Retratos da nova emigração
Rita Trabulo, de Lisboa para Bruxelas

A Rita tem 31 anos. Originária de Tavira, onde residiu até aos 17 anos, depois de viver 10 anos em Lisboa, deixou a capital em 2022 , primeiro para Inglaterra e depois para a Bélgica, em busca de um emprego que lhe permitisse fazer investigação científica na área da Biologia, o que não aconteceu em Portugal. A Rita exerce atualmente funções no Instituto de Ciências Naturais, no âmbito de um projeto europeu dedicado à criação e desenvolvimento de áreas marinhas protegidas na Europa, como ferramentas de conservação do ambiente. O seu trabalho consiste em acompanhar o estado das zonas marinhas da Bélgica e identificar os impactos das atividades humanas nesses espaços. No Instituto, coordena um grupo de trabalho que analisa os desafios enfrentados pelos responsáveis pela gestão dessas áreas protegidas. Apesar de desenvolver a sua atividade profissional no estrangeiro, reconhece, com alguma melancolia, que Portugal é um lugar que sente como seu, mas que, ao mesmo tempo, nem sempre oferece aos jovens as condições que considera justas e merecidas. Ainda assim, mantém a convicção de que será, sem dúvida, o país ao qual deseja regressar.

O que a levou a tomar a decisão de emigrar?
Após terminar o meu mestrado, em dezembro de 2021, procurei emprego durante cerca de sete meses, em Portugal e no estrangeiro. A oportunidade em Cambridge foi a primeira que surgiu que se alinhasse com a minha ambição em termos de carreira. Enquanto procurava emprego trabalhei em centros de vacinação para o COVID. Decidi emigrar pois foi-me muito difícil aceder à área da biologia, da investigação científica em Portugal. A maior parte das vagas a que me candidatava eram publicadas já com um candidato em mente e realizei inúmeras entrevistas “fictícias” o que me deixou frustrada e cansada. Percebi que, sem experiência e sem networking, seria muito difícil encontrar uma posição na área da biologia marinha / conservação da natureza. Acho que sempre soube que seria difícil, mas não imaginei que fosse assim tanto. Para além da escassez de oportunidades, o salário foi outro dos componentes que me levou a emigrar. Em Portugal, os salários na área da investigação ou da conservação da natureza são muito baixos para alguém em posição de início, ou até a meio da carreira. Estas oportunidades concentram-se principalmente nas grandes cidades, onde o custo de vida é também mais elevado.
Foi a sua primeira experiência fora do país ou já tinha vivido no estrangeiro antes?
Já tinha vivido no estrangeiro por breves períodos, cerca de quatro vezes, em Erasmus ou estágios, que nunca duraram mais de quatro ou cinco meses.
Foi uma decisão rápida ou amadurecida ao longo do tempo? Tinha um plano concreto ou foi “à aventura”?
Esta decisão foi rápida. Tendo em conta não querer continuar na área médica e o panorama com que me deparei na área da biologia, era o mais lógico a fazer. Tinha vontade de partir. Não tinha um plano definido, procurava ganhar alguns anos de experiência, poupar algum dinheiro, e ver como me sentia depois disso. Era um plano exploratório, digamos.

Teve apoio da família ou encontrou resistência?
Tive apoio da família, acho que sempre esperaram que eu emigrasse, tendo em conta a minha personalidade e interesses.
O que procurava no estrangeiro que sentia não existir em Portugal?
Penso que o que procurava no estrangeiro era, no fundo, o reconhecimento do meu esforço, do meu trabalho. A reação que encontrava em Portugal sempre que a minha formação em Medicina era discutida nas entrevistas era um misto de desconfiança, desdém e hesitação. Algo que no fim parecia puxar-me para baixo em vez de para cima, aos olhos dos recrutadores. Encontrei, no entanto, a postura oposta sempre que interagi com recrutadores estrangeiros (ex: no Reino Unido, na Finlândia, na Bélgica) o que me deu alguma esperança de que as escolhas que tinha feito poderiam de facto levar-me a onde queria chegar. Acho que foi essa lufada de ar fresco que me atraiu e que me fez embarcar nesta aventura.
Quais eram as suas principais expectativas em relação à vida no país de acolhimento?
Quando cheguei a Inglaterra, esperava que tudo funcionasse na perfeição, que os transportes não fossem cancelados sem aviso, que os autocarros fossem abundantes e pontuais, que aceder a cuidados de saúde fosse rápido e eficaz. Acho que por vezes idealizamos a vida “lá fora” como solução para tudo o que está mal em Portugal. Vivemos na ilusão que o centro da Europa “só pode ser melhor” o que não se verifica. Tendo-me mudado depois para a Bélgica, consigo dizer que apesar de ser mais eficaz em muitas destas coisas e até em alguns assuntos burocráticos, os processos num instituto público como o em que trabalho atualmente são semelhantes ao que se assiste em Portugal, densamente burocráticos, com necessidade de muitas assinaturas e autorizações, lentos e fundamentalmente resistentes à mudança. Quando emigrei uma grande expectativa que tinha e que me entusiasmava era o encontro com outros jovens emigrantes, a possibilidade de interagir com novas culturas, com novas formas de ver a vida. Ansiava por encontrar pessoas cujos valores e ideais se alinhassem com os meus e que imaginei que estivessem no estrangeiro, já que em Portugal não os encontrei tão facilmente.
Considera a emigração como solução temporária ou definitiva?
Ao longo da minha adolescência sempre romantizei muito a ideia de emigrar e imaginei que me tornaria uma daquelas tias cool que fala muitas línguas e vive no estrangeiro e traz prendas e ensinamentos originais aos seus sobrinhos. No entanto, após três anos emigrada, tive de fazer o luto desta ideia que tinha de mim. Agora vejo a emigração como temporária e a vontade de regressar para junto da minha família e de simplesmente estar e assistir ao desenrolar da vida com eles é algo que quero, pelo menos durante uns tempos.
Como foi a sua chegada? O que pensou nesse dia?
Quando cheguei a Cambridge era dezembro. Lembro-me de ficar hospedada na casa de um colega que estava fora. Lá fora anoitecia cedíssimo e estavam -6 graus. Nevava. Eu não tinha trazido botas e usava dois pares de meias de algodão na esperança de que protegessem minimamente os meus pés enfiados nos meus ténis velhos. Senti-me pronta e muito mal preparada ao mesmo tempo, para o que aí vinha. Sentia-me orgulhosa de mim, por ter conseguido ter a coragem de dar este passo na direção que eu sentia ser a certa para mim, mas ao mesmo tempo, estava cheia de medo. Medo de não encontrar casa, de não fazer amigos, de não gostar do trabalho, essencialmente medo de desistir antes do tempo (que tempo era esse, não sei) e “fracassar”. Quando cheguei a Bruxelas, eu já sabia que conseguia emigrar, já sabia que conseguia mudar de país. Tinha aprendido o que fazer, como o fazer, quando o fazer para sobreviver e me tornar uma trabalhadora numa cidade nova. No entanto, quando cheguei, e entrei sozinha com as minhas malas na casa que iria partilhar com mais 3 raparigas, uma questão não me saía da cabeça: Porque é que estou a fazer isto a mim própria, outra vez? Lembro-me de passados uns dias me obrigar a escrever numa folha de papel (que ainda hoje guardo comigo) o porquê de ali estar, em Bruxelas, a trabalhar.


Quais foram as maiores dificuldades de adaptação?
Diria que a maior dificuldade de adaptação foi sem dúvida a solidão. Os primeiros meses no estrangeiro foram difíceis. É uma mudança radical de tudo, emprego, vida social, clima, casa, cultura. O isolamento inicial acaba por estar muito assente no assoberbamento que nos inunda quando damos os primeiros passos no processo de emigração. Sentia uma enorme pressão para falar com pessoas, aceitar convites, fazer amigos, com medo de voltar à minha casa partilhada e estar sozinha novamente. Sempre me rodeei de pessoas e estar em grupo sempre foi a minha forma favorita de recarregar baterias e relaxar. Aprendi a estar sozinha e a quase gostar da sensação de ter tempo só meu, que me pertencia.
A burocracia não foi muito linear mas tive a sorte de ser cidadã da união europeia e isso facilita muito o processo de chegada quer ao Reino Unido, quer à Bélgica. Tinha colegas de fora da Europa que tiveram processos muito mais complexos e demorados. Relativamente à cultura, de facto é um fator que apesar de acharmos que não pesa, que somos cidadãos do mundo e que temos a plasticidade de nos adaptar a qualquer forma de viver, a verdade é que muda muito a espontaneidade das nossas interações sociais, quer privadas quer laborais. O discurso e a linguagem corporal, ainda que inconscientemente, começam a ser passados por um crivo consoante a forma de estar ou cultura da pessoa que temos à frente, o que por vezes se pode tornar cansativo. No entanto, é um desafio que aceitei de braços abertos, pois sempre foi da minha personalidade esta curiosidade relativamente às diferentes visões, formas de estar a costumes dos outros. Foi muito enriquecedor para mim aprender a navegar as idiossincrasias dessas interações.
Fala a língua do seu país de acolhimento? Como e onde a aprendeu?
Falo inglês fluente, tinha aprendido na escola. A barreira linguística no Reino Unido foi bastante inferior à que encontrei em Bruxelas.
Falava algum francês, mas depois do primeiro mês percebi que o inglês e o pouco francês não iam ser suficientes para navegar uma cidade em que os serviços públicos se realizam quase totalmente em francês, e em que o inglês é quase apenas utilizado em contexto de hospitalidade, e nem sempre é a primeira língua a ser ouvida. Para além disso, sendo um instituto antigo e público, a comunicação é principalmente feita ou em Holandês ou em francês. O meu contrato estava escrito em holandês e não me foi fornecida nenhuma tradução, apenas uma cópia de um contrato semelhante, em francês. Os meus recibos de vencimento estão em holandês também apesar de ter solicitado a sua emissão em francês. Poucas das comunicações a nível do instituto são feitas em inglês e a troca de e-mails com os serviços operacionais são sempre em holandês ou francês. Esta barreira fez-me procurar aulas de francês privadas e idealmente adaptáveis o suficiente às necessidades que fossem surgindo ao longo da navegação da vida na Bélgica. Recorri a um grupo de WhatsApp de emigrantes portugueses em Bruxelas onde me passaram o contacto de uma Professora com quem tenho aulas há cerca de um ano, que me ajudaram muito a navegar o processo de me estabelecer na Bélgica.
Que estereótipos tinha sobre o país e descobriu que não eram verdade?
Cheguei à Bélgica habituada à pontualidade britânica e achei que o país também se regesse pelo mesmo rigor. No entanto, quando comecei a trabalhar rapidamente percebi que a flexibilidade é muito superior e chegar 5 ou 10 minutos atrasado a uma reunião, ou avisar no momento que apenas poderemos ficar 30min em vez de 1h, são vistos com normalidade.

Como conseguiu arranjar trabalho e casa?
A procura de trabalho, fi-la antes de me mudar para o país. Através de pesquisas na internet, em sites específicos de empregos na área de ciências marinhas e também utilizando o Linkedin. Para arranjar casa utilizei principalmente sites de aluguer de quartos, quer em Inglaterra quer na Bélgica. Em Inglaterra foi assim que encontrei um quarto, depois de vários meses a tentar encontrar quarto à distância, foi numa semana em Cambridge em que fiz múltiplas visitas que consegui encontrar algo dentro do meu orçamento e perto do escritório. Em Bruxelas, utilizei um grupo de whatsapp de portugueses em Bruxelas, onde as pessoas vão partilhando quartos e apartamentos disponíveis e rapidamente encontrei uma solução.
Já enfrentou situações de preconceito ou discriminação?
No trabalho onde me encontro atualmente nunca encontrei preconceito ou discriminação por assim dizer mas noto que, sendo emigrante, várias vezes me é colocada a questão dos meus planos futuros. Perguntam-me se penso estabelecer-me no país onde estou, se me vejo a assinar a próxima renovação do contrato, por exemplo. Questões que percebo de onde vêm mas que não parecem ser colocadas a outros colegas locais.
Como é o seu dia a dia atualmente?
O meu dia-a-dia atual é bastante rotineiro, costumo acordar de manhã, preparar a marmita com o almoço e ir para o escritório de bicicleta, que fica relativamente perto. Gosto de começar a trabalhar cedo, sendo normalmente a primeira pessoa da equipa a chegar. Almoço no escritório, dependendo do dia da semana, acompanhada por outros colegas da equipa ou sozinha (é obrigatório ir ao escritório apenas dois dias por semana). Depois do trabalho costumo praticar exercício ou ter aulas de francês.
Sente que é mais valorizada no estrangeiro do que em Portugal?
Sinto que sou mais valorizada no estrangeiro. Ao longo destes 3 anos continuei de tempos a tempos a candidatar-me a posições em Portugal. Para vagas com requisitos semelhantes, em Portugal não costumo ser chamada para entrevistas, na Europa Central sim.
Tem melhores condições de trabalho?
Trabalho num instituto de investigação público. Diria que aqui na Bélgica tenho sem dúvida melhores condições de trabalho (bom balanço trabalho-vida pessoal, 36 dias de férias, subsídio de férias e de Natal, cartão-refeição), o salário chega a ser três vezes mais alto do que em Portugal, para uma posição semelhante. A progressão na carreira é simplificada para os primeiros anos de trabalho, ou seja, à medida que a experiência aumenta, o salário é atualizado. No entanto, à semelhança de Portugal, ter um Doutoramento (que não tenho) faz diferença e é uma das barreiras à progressão na carreira a longo prazo.

O que mais a surpreendeu no mercado de trabalho do país onde vive?
A quantidade de oportunidades que existem para jovens.
Fez facilmente amigos?
Sim, sempre tive alguma facilidade em fazer amigos, mas a verdade é que os amigos que fiz e que faço são quase todos imigrantes. É muito mais difícil para mim fazer amizade com locais, a disponibilidade parece ser menor. Aqui mantenho contacto principalmente com outros estrangeiros que vivem em Bruxelas. Uma minoria são portugueses. Não que procurasse ativamente fazer ou não amigos portugueses, mas acabou por acontecer. Falar a mesma língua traz alguma proximidade que o inglês nem sempre permite.
Como é viver longe da sua família e dos amigos de infância?
Ao início foi mais fácil, a novidade, o desafio mantinham-me ocupada e entusiasmada. À medida que o tempo passa, para mim tornou-se mais difícil e não mais fácil, apesar de pessoalmente ter esperado que fosse o contrário. Mantenho contacto muito regular com a minha família e com os meus amigos e sinto que estão bastante presentes na minha vida, da forma possível. Sinto necessidade de regressar a Portugal frequentemente para fomentar essas relações e estar presente nos marcos mais importantes da jornada de cada um deles. Como uma amiga minha italiana diz, aprendemos a viver com uma pequena melancolia dentro de nós.
A distância afetou as suas relações pessoais ou familiares?
Sim, levou a que algumas relações tivessem de ser adaptadas à realidade da distância. Também fez com que algumas relações desaparecessem. No entanto, algumas tornaram-se ainda mais fortes. Deixar de partilhar o dia-a-dia com amigos ou família é algo que tem repercussões para quem parte mas também para quem fica.
Como vê Portugal agora, estando longe?
Vejo Portugal como o país que gostava que fosse a minha casa mas que não o é e provavelmente não será nos próximos tempos. É um lugar que me pertence, mas que ao mesmo tempo me rejeita. Portugal desperdiça o potencial dos jovens que forma, com cerca de 30% dos portugueses entre os 15 e os 39 anos a residir no estrangeiro. Mas é, sem dúvida, o país onde quero regressar. Sinto que em três anos pouca mudança aconteceu. Aos poucos, começa-se a assistir a uma maior valorização do mar e da natureza, na esfera política e cultural, com novas organizações e instituições a surgirem nesta área. É uma mudança boa e faz-me acreditar que um dia poderei voltar e construir uma carreira onde me sinta valorizada e na qual possa fazer a diferença.

Se comparar a sua vida em Portugal e na Bélgica, quais são as maiores diferenças?
Algumas das maiores diferenças são o orçamento disponível, a facilidade de acesso a outros países da Europa e o contacto com diferentes culturas. Aqui consigo gerir melhor o meu orçamento, conseguindo poupar mais dinheiro do que em Portugal, ao mesmo tempo que me consigo dedicar a mais atividades para além do trabalho. Além disso, é uma enorme vantagem estar no “centro” da Europa com acesso a autocarros e comboios que me permitem viajar facilmente. Por outro lado, pode ser uma vida mais solitária e com uma rede de apoio menor.
Que aspetos positivos encontra em Portugal e que acha que deviam ser mais valorizados?
Acho que o principal acaba por ser a sensação de segurança. Portugal é um país bastante seguro, algo que às vezes tomamos como garantido. O clima acaba por ser muito importante também, já que em comparação com outros países da Europa é bastante mais ameno.
Volta regularmente a Portugal? O que sente quando regressa?
Costumo regressar a Portugal frequentemente, de 2 em 2 meses aproximadamente. É uma sensação agridoce. Fico muito feliz de voltar, mas ao mesmo tempo um pouco ansiosa porque sei que é sempre temporário e requer uma adaptação à chegada e à partida.
O que significa “saudade” para si?
Saudade. A saudade para mim é um sentimento que se traduz na consciência de estarmos vivos. Vivemos logo sentimos saudade. Das pessoas, das rotinas, das coisas que aconteceram e das que não aconteceram também. Do quotidiano português, fazem-me mais falta o mar, sem sombra de dúvida. Não sabia o quão conectado o mar estava com a minha identidade até deixar de fazer parte do meu dia-a-dia.
Pondera regressar de forma definitiva?
Sim pondero. Idealmente para regressar gostaria de encontrar uma oportunidade de trabalho que fosse estimulante, com um salário digno e localizada na zona onde vive a minha família. São três factores muito importantes, mas que sei que serão difíceis de alinhar, pelo que terei de decidir quais priorizar. Para já, acho que Portugal ainda não oferece condições para o meu regresso. Talvez num futuro próximo o investimento na área da conservação da natureza aumente, devido à pressão dos objetivos internacionais e europeus que têm vindo a ser estabelecidos.

Sente que mudou como pessoa depois de emigrar?
Sim, sem dúvida. Estar longe da família dos amigos, das rotinas que tinha levaram-me a reaprender a estar. O tempo livre que tinha quando vivia em Portugal, com a emigração, parece que se estendeu largamente. A ausência de estímulos externos rotineiros levou a que aprendesse a estar sozinha, descobrisse interesses e hobbies para preencher os meus dias, procurasse ativamente encontrar pessoas com as quais os meus valores e ideais se alinhassem. Estes três anos serviram para me construir pessoalmente e procurar viver um pouco mais fiel àquilo que sou e que quero ser. Foi uma oportunidade de reinvenção que me trouxe muitas coisas boas. Acho que se tivesse ficado em Portugal teria demorado mais tempo a chegar onde estou agora. Sair da redoma foi muito bom. Aprendi muito sobre mim neste desafio que é a emigração e fico contente por tê-lo feito.
Que valores portugueses leva consigo no dia a dia?
O valor da importância da esfera relacional (amigos, família). Diria também o do “bem acolher”, da hospitalidade.
Sente-se mais portuguesa, mais europeia ou já com uma identidade “mista”?
Sempre me senti com uma identidade “mista” mas é interessante que, durante este tempo tempo que estive emigrada, percebi que apesar dos meus esforços de me integrar em diversas culturas europeias e de gostar de o fazer, a cultura portuguesa acabava por estar enraizada dentro de mim e no fundo, trazia-me um consolo bom.
Vê uma nova “geração de emigrantes portugueses” diferente das anteriores?
Vejo uma geração mais informada acerca das motivações e desafios da emigração e também com mais ferramentas para enfrentar essa jornada. O leque de oportunidades disponível é mais abrangente e mais adaptável a diferentes objetivos e realidades. Acho que o panorama social e económico é diferente. Mas a razão que levou o meu avô a entrar num navio para emigrar para Angola aos 15 anos é fundamentalmente a mesma que me levou a emigrar. Procurar um futuro melhor.
Que imagem têm os belgas dos portugueses?
Penso que os portugueses são vistos como pessoas trabalhadoras e competentes. No entanto, por vezes a imagem estereotipada do emigrante português ainda perdura.
Se tivesse de enviar uma mensagem aos jovens que vivem e trabalham em Portugal, qual seria?
Merecem uma vida de trabalho digna, uma chance de construírem a carreira que sonharam. O meu principal conselho é: vão, tentem, arrisquem. Decidir ir, não é decidir não voltar.


