Obra de Capa
Exercício 4 monalisante:
parece que aqui Casimiro se enfadou com a multiplicação dos ovoides, pois se de facto, até então, tínhamos assistido ao desenrolar serial de acrescentos e modificações das multiplicidades, o artista, como soberano que é, talvez até déspota, decidiu pôr fim às impressões – de analogia bíblica – da multiplicação dos pães revelada por S.Mateus. Não que arte não tenha tido um passado demasiado irmanado à religião, teve-o, de tal forma que as próprias considerações estéticas de descrição e interpretação da arte, até há pouco tempo, se reconduziam a espelhar afinidades com poderes quase sobrenaturais, de uma transcendência ao nível de uma divindade. Seria tentador fazermos aqui uma comparação dos pães como provisão divina, da generosidade e partilha pela generalidade da população, com a multiplicação dos ovoides como a dádiva de um artista nobre, que utiliza a sua capacidade fértil para distribuir pontos ovoidais pelas imagens que lhe surgem no seu campo de actuação. Seríamos (escritor e pintor), por consequência, alvo de escárnio ou de acusação blasfematória, por isso atrevamo-nos a encontrar uma outra saída deste labirinto para evitar sermos encurralados no Códice de livros proibidos (Index Librorum Prohibitorum).
Graus de afinidade à parte, Casimiro regressa à união perfeita entre a singela rapariga misteriosa e o eterno inefável agente negro, como retrato do enlace nupcial conforme as leis estabelecidas de um pacto supostamente harmonioso. Mas há algo estranho nesta imagem, algo que inverte a limpidez deste casal. Parece que envelheceu, enrugado pela voracidade de uma força durável histórica que afectou a sua perfeição imaculada. Ou pelo menos a reprodução na obra sofreu uma espécie de derrame poeirento, ou foi assolada pelo crescimento de fungos, ou mesmo por forças externas como o caso de picos de acidez que degradaram a perfeição imagética. É quase como se esta imagem pertencesse àqueles códices de uma antiguidade afligida pela inelutável força do tempo, naqueles tempos primordiais bíblicos…
Rodrigo Magalhães
O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico

Rodrigo Magalhães
Rodrigo Magalhães. Nasceu em 1993. Doutorado em História da Arte. Colaborador mensal no jornal As Artes Entre As Letras, colaborador da ArteCapital. Participa em revistas e catálogos de Arte e exerce trabalho de curadoria. Os interesses de investigação ancoram-se na História da Arte, nomeadamente na análise e historiografia de tendências, movimentos e desenvolvimentos estéticos da arte contemporânea, desdobrando-se consequentemente numa ramificação com outras vertentes artísticas como a literatura, o cinema, a música, dando expressão à capacidade polivalente da arte no período contemporâneo.






