótipo é revertido para pessoas trabalhadoras, calmas, e bondosas.

Como vê Portugal agora, estando longe?

Vejo Portugal como um país estagnado, com poucas soluções e insuficiente creatividade. O sentido de progresso é frequentemente castigado com críticas, e a simpatia das pessoas vai-se perdendo a pouco e pouco com as frustrações do dia-a-dia. Penso que a vida em Portugal mudou para pior. O aumento dos salários não acompanhou o aumento do preço da habitação e existe cada vez mais pobreza nas ruas.

Acha que Portugal valoriza a sua diáspora?

Não tenho uma opinião clara quanto a este ponto. Por um lado, existe um estereótipo claramente negativo em relação às gerações de emigrantes portugueses pré-anos 2000, mas um estereótipo misto em relação às gerações de emigrantes pós-anos 2000. Na generalidade, somos vistos como os jovens que tiveram de sair do país e “fazer pela vida”; por outro lado, já ouvi quem dissesse que somos os “ingratos” que não contribuem para a reforma dos próprios pais.

Vê uma nova “geração de emigrantes portugueses” diferente das anteriores?

Sim, sem dúvida. A última geração de portugueses emigrantes é altamente qualificada, ao contrário de gerações passadas. Muitos jovens engenheiros, veterinários, e enfermeiros portugueses vivem hoje no estrangeiro para terem melhores condições de vida e de trabalho.

Que conselhos daria a jovens portugueses que estão a pensar emigrar?

Recomendo aos jovens que o façam, mas que estabeleçam um propósito bem claro. No meu caso, o meu objetivo em ir para o estrangeiro foi obter o grau de doutorada, recebendo um salário justo, e foi isso que me manteve firme durante as grandes dificuldades.
Não se sintam pressionados a emigrar se virem que a vossa personalidade não combina com isso. Se eventualmente decidirem emigrar, e não se adaptarem, que saibam que é normal, e que é sempre possível regressar a casa. O que importa é sermos felizes. Aproveitem as pequenas coisas da vida, como o sol de inverno, os cafés, os bolos de arroz, e o bacalhau à brás, porque no estrangeiro não há nada disso.

Considera a emigração como solução temporária ou definitiva?

Definitiva. Só regressaria a Portugal por três motivos: para cuidar de familiares, para me reformar, ou por algum outro motivo de força maior.

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