Marco Neves

Professor Universitário, investigador na área das línguas e tradução

© Descendências/Tiago Araújo

Marco Neves divide os seus dias entre a sala de aula, os livros e a comunicação pública, sempre com a língua portuguesa no centro. Linguista e professor, tem-se dedicado a mostrar como a língua muda, circula e se adapta, ligando comunidades espalhadas pelo mundo e atravessando diferentes tempos, espaços e contextos. Nesta conversa, fala do futuro do português, questiona ideias feitas sobre normas e variedades e defende uma língua viva, construída na prática quotidiana da comunicação – entre pessoas, dentro e fora da universidade, muito para lá das fronteiras dos países de língua oficial portuguesa.

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É para nós um privilégio entrevistar um dos nossos, membro do Conselho Científico da Associação Internacional dos Lusodescendentes, e, sem dúvida, um dos maiores divulgadores da língua portuguesa na contemporaneidade. A sua carreira atravessa investigação académica, literatura, tradução profissional e comunicação de massas, tornando-o uma referência incontornável para todos aqueles que valorizam a língua e a cultura lusófona. Nós já o conhecemos, mas para quem nos está a ler, quem é Marco Neves enquanto indivíduo, para além das suas funções académicas, profissionais e mediáticas?

Costumo dizer que tenho várias profissões. Sei que as profissões não são tudo – nem sequer são o mais importante na vida de uma pessoa -, mas sou professor, tradutor e revisor e, neste momento, faço também divulgação científica na área da língua, através da rádio, da televisão e das redes sociais. No fundo, porém, acima de tudo, gosto de comunicar e de conversar. Tenho dois filhos, o Simão e o Matias, e a Zélia, que é a minha mulher. Essa dimensão familiar, feita de conversas, de descoberta do mundo, das viagens e do quotidiano partilhado, é, no essencial, a parte principal do que posso dizer sobre mim.

Nos seus vídeos, costuma analisar palavras, explorando a sua origem, evolução e significado. Se aplicarmos essa mesma atenção ao seu próprio nome, “Marco”, que significado tem e de que forma sente que ele refletiu a sua trajetória pessoal e profissional, a sua relação com a língua e com a comunicação, e a forma como constrói pontes culturais?

O nome não somos nós que o escolhemos. Muitas vezes existe a ideia de que o nome é o destino e, de certa forma, isso acaba por ser verdade, porque ficamos marcados pelo nome que temos e porque a imagem que os outros constroem de nós também passa, em parte, por ele. Mas não é só isso. No meu caso, o nome está, na sua origem, ligado ao deus romano da guerra. Não sou, particularmente, uma pessoa conflituosa ou guerreira e, nesse sentido, afasto-me bastante do significado original do nome. Ainda assim, trata-se de um nome que percorreu várias línguas e que foi mudando de forma ao longo do tempo. É um nome português há muitos séculos, mas existiu também a forma “Marcos”, que foi, durante muito tempo, muito mais comum. Só no final do século XX, penso eu que por influência italiana, o “Marco” voltou a tornar-se frequente. Por essa razão, sendo um nome que reflete a variedade e a circulação da língua, acaba por ter alguma relação comigo, porque gosto precisamente de explorar essas ligações entre línguas diferentes. Os nomes próprios em português têm uma característica que não se verifica em todas as línguas. Não conheço muitas línguas, pelo menos das mais próximas de nós, em que isto aconteça da mesma forma. Na origem, os nomes próprios eram nomes comuns que os pais atribuíam aos filhos. A partir desses nomes comuns é que surgiram os nomes próprios. Hoje, porém, nas nossas línguas, os nomes próprios são quase apenas um conjunto de sons de que gostamos e que escolhemos para os nossos filhos. Depois, as associações que fazemos aos nomes têm muito mais a ver com as pessoas concretas que conhecemos e que partilham esse nome do que, por exemplo, com a sua origem mitológica ou etimológica, como o deus da guerra.

© Descendências/Tiago Araújo
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A sua carreira atravessa investigação académica, literatura, tradução profissional e comunicação. Existe alguma dimensão que considera mais central para a sua missão?

Escrevo muitos livros, falo com frequência em público e dou aulas. Já me perguntaram várias vezes, inclusive alunos, se tivesse de escolher apenas uma destas atividades, qual escolheria. Não é uma pergunta fácil e, na verdade, a resposta pode ir mudando ao longo da vida. A resposta que costumo dar, e que continuo a manter, é dar aulas. É aquilo de que mais gosto. Gosto muito de comunicar, mas as aulas também são comunicação e têm algo de muito particular: permitem estar com as pessoas, vê-las, perceber as reações e construir esse diálogo de forma direta.

Diante de uma trajetória tão multifacetada, como sente que cada uma dessas dimensões (académico, autor, tradutor, comunicador e criador de conteúdos digitais) moldou a sua visão sobre a língua portuguesa, a sua evolução histórica e cultural, e o papel que a língua desempenha na construção de pontes culturais, na preservação da identidade lusófona e na promoção do conhecimento junto de públicos diversos?

Nos últimos anos, tenho criado vários vídeos e programas que chegam não só a Portugal, mas também a outros países. É difícil explicar isto, mas quando comunicamos na internet acabamos muitas vezes por lidar com um mundo que pode ser mais agressivo do que a vida fora do espaço digital. A distância faz com que algumas pessoas comentem de forma mais dura, e isso pode criar a sensação de que tudo é muito conflituoso, de que qualquer coisa que se diga implica sempre o risco de gerar problemas. No entanto, se alguém me tivesse dito, há três anos, quando comecei a comunicar mais diretamente para o público, que seria possível falar destes temas, chegar a tantas pessoas e manter conversas serenas com falantes de diferentes países de língua portuguesa, provavelmente teria sido mais pessimista do que sou hoje. Apesar do ruído e do “borbulhar” de comentários que existe de todos os lados, isso acaba por ser muito pouco quando comparado com a forma como as pessoas, na prática, conseguem comunicar através da mesma língua, mesmo com todas as diferenças que ela apresenta entre países. Além disso, tenho encontrado pessoas que não são portuguesas, brasileiras, angolanas ou de outros países lusófonos, mas que estão a aprender português e demonstram um interesse muito genuíno pela nossa língua. Isso foi uma grande surpresa para mim. Quando faço vídeos ou programas, ao contrário do que acontece em muitos conteúdos criados especificamente para o ensino do português, não tento ensinar a língua, mas falar sobre o português, partindo do princípio de que quem me ouve já fala a língua. Perceber que, mesmo assim, esse conteúdo chega a pessoas que estão a aprendê-la e que se sentem interessadas foi algo que me marcou bastante. Tudo isto acabou por me dar uma visão mais positiva sobre a forma como a língua portuguesa liga não só quem já a fala, mas também quem ainda está a descobri-la.

Costuma dizer que exerce sete ofícios ligados às palavras: tradutor, revisor, professor, leitor, conversador, autor e pai-contador de histórias. Qual destes considera mais central para o seu impacto junto do público? Como concilia funções técnicas, criativas e pedagógicas sem perder identidade em cada papel?

Quem trabalha na área académica tem, naturalmente, de dar aulas, que é aquilo de que mais gosto, mas também de fazer investigação, ou seja, criar conhecimento que não existia antes. Há ainda um outro papel muito importante no meio académico que, por vezes, é esquecido e que até gera alguma tensão dentro da universidade: a divulgação do conhecimento que já existe. Não basta produzir saber; é fundamental que esse conhecimento chegue à sociedade. No meu caso, isso acontece sobretudo na área da língua portuguesa e das línguas em geral. No entanto, nem sempre é fácil conciliar tudo: dar aulas, investigar, criar novo conhecimento e, ao mesmo tempo, divulgá-lo de forma acessível. Ainda assim, estou convencido de que, mesmo quando criamos conhecimento novo, se ele ficar fechado numa sala, numa biblioteca ou apenas num artigo académico que, apesar de estar disponível online, quase ninguém lê, o seu valor é muito menor do que se conseguir chegar a mais pessoas e à sociedade em geral. É por isso que tento encontrar um equilíbrio, percebendo aquilo que faço melhor e procurando integrar essa capacidade nas diferentes coisas que vou desenvolvendo. No meio de tudo isto, há um eixo que é verdadeiramente central: a vida familiar. Conciliar tudo não é fácil, e isso não me torna especial; todos nós lidamos com essas dificuldades. Em determinados momentos, é necessário estabelecer prioridades, perceber o que é realmente mais importante e aceitar deixar cair aquilo que não é essencial.

Enquanto docente e investigador no CETAPS, tem acompanhado gerações de tradutores num contexto marcado pela globalização, pelo contacto com múltiplas culturas e pelo desenvolvimento de tecnologias digitais, incluindo inteligência artificial e ferramentas de tradução automática. Quais considera serem os maiores desafios para a formação de tradutores hoje, não apenas em termos de competências técnicas, mas também de sensibilidade cultural, ética profissional e capacidade crítica? De que forma equilibra a necessidade de preparar os alunos para um mercado de trabalho altamente tecnológico com a preservação do rigor linguístico, da criatividade e do entendimento profundo das nuances da língua portuguesa e das línguas estrangeiras?

Quando se pensa na profissão de tradutor, quem não trabalha na área tende a ter uma imagem bastante limitada. Normalmente, imagina-se o legendador que faz legendas para a televisão ou o tradutor literário. No entanto, os tradutores são um grupo muito diverso, que intervém em áreas extremamente variadas e, muitas vezes, inesperadas. Mesmo os alunos que iniciam um curso de tradução nem sempre têm consciência da amplitude de campos em que um tradutor pode trabalhar. Basta pensar que é difícil imaginar uma empresa ou um setor que, mais cedo ou mais tarde, não necessite de tradução. Além disso, existem atividades que não são, à partida, entendidas como tradução, mas que são frequentemente desempenhadas por tradutores. Um exemplo particularmente interessante é a audiodescrição. Nos filmes, no teatro ou noutras produções culturais acessíveis a pessoas cegas, há alguém que descreve aquilo que está a acontecer em cena, traduzindo a imagem para palavras. No teatro, por exemplo, antes da peça começar, os espectadores são convidados a subir ao palco, a tocar nos objetos e a perceber o espaço. Depois, durante o espetáculo, tudo o que acontece é descrito verbalmente. É uma forma de mediação linguística e sensorial extremamente rica e reveladora do verdadeiro alcance da tradução. Existem muitos outros contextos semelhantes, como situações de conflito, serviços públicos ou hospitais, onde os tradutores desempenham um papel essencial. Tudo isto ajuda a perceber que a tradução não se resume a passar palavras de uma língua para outra. Essa dimensão mais técnica pode, em parte, ser apoiada por ferramentas de tradução automática ou por inteligência artificial, embora ainda não seja totalmente substituível. Mas, mesmo que viesse a ser, há uma faceta fundamental da tradução que nunca desaparecerá: o contacto humano e a mediação entre pessoas, culturas e contextos. Não é uma ferramenta automática que vai permitir que alguém assista a uma peça de teatro através da audiodescrição. Por isso, os alunos precisam de desenvolver não só competências técnicas e linguísticas, mas também essa dimensão humana. Nem sempre é um processo simples, mas passa muito por os ajudar a descobrir o vasto leque de possibilidades que a profissão oferece. Ao longo do curso de tradução, acabam por se tornar mais abertos e conscientes da diversidade de caminhos que podem seguir no futuro, alguns mais próximos do papel tradicional do tradutor, outros bastante diferentes.

A fundação da Eurologos Portugal, em 2006, representou um marco na sua carreira, consolidando-o como empreendedor na área da tradução profissional. Que aprendizagens retirou dessa experiência sobre o mercado de tradução em Portugal e internacionalmente, sobre gestão de equipas de linguistas e sobre a exigência de conciliar rigor técnico com criatividade e sensibilidade linguística?

O que posso dizer é que, independentemente de ser uma empresa de tradução criada por mim e por colegas meus, a Eurologos Portugal começou por ser uma pequena empresa. E isso foi, desde logo, uma grande descoberta. Quando alguém decide criar uma pequena empresa, em qualquer área, depara-se com um conjunto de realidades que, para quem nunca passou por essa experiência, são totalmente novas. De repente, é preciso lidar com clientes, com contabilidade, com questões financeiras e fiscais, e isso revela um certo desfasamento entre a perceção do mundo real dentro da universidade e aquilo que efetivamente existe fora dela. Por outro lado, também é verdade que, nas empresas, nem sempre se tem uma noção clara do que acontece nas universidades. Eu sinto muitas vezes que vivo entre dois mundos. Nesse processo, até tarefas aparentemente simples, como lidar com contabilidade, tornam-se descobertas importantes. Pode parecer algo muito técnico ou seco, mas não é. Acaba por ser, de certa forma, mais um exercício de tradução. Lembro-me bem de que, em 2006, as primeiras conversas com a nossa contabilista eram quase um exercício de mediação linguística, entre uma terminologia que desconhecíamos por completo e que ninguém nos tinha ensinado, e que tivemos de aprender naquele momento. Essa experiência deu-me também uma maior compreensão das dificuldades reais que muitas empresas enfrentam. Muitas vezes, quem define as regras – que são necessárias e têm uma função essencial para o funcionamento da sociedade – não tem plena consciência da complexidade que é cumpri-las fora de determinados contextos. Criámos a empresa em Lisboa, com acesso a muitos recursos e a pessoas a quem podíamos pedir ajuda, e mesmo assim tivemos de lidar com questões bastante complexas. Um exemplo muito concreto, sobre o qual cheguei a escrever um artigo académico, foi o problema da dupla tributação. Como trabalhávamos com muitos tradutores de outros países, era necessário, por exemplo, obter números de contribuinte portugueses para profissionais que nunca tinham estado em Portugal, apenas para podermos cumprir os modelos fiscais exigidos. Muitas vezes pensava que, se nós, com todo o acesso a informação, conhecimento e apoio, tínhamos tanta dificuldade em resolver estas questões, como seria para uma empresa situada longe dos grandes centros ou sem essa rede de apoio. No fundo, foi uma aprendizagem em tempo real sobre a complexidade e as exigências de criar e manter uma empresa.

© Descendências/Tiago Araújo
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O seu livro “História do Português desde o Big Bang” procura mapear a evolução da língua desde os primórdios até à contemporaneidade, envolvendo questões de etimologia, sociolinguística, história e cultura. Que desafios encontrou ao traduzir conceitos complexos da evolução da língua para uma narrativa clara, envolvente e pedagógica, que fosse simultaneamente académica e cativante para o público geral?

O desafio começa logo aí. O livro “História do Português desde o Big Bang” nasce, antes de mais, de uma espécie de brincadeira. A ideia era que o próprio título ajudasse a perceber como é difícil marcar o início de uma língua. Afinal, quando é que uma língua começa? Pensamos muitas vezes que começa quando alguém lhe dá um nome, mas quando alguém lhe dá um nome é porque já havia pessoas a falá-la. Caso contrário, nem sequer teria sido possível nomeá-la. No caso do português, esse nome só surge muito tardiamente, já no século XV, por volta de 1430. Nessa altura, a língua já existia há muitos séculos. Já havia poesia escrita naquilo que hoje chamamos português. A língua não foi inventada numa mesa, como se alguém tivesse decidido criar uma língua para começar a escrever. Pelo contrário, quando alguém escreve, a língua já tem de existir. O português resulta de uma transição gradual a partir do latim, misturado com tudo o que estava à volta: línguas que já existiam antes, como as línguas celtas, outras que chegaram depois, como o árabe, entre muitas outras influências. Tudo isso foi, lentamente, dando origem a uma língua falada pelas pessoas e, só mais tarde, escrita. Não há, portanto, um momento exato em que se possa dizer “a língua nasceu aqui”. Costumo explorar esta ideia quando vou a escolas e coloco a seguinte pergunta: no momento em que D. Afonso Henriques se proclama rei de Portugal, que língua é que as pessoas falavam na rua? As pessoas ficam a pensar e acabam por concluir que já não era latim, mas também não se podia chamar propriamente português, porque a língua ainda estava em formação. Ou seja, não existe um dia específico em que tudo muda. Isto acontece com o português e com todas as outras línguas, incluindo as suas variedades. Não há um dia em que se cria o português do Brasil ou o português de Angola. Trata-se sempre de um processo muito gradual, em que uma comunidade, num determinado lugar, vai alterando a sua forma de falar ao longo do tempo. E esse processo é mais lento do que muitas vezes imaginamos. Costumamos reparar sobretudo nas mudanças e, por isso, temos a sensação de que a língua está sempre a mudar rapidamente. No entanto, se pegarmos, por exemplo, num poema do século XIII, ainda conseguimos compreender alguma coisa, mesmo que não tudo. Isso mostra como estas transformações acontecem de forma muito mais lenta do que parece. O desafio do livro foi, então, partir dessa brincadeira inicial e transformá-la numa reflexão mais séria. Quis também mostrar a evolução de certas palavras que usamos para falar do universo e da ciência, como “Big Bang”, que é uma expressão inglesa que importámos para o português, ou palavras como “célula” e “vírus”. No fundo, a ideia foi ligar a língua portuguesa às outras ciências e mostrar que, sem a língua, também não conseguimos comunicar o conhecimento científico. A língua está sempre presente, mesmo quando falamos das coisas mais distantes, como o próprio universo.

Ao compilar o “Atlas Histórico da Escrita”, reuniu informação sobre diferentes sistemas de escrita, cronologias históricas e transformações culturais associadas à linguagem escrita. Quais foram as descobertas mais inesperadas ou fascinantes durante este processo, e de que forma estas o levaram a refletir sobre a relação entre escrita, identidade cultural e transmissão de conhecimento ao longo dos séculos?

Um dos factos mais extraordinários que descobri foi perceber que a escrita surge, tanto quanto sabemos, há cerca de cinco mil anos, primeiro na Suméria e depois, pelo menos, em mais três lugares distintos. Cinco mil anos parecem muito, mas na verdade são quase nada quando comparados com a história da humanidade e, sobretudo, com a história da linguagem. Sabemos que as línguas humanas existem há, pelo menos, cinquenta mil anos, e provavelmente há muito mais tempo. Não conheço nenhum linguista que defenda que a linguagem humana seja tão recente quanto isso. Basta pensar, por exemplo, em ilhas que foram povoadas, especialmente na Ásia. É praticamente impossível imaginar comunidades de algumas centenas de pessoas a construir barcos e a organizar viagens marítimas sem uma linguagem suficientemente desenvolvida para permitir coordenação, planeamento e transmissão de conhecimento. Isso mostra que a linguagem humana já existia há, no mínimo, cinquenta mil anos. A escrita, em comparação, surge apenas há cinco mil, o que corresponde a cerca de dez por cento desse tempo. Isso significa que há todo um mundo anterior à escrita que desconhecemos por completo. Um universo de línguas, histórias, culturas e narrativas que se perderam sem deixar rasto. Temos, de certa forma, a história das línguas, mas é como se conseguíssemos vê-la apenas a partir do meio. Tudo o que veio antes permanece, em grande parte, invisível, e isso é profundamente fascinante. Uma das descobertas que mais me marcou está relacionada com um sistema de escrita encontrado na Ilha da Páscoa, o Rapa Nui. Trata-se de um sistema gravado em folhas de árvore. Foi identificado no século XIX, mas, nessa altura, já estava praticamente em desuso e não se conseguiu encontrar ninguém que soubesse explicar o que estava ali escrito. Até hoje, ninguém sabe o conteúdo desses textos. O que torna este sistema particularmente fascinante é a ideia de que podem ter existido muitos outros sistemas de escrita ainda mais antigos, mas que simplesmente desapareceram porque foram registados em materiais degradáveis. Este caso pode ser apenas um sinal de que, sobretudo em regiões próximas do Equador, terão existido diversos sistemas de escrita que nunca chegámos a conhecer. Curiosamente, os sistemas de escrita que conhecemos pertencem, em grande parte, a regiões mais frias, onde os materiais utilizados eram mais duráveis. É por isso que conhecemos a escrita da Suméria, do Egito, da China ou de certas zonas da América Central. As condições climáticas ajudaram a preservar esses registos. Tudo isto reforça a ideia de que existe uma enorme parte da história da escrita, da linguagem e das culturas humanas que simplesmente se perdeu, sem possibilidade de recuperação.

Enquanto autor de obras que cruzam história, gramática e curiosidades linguísticas, como observa a relação entre criatividade literária e precisão linguística? Que desafios sente que os escritores contemporâneos enfrentam ao tentar inovar na língua portuguesa sem comprometer clareza, riqueza vocabular ou musicalidade?

Os escritores, em geral, não precisam de criar palavras novas constantemente. Alguns fazem-no com muita frequência, como é o caso do Mia Couto, que é famoso por inventar palavras em quase todas as frases. Mas, de forma geral, o que os escritores fazem é pegar no material que já foi criado pela comunidade de falantes, que é, por si só, extremamente criativa. A língua está em constante evolução: estamos sempre a inventar palavras e expressões novas, muitas desaparecem, mas algumas permanecem e acabam por integrar-se lentamente no vocabulário. A língua não muda tanto na sua gramática, mas surgem sempre novas palavras que os escritores podem usar como matéria-prima, tal como um pintor utiliza as suas tintas. O pintor não precisa de criar as cores, apenas combiná-las e utilizá-las de forma criativa. Da mesma forma, os escritores não têm de inventar palavras constantemente; o desafio está em como misturam e organizam esse material para criar algo novo. Por vezes, alguns escritores quebram deliberadamente as regras para produzir efeitos inovadores. Há uma diferença fundamental entre não respeitar as regras por desconhecimento e fazê-lo conscientemente para criar algo novo. No primeiro caso, trata-se de falta de domínio; no segundo, de criatividade intencional. Por isso, não me incomoda quando os escritores desafiam a norma, desde que seja de forma consciente e intencional, procurando um efeito específico no leitor. Quando a ausência de regras é apenas descuido ou preguiça, aí sim há um problema. Felizmente, a maioria dos escritores publicados conhece bem as regras e utiliza-as como ferramenta de criação. Na verdade, a própria existência de regras oferece aos escritores a liberdade de inovar, porque podem demonstrar domínio e, ao mesmo tempo, distanciar-se das normas para efeitos estilísticos. Um exemplo muito conhecido é José Saramago. Muitas pessoas têm a ideia de que ele não usa vírgulas, mas, na realidade, usa-as abundantemente, muitas vezes onde outros colocariam dois pontos ou travessões. Mais além, António Lobo Antunes leva essa liberdade ainda mais longe, construindo capítulos que, por vezes, consistem numa única frase estendida por várias páginas. É curioso que se fale tanto de Saramago, quando Lobo Antunes explora a pontuação e a estrutura narrativa de forma ainda mais radical. A literatura é, no fundo, a utilização do material linguístico conforme a vontade do escritor, e os leitores podem aceitá-lo ou não. Apontar erros gramaticais na escrita literária nem sempre é útil, porque muitas vezes a forma como se escreve representa a fala de uma personagem ou pretende reproduzir um efeito estilístico. Além disso, o que consideramos erro ou norma muda com o tempo. A escrita do Eça de Queirós ou do Camilo Castelo Branco, por exemplo, pode parecer incorreta hoje, mas refletia as normas da época. Limitar-se a apontar supostos erros é, portanto, reduzir a riqueza e a dinâmica da língua.

No programa “Português Suave”, consegue conjugar informação rigorosa, curiosidades históricas e humor de forma a envolver milhares de ouvintes. Como aborda o desafio de tornar conteúdos académicos ou complexos acessíveis e divertidos ao mesmo tempo, sem perder precisão científica ou profundidade pedagógica?

Nesse caso, conto com a ajuda do João, que apresenta o programa comigo e é locutor na Rádio Observador. Isso transforma o programa num verdadeiro diálogo, enriquecido também pela participação dos ouvintes, que enviam pedidos e, por vezes, até sugestões de correção. Essa interação cria uma dinâmica muito interessante, permitindo conciliar a divulgação da língua portuguesa com o rigor necessário.

Ao receber convidados como Ricardo Araújo Pereira e outras personalidades, cruza linguística, humor e cultura de forma única. Que aprendizagens destacaria desses encontros em termos de comunicação, criatividade e pedagogia? Como essas experiências influenciam a sua forma de transmitir conhecimento e a maneira como equilibra rigor académico com empatia e carisma perante diferentes públicos?

No caso do Ricardo Araújo Pereira foi especialmente curioso. Ele tinha sido convidado para ir ao “Português Suave”, mas acabou por ser entrevistado, e eu tive de assumir a função de entrevistador. Foi uma experiência diferente, porque não é algo a que esteja habituado. Ao mesmo tempo, permitiu perceber algo que eu já suspeitava – e que todos notamos ao ouvir o Ricardo Araújo Pereira -, ou seja, que a língua portuguesa é uma das suas grandes paixões. Ele reflete profundamente sobre a língua e sobre como ela pode ser utilizada, especialmente no humor, mas não só. Naquele episódio, ficou claro que ele não é muito diferente da imagem que temos dele à distância. No “Português Suave”, o meu objetivo é precisamente trazer pessoas para conversar, porque gosto muito de diálogo e de explorar a língua portuguesa através dessas conversas.

Com milhões de visualizações nas redes sociais, como transforma temas complexos, como etimologia, fonética, sintaxe ou história da língua, em conteúdos curtos, pedagógicos e envolventes? Que critérios utiliza para manter rigor académico e relevância pública, e de que forma avalia o impacto educativo destas iniciativas junto de públicos de diferentes idades e formações?

A experiência de criar muitos vídeos curtos permite perceber o que funciona e o que não funciona. É uma questão de equilíbrio: há temas que o público quer explorar, mas também há assuntos que eu gostaria que despertassem interesse. Ao longo destes anos, aprendi a abordar determinados temas de forma a estimular a interação das pessoas, sem nunca fugir ao que considero importante partilhar. É, portanto, um equilíbrio entre aquilo que as pessoas querem ouvir e aquilo que eu gostaria que elas quisessem ouvir. Essa experiência funciona também como uma espécie de prova pedagógica: como transformar informação ou conhecimento em conteúdos que as pessoas queiram acompanhar? É, ao mesmo tempo, um desafio criativo. É curioso perceber que as discussões sobre língua atraem atenção e isso dá-me muito prazer. Além disso, ao visitar escolas, verifico que muitos professores utilizam os meus vídeos para ajudar os alunos a compreender determinados temas. Não era esse o objetivo inicial, mas é muito gratificante perceber que há esse impacto real na aprendizagem.

Como a comunicação digital e globalizada alterou a forma de ensinar, divulgar e valorizar a língua portuguesa? Que competências se tornaram essenciais para manter rigor, clareza e interesse num contexto de atenção fragmentada e alcance internacional?

A atenção fragmentada faz parte da nossa vida atualmente. Diante disso, podia ter optado por não participar em nada deste mundo digital, ou podia escolher envolver-me, tentando usar os métodos e meios que existem hoje. Foi esta a opção que tomei, embora não tenha sido planeada. Comecei a fazer vídeos quase por brincadeira, e só passado alguns meses percebi que as pessoas estavam a reagir e a comentar sobre conteúdos que inicialmente criei de forma descontraída. Foi aí que tudo começou a ganhar forma. Já tinha escrito vários livros sobre a língua portuguesa e notei que eles próprios estavam a chegar a um público mais amplo, especialmente quando a editora me começou a telefonar a dizer que as vendas estavam a aumentar. Uma coisa acabou por levar à outra. Portanto, muitas vezes, a forma de lidar com a atenção fragmentada é justamente aproveitar essa própria fragmentação para conduzir as pessoas a conteúdos mais longos, que exigem mais tempo e reflexão.

A língua portuguesa é hoje falada em continentes distintos, com variações regionais, culturais e históricas que moldam a identidade de milhões de falantes. Na sua perspetiva, quais são os desafios e oportunidades mais significativos que a lusofonia enfrenta atualmente em termos de preservação, difusão e valorização cultural?

Sim, nós temos uma língua internacional complexa. Complexa, não porque seja difícil, mas porque apresenta algumas tensões que se tornam evidentes quando discutimos estas questões. Durante muito tempo, estivemos habituados a pensar na língua portuguesa como tendo apenas dois polos: o português de Portugal e o português do Brasil. O que distingue o português de outras línguas internacionais é que, neste caso, um dos países tem uma dimensão tão grande que todos os outros juntos não chegam à metade da população do Brasil. Isso gera certas dificuldades de comunicação. Portugal, por vezes, sente algum receio; o Brasil, por sua vez, é tão grande que acaba por ser relativamente indiferente ao que acontece nos outros países. Mas muitas vezes esquecemos que já não estamos numa situação em que a língua se reduz apenas a Portugal e Brasil. Existem hoje muitos outros países lusófonos, e alguns estão a crescer demograficamente a grande velocidade. É possível que, dentro de algumas décadas, o continente onde a língua portuguesa seja mais falada seja África, devido ao crescimento de Angola e Moçambique. Isso traz-me algum otimismo, porque talvez possamos passar a ter uma comunidade lusófona mais equilibrada. Atualmente, há muita discussão entre Portugal e Brasil sobre a língua. Se conseguirmos adotar uma visão de tripé – com um pé em África, outro na Europa e outro na América, e ainda alguma presença na Ásia -, talvez seja possível comunicar com mais serenidade. É importante também deixar de lado certas ideias que existem em Portugal. Há quem ainda pense que somos os “donos” da língua, simplesmente porque lhe demos o nome. Mas, na verdade, a língua já existia antes. Além disso, nas últimas décadas, Portugal tem estado muito exposto ao português do Brasil – pelas telenovelas, agora pelo YouTube – e a percepção que se cria é de desequilíbrio: recebemos muito do Brasil, mas o que fazemos cá não chega lá. Estamos num momento em que esse equilíbrio ainda não existe, mas as redes sociais criaram canais de comunicação que antes não havia. Hoje já não é tão estranho, no Brasil, ouvir um português a falar, como acontecia há algumas décadas. Essa possibilidade de comunicação ajuda a manter a língua unida. Claro que existe uma corrente minoritária que acredita que o português de Portugal e o português do Brasil vão acabar por se separar e tornar-se duas línguas diferentes. Eu, no entanto, acredito que, com mais comunicação e intercâmbio, não chegaremos a esse ponto. Estou convicto de que não veremos brasileiros a dizer que falam “brasileiro” e nós “lusitano” ou “português”. A língua portuguesa continuará a existir como uma língua única, com muita variedade – e essa variedade não vai desaparecer.

A língua portuguesa convive com outras línguas globais e regionais, influenciando-se mutuamente. Que desafios e oportunidades surgem quando o português é confrontado com línguas de maior difusão global, como inglês ou espanhol, ou com línguas locais em territórios lusófonos?

No caso das línguas locais, o português não está em confronto e não corre perigo por causa dessas línguas. Pelo contrário, o português continua a crescer em todos os países lusófonos. O único país onde a língua nacional é claramente mais falada do que o português é Cabo Verde. Lá, o crioulo é a língua da população. E não há necessidade de escolher entre uma ou outra: podem conviver ambas. Espero que continue assim. Não faz sentido exigir que os cabo-verdianos tenham o português como língua materna – eles nunca tiveram; o crioulo sempre foi a língua principal, e o português foi escolhido como língua oficial. Por isso, o português não está em perigo. Pelo contrário, a sua presença em Cabo Verde mantém-se. Aliás, proteger o crioulo pode ser benéfico para o “equilíbrio do português” no país, porque impede que se crie a sensação de ameaça à língua internacional. Sabemos que, em geral, uma língua internacional com muitos falantes pressiona as línguas locais. Por exemplo, em Espanha, as línguas regionais têm proteção institucional há 40 anos, mas continuam a ser faladas cada vez menos. Normalmente, a língua dominante é aquela que tem mais poder – neste caso, uma língua internacional. Em Angola e Moçambique, observa-se algo curioso: as línguas nacionais estão a ser protegidas, mas o português, especialmente em Angola, nunca foi tão falado como hoje. Ou seja, é perfeitamente possível proteger as línguas locais e, ao mesmo tempo, expandir uma língua internacional escolhida voluntariamente pela sociedade. Já em relação ao inglês, a situação é diferente. O português encontra-se numa posição menos confortável, porque o inglês é cada vez mais a língua de prestígio na ciência, no audiovisual e noutras áreas. A entrada de palavras estrangeiras no português não é, por si só, problemática – isso sempre aconteceu e vai continuar a acontecer. Nenhuma língua, exceto talvez uma isolada numa ilha inabitada, está imune a influências externas. O que preocupa é que o inglês já não está apenas a fornecer palavras: em algumas áreas específicas da comunicação, está a substituir expressões e conceitos do português. Isso é algo que não acontecia há algumas décadas e é por isso que aqui sinto-me um pouco mais pessimista. A língua portuguesa continua forte, mas a pressão do inglês é uma realidade que exige atenção.

Qual considera ser o papel das políticas públicas, instituições culturais e organismos internacionais na preservação, promoção e valorização da língua portuguesa, num contexto globalizado e multicultural? Que ações concretas julga mais eficazes para assegurar a sobrevivência e expansão do português em diferentes territórios e gerações?

Existem várias abordagens possíveis. Uma delas é aquela que, muitas vezes, as pessoas tentam usar rapidamente, que é “à francesa”. A ideia é: vamos criar uma academia, tem de ser francês, é obrigatório – e, normalmente, não funciona. Além disso, muitos eventos em França são, em parte, em inglês, o que também mostra as limitações deste modelo. Outra abordagem, talvez mais produtiva, é criar condições e incentivos para que a língua portuguesa seja usada de forma científica e académica. Por exemplo, organizar congressos onde se use o português, não porque seja obrigatório na sociedade em geral, mas porque o próprio evento exige que certas discussões se realizem na nossa língua. Temos a ideia de que França é um país linguisticamente muito centralizado. É verdade, mas não é só porque existe uma academia francesa que dita como as pessoas devem falar. O francês ganhou prestígio histórico, claro, e em certos momentos o governo impôs a sua utilização em detrimento de outras línguas, mas sobretudo como incentivo à criação literária e académica. Da mesma forma, precisamos criar condições para que as pessoas possam produzir conhecimento em português, com incentivos para que a língua seja usada e valorizada, e depois, se for necessário, permitir a passagem para outras línguas. É uma questão de criar oportunidades e não apenas de impor regras.

Enquanto membro do Conselho Científico da Associação Internacional dos Lusodescendentes, como vê o papel da Associação na promoção e valorização da língua portuguesa junto das comunidades lusodescendentes?

De facto, existem muitas atividades promovidas ou apoiadas pela Associação para incentivar o uso da língua portuguesa junto dos lusodescendentes. Acredito que ninguém precisa de perder a sua língua para aprender a língua do país onde vive. Pelo contrário, quem mantém o português na sua vida só tem a ganhar, embora nem sempre seja fácil perceber isso. Recentemente estive em França, num evento com a participação da Associação, onde foram apresentadas várias iniciativas em Paris que permitem à comunidade portuguesa manter a língua portuguesa presente no seu dia a dia.

Nos seus vídeos e livros, partilha frequentemente curiosidades fascinantes sobre a língua portuguesa, etimologias surpreendentes e fenómenos pouco conhecidos. Existe alguma descoberta recente, seja histórica, contemporânea ou etimológica, que gostaria de partilhar como um “segredo” ou surpresa para os leitores da Descendências Magazine?

Não é algo recente, mas diria que os nomes próprios são sempre fascinantes. Uma curiosidade interessante é o nome “Tiago”, que é o nome de um dos meus irmãos. O percurso do nome “Tiago” é bastante curioso e mostra como, muitas vezes, os falantes não seguem regras pré-estabelecidas. Os nomes próprios foram criados numa época em que praticamente ninguém sabia escrever. O nome “Tiago” vem de um nome latino, que por sua vez tinha origem num nome hebraico, sendo portanto um nome bíblico. O nome latino era “Jacobus”, o qual pertencia a um dos apóstolos e acabou por se tornar especialmente importante na Galiza. O que aconteceu depois foi que “Jacobus” passou a “Iago”. Pelo menos, este seria o desenvolvimento natural em português, não fosse um “acidente” pelo caminho: o “Sanctus Jacobus”, em latim, transformou-se em “Santo Iago”. Os falantes, na sua interpretação, passaram a entender que o nome correto seria “São Tiago” e não “Santo Iago”. Esse “Ti” inicial acabou por surgir como um fragmento da palavra “Santo”, tornando o nome mais sonoro e agradável. Acho este detalhe particularmente curioso.

Ao longo da sua carreira, tem explorado não apenas a língua e a literatura, mas também a história, a cultura, a pedagogia e a comunicação de massas. Que hábitos, leituras ou práticas considera essenciais para continuar a alimentar a sua curiosidade, manter-se atualizado e gerar novas ideias para os seus projetos?

Leio bastante sobre assuntos variados, não apenas sobre temas de que gosto. Costumo dizer aos meus alunos que, se passassem três anos a ler revistas de diferentes áreas e a conversar com pessoas de contextos diversos, iam aprender imenso – e que deviam fazer isso. Conversar também é muito importante. Muitas vezes descubro coisas sobre as minhas áreas em livros que, à primeira vista, não têm nada a ver. Coisas que, por estarmos apenas dentro da nossa própria disciplina, talvez nunca repararíamos. No fundo, trata-se de sair um pouco da nossa bolha.

Olhando para o futuro, como imagina a língua portuguesa daqui a 50 ou 100 anos, considerando globalização, migração, mobilidade de falantes, educação formal e informal, tecnologia e comunicação digital? Que impactos prevê sobre a preservação da diversidade dialetal, sobre a unidade cultural lusófona e sobre a capacidade do português se manter relevante e dinâmico?

Se compararmos a nossa língua com o que existia há 500 anos, percebemos muitas diferenças que, à época, talvez ninguém conseguisse prever. Por exemplo, se voltássemos 500 anos atrás, quais seriam as grandes diferenças em relação ao português de hoje? A língua era muito diferente e mais variada, e a escrita não era tão comum. Escrever era algo reservado a poucas pessoas, enquanto hoje é acessível a quase todos. Isso mostra como é difícil fazer previsões. O que posso afirmar é que acredito que o português vai continuar a existir. Se o inglês continuar a expandir-se da forma como tem feito, poderemos chegar a um ponto em que o português se torne mais oral do que escrito – espero que isso não aconteça. Também poderia acontecer o contrário: o português acabar reservado apenas a usos formais e acadêmicos, protegidos em universidades, mas falado por poucos. Mais uma vez, espero que isso não se concretize, mas é algo que devemos ter em conta se quisermos evitar que aconteça. Acredito, no entanto, que o mais provável é que continuemos a ter o português vivo e presente, apesar de todas as pressões e desafios que mencionámos há pouco.

Que impacto espera que os seus livros, programas mediáticos, atividades pedagógicas e iniciativas profissionais tenham no fortalecimento da língua portuguesa e no estímulo à curiosidade linguística de gerações futuras, não apenas em Portugal, mas em toda a comunidade lusófona?

Gostava que houvesse um incentivo maior à comunicação entre os vários países, que pudéssemos falar mais frequentemente sobre estas questões sem tanto atrito, como acontece por vezes. Também gostaria que houvesse mais pessoas interessadas em investigar e estudar a língua portuguesa, e que cada vez mais pessoas se dedicassem a projetos semelhantes aos que eu realizo. O que realmente gostaria é que se desenvolvessem iniciativas deste tipo, que já se fazem muito em inglês, mas que também pudessem acontecer de forma consistente em português.

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