Obra de Capa

Mona Lisa revisitada

… e o que ainda falta fazer, o que ainda é necessário acumular neste enlace de duas entidades, aparentemente tão estranhas, prende-se com a fecundação por multiplicação de uma nova entidade que surja como complemento ou elemento disruptor da cena em representação. No teatro que é a Mona Lisa, cabem os gestos de Leonardo, os incrementos estranhos do ovóide casimiriano, despoletando nesta mise en scène, ou seja, neste palco visual, uma estranha fertilização, reprodutora de uma nova ambiência conceptual na obra. Desta feita, o negro transmuta-se, ou melhor dizendo, desdobra-se na cor intensa do pélago (mar profundo) imenso, de uma tonalidade grave azulada, possibilitando uma relação assimétrica com o ponto negro original incrustado no regaço monalisiano. Que inquietante presença se trata aqui? De que ponto imponderável esta figuração se integrou na obra como mais uma força de transgressão?

Ou então, antes de a encararmos como transgressão, talvez devamos pormenorizar o carácter lúdico do ovóide azulado, definindo-o como um actor rancoroso, que sentindo-se desdenhado pelo protagonismo dado ao seu congénere primordial negro, decide prorromper na cara da Gioconda, como que afirmando – este espaço doravante é meu, como minha é a possibilidade de encobrir a beleza do seu rosto pela minha própria formatação geometrizante. Reparemos, contudo, que este actor que agora emerge em cena, tal a sua desenfreada necessidade de se automatizar como figura principal, desleixa-se ao ponto de se inscrever na obra não através de uma opacidade anuladora de qualquer resquício imagético (que se encontraria debaixo da sua figura), mas de uma estranha diafaneidade, pois na sua compactação colorista, deixa transparecer o rosto latente da Mona Lisa. Inabilidade ou jogos lúdicos de uma certa atenção provocadora de destituir do plano sério da representação, toda a seriedade comummente associada aos propósitos das belas-artes? Os dois ovóides são estratégias casimirianas de espelhar a duplicidade desequilibrada ao oferecer ao plano da imagem, novas existências desorganizadas do acto ilimitado da (re)criação.
Rodrigo Magalhães

O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico


Rodrigo Magalhães

Rodrigo Magalhães. Nasceu em 1993. Doutorado em História da Arte. Colaborador mensal no jornal  As Artes Entre As Letras, colaborador da ArteCapital. Participa em revistas e catálogos de Arte e exerce trabalho de curadoria. Os interesses de investigação ancoram-se na História da Arte, nomeadamente na análise e historiografia de tendências, movimentos e desenvolvimentos estéticos da arte contemporânea, desdobrando-se consequentemente numa ramificação com outras vertentes artísticas como a literatura, o cinema, a música, dando expressão à capacidade polivalente da arte no período contemporâneo.



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