Tempestade Kristin

A recente tempestade voltou a expor uma fragilidade que já não é nova: Portugal não dispõe de mão de obra suficiente para responder, de forma célere e eficaz, às necessidades dos vários sectores da economia — e muito menos quando é confrontado com situações de catástrofe.
Nestes momentos, percebe-se que a equipa de burocratas da Proteção Civil faz o que pode com os meios disponíveis, nem o SIRESP conseguem pôr a funcionar. Quem verdadeiramente assegura a resposta no terreno são as câmaras municipais, os militares, as associações humanitárias de bombeiros, os escuteiros e inúmeros cidadãos anónimos. São estes que limpam ruas, desobstruem caminhos, distribuem alimentos e apoiam populações. Ainda assim, raramente é-lhes dado o reconhecimento ou a valorização estrutural que merecem. Talvez seja tempo de repensar a coordenação e reforçar o papel destas entidades na liderança operacional da resposta a emergências.
Perante a dimensão dos estragos, multiplicam-se os apelos às empresas portuguesas no estrangeiro, sobretudo da construção civil, para regressarem temporariamente e ajudarem na recuperação. A solidariedade dos portugueses é conhecida e seguramente haverá disponibilidade. Mas será sempre uma solução pontual. O país não oferece, hoje, condições suficientemente competitivas para um regresso prolongado.
Tomemos o exemplo de um trabalhador em França: regressar poderia significar uma redução significativa do rendimento disponível, fruto da diferença de enquadramento fiscal e contributivo, na ordem de 30%. A isto somam-se dificuldades práticas: acesso a creches, incerteza no funcionamento das escolas, casas caríssimas, pressão sobre os hospitais, tempos de resposta do INEM. Não basta boa vontade; é preciso previsibilidade e serviços públicos capazes.
O problema não se limita à reconstrução. As grandes obras públicas previstas exigem recursos humanos que simplesmente não existem em número suficiente. E mesmo que existissem, teríamos condições para acolher, com dignidade, dezenas ou centenas de milhares de trabalhadores e respetivas famílias? Faltam habitação acessível, infraestruturas, serviços públicos ágeis. Desde a pandemia, tratar de um assunto numa conservatória ou num serviço de finanças tornou-se, demasiadas vezes, um teste de paciência.
Atrair mão de obra é essencial. Mas fazê-lo sem planeamento pode agravar os problemas existentes. Não basta abrir portas; é necessário saber para que funções, em que número, com que integração linguística e cultural. Caso contrário, arriscamo-nos a criar desequilíbrios, frustração social e maior pressão sobre serviços já saturados.
Portugal não dispõe de recursos ilimitados. Por isso, o bom senso aconselha coordenação entre Governo, autarquias e empresas, definição clara de prioridades e criação prévia de condições de acolhimento. Reconstruir o país exige pessoas. Mas exige, sobretudo, organização.




