Elmano Sancho

Elmano Sancho é ator, encenador e autor, reconhecido pela singularidade do seu trabalho no teatro contemporâneo português. Formado pela Escola Superior de Teatro e Cinema e com estudos complementares em Madrid, São Paulo, Paris e Nova Iorque, desenvolveu uma prática marcada pela circulação entre línguas e culturas. Bilingue em português e francês, e fluente em espanhol e inglês, apresentou o seu trabalho em vários continentes. Foi distinguido pela Sociedade Portuguesa de Autores com os prémios de Melhor Ator e Melhor Texto Português Representado. Paralelamente ao trabalho em teatro, cinema e televisão, dirige a companhia Loup Solitaire, onde articula escrita, encenação e interpretação num projeto artístico autoral.

O que o motivou inicialmente a seguir o caminho da representação e quando percebeu que este seria o seu território natural?

O cinema foi o primeiro grande motor. Em adolescente, apaixonei-me profundamente pelo cinema europeu e por cinematografias vindas de outras partes do mundo — da Ásia à América Latina — que me mostraram outras formas de narrar, de pensar o corpo e a identidade. Por volta dos 12 ou 13 anos comecei a perceber que queria ser ator. Não como uma decisão programada, mas como uma intuição clara: aquele era o território onde podia articular pensamento, emoção e ação.

Ao longo da sua carreira, tem explorado múltiplas linguagens — teatro, cinema, performance. Como descreve hoje a sua identidade artística?

Vejo-me como um ator no sentido mais amplo do termo. Alguém que interpreta, mas que sente igualmente necessidade de escrever, encenar e pensar a criação como um todo. A minha identidade artística constrói-se nesse movimento constante entre linguagens e funções. Essa transversalidade tem sido moldada por um percurso internacional e por um contacto continuado com diferentes métodos, culturas e modos de criação, que me impediram — felizmente — de me fixar num único lugar estético.

A sua formação inclui experiências internacionais. De que forma esses contextos influenciaram a sua visão de criação e interpretação?

Confrontar-me com artistas que vivem noutros contextos, falam outras línguas e partilham inquietações semelhantes foi decisivo. Estudar e trabalhar em Madrid, São Paulo, Paris ou Nova Iorque ensinou-me que a criação artística nasce muitas vezes da fricção entre culturas. Interpretar em francês, inglês, espanhol ou italiano fez-me compreender que a linguagem cénica vai muito além da palavra: trata-se de escuta, ritmo e presença. O desafio é comunicar com o público com o mesmo grau de sensibilidade — ou tentar — independentemente da língua.

É frequentemente associado a projetos que desafiam convenções. O que o atrai nesse risco artístico?

A necessidade de me superar a cada novo projeto. O risco artístico mantém-me atento e vivo. Sempre que sinto que estou a repetir caminhos já percorridos, surge a urgência de mudar de direção. Não me interessa o risco enquanto gesto provocatório, mas enquanto espaço de transformação pessoal e artística.

O seu trabalho como encenador tem ganho destaque. Como equilibra o papel de ator com o de criador e diretor?

Não penso propriamente em equilíbrio. Quando enceno, o foco está em todos os aspetos da criação; quando sou intérprete, concentro-me essencialmente nessa função. O maior desafio surge na articulação de tudo isso com a direção artística de uma companhia de teatro. Essa responsabilidade — invisível para muitos — é talvez a mais exigente: implica resistência, visão a longo prazo e uma entrega constante.

O seu percurso tem sido marcado por uma forte componente autoral. Como nasce uma ideia que decide transformar em espetáculo?

Regra geral, tudo começa com uma imagem. Essa imagem convoca um tema, uma inquietação, uma pergunta. A partir daí inicia-se um período de leitura intensa, de investigação, de escuta. Só mais tarde surge a escrita, como tentativa de dar forma e estrutura a esse universo inicial. É um processo lento, mas necessário, onde a intuição e o pensamento caminham lado a lado.

Falemos dos seus projetos atuais: em que está a trabalhar neste momento e o que o entusiasma mais neles?

Neste momento, O Meu Super-Herói / Mon Super-Héros / بطلي الخارق ocupa um lugar central no meu percurso. Trata-se de um espetáculo profundamente ligado às questões da migração, da memória e da língua portuguesa enquanto território comum para quem vive em deslocação. Ao acompanhar a viagem de um homem que refaz o percurso migratório do pai, cruzando-a com a voz de uma mulher palestiniana, o espetáculo fala do exílio, do desenraizamento e da necessidade de pertença — temas que ressoam fortemente junto da comunidade lusa espalhada pelo mundo.
Paralelamente, A Mão do Senhor propõe um outro tipo de travessia: mais íntima, mais sombria, situada num espaço liminar entre a vida e a morte. É um trabalho onde a palavra, o silêncio e o corpo se confrontam num território quase ritual, interrogando aquilo que fica por dizer. Foi destacado pelo Jornal Público/Ípsilon como um dos melhores espetáculos de Teatro do ano 2025. Para o próximo ano preparo ainda uma reescrita de Don Juan, de Molière, a apresentar no Teatro Municipal São Luiz. Interessa-me questionar os estereótipos associados a esta figura mítica e pensar as noções contemporâneas de identidade, desejo e masculinidade. Em comum, estes projetos partilham uma preocupação central: a relação entre o indivíduo, a memória e o mundo em transformação.

O que procura provocar no espectador quando sobe ao palco ou apresenta um novo trabalho?

Procuro provocar no espectador a mesma inquietação que me levou a criar um determinado espetáculo. Um estado de atenção ativa, de desconforto produtivo, que não se resolve imediatamente e que continua a ecoar depois do fim da apresentação.

O que podemos esperar de Elmano Sancho nos próximos anos? Há sonhos ou projetos que ainda guarda na gaveta?

O que espero de mim mesmo. Continuar com determinação e coragem para permanecer um artista curioso, inquieto e singular. Há sempre ideias em suspenso, projetos em maturação, mas mais do que metas fechadas interessa-me manter a disponibilidade para o inesperado e para aquilo que ainda não sei nomear.

Uma mensagem para todos os autores, criadores e artistas do mundo.

“Trabalhar, trabalhar, trabalhar.”
Como nas Três Irmãs, de Tchekhov:
não como um gesto de resignação, mas como um ato de resistência e de fé no futuro.

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