Bento de Góis e o Reino do Cataio

O leigo jesuíta açoriano Bento de Góis, viajante da centúria de Seiscentos, devido à sua energia, tacto diplomático e domínio dos idiomas locais, foi o escolhido para a árdua missão de partir da Índia, no ano de 1603, em busca desse tal mítico reino do Cataio, onde se acreditava existirem cristandades perdidas. A extraordinária jornada que o levou do Punjab à Grande Muralha, atravessando os píncaros do Hindu Kush e visitando diversos e obscuros reinos e emirados da Ásia Central, foi reconstituída pelo jesuíta Matteo Ricci, que na altura dirigia a missão em Pequim, com base em fragmentos de apontamentos redigidos por Góis e com o auxílio da memória do seu companheiro de viagem, o arménio Isaac. O relato, porém, à semelhança de tantos outros de viagens de ilustres portugueses, ficaria inédito até 1911.

Também o padre Fernão Guerreiro, cronista dos feitos dos abnegados religiosos de antanho, o incluiria na sua Relação Anual das Coisas que Fizeram os Padres da Companhia de Jesus nas suas Missões (16031611), com o importante acréscimo de duas cartas redigidas pelo punho de Góis. A respeito da imensa lacuna que ficou por preencher, Henri Bernard afirma na sua obra Le Frère Bento De Goes chez les Musulmans de la Haute Asie (16031607): “De acordo com os maiores historiadores, se o diário de Bento de Góis se tivesse conservado intacto, seria provavelmente a relação mais importante do ponto de vista geográfico das regiões que ele atravessou.”

Associado ao mito do Cataio havia um outro que, frequentemente, se confundia com este, o mito do Preste João, que com o tempo se foi deslocando – do longínquo Extremo Oriente para a Índia, a Pérsia ou a Abissínia dos cristãos coptas que os portugueses contactaram, ainda no século XV, na pessoa de Pêro da Covilhã, por exemplo – e que surgiu na sequência de uma carta alegadamente recebida pelo Papa e pelos imperadores de Bizâncio e do Sacro Império Romano Germânico, subscrita por um poderoso príncipe (o Preste João) que governava uma espécie de paraíso terrestre onde os diferentes cargos eram exercidos por distintos senhores. Segundo essa misteriosa missiva, o príncipe “tinha por mordomo um primaz, por copeiro um arcebispo, por camareiro um bispo, por marechal um arquimandrita, por chefe de cozinha um abade”, e por aí adiante.

Durante séculos, encontrar a localização exacta deste reino, que, no entender da cristandade, constituiria um poderoso aliado na luta contra o Islão, foi uma preocupação constante. Dir‐se‐ia mesmo, uma obsessão. Com esse intuito, nos séculos XIII e XIV, partiram para o Oriente os frades franciscanos João de Carpine, Guilherme de Rubruk, João de Montecorvino, Odorico de Perdenone e João de Marignolli, que trouxeram com eles preciosas informações, entre as quais a existência da terra do Cataio que as viagens de Marco Polo associariam ao reino do Preste João. Curiosamente, nesse afã colectivo pouca importância foi dada às comunidades de nestorianos encontradas em território chinês ao longo desse processo, talvez porque se tratassem de heréticos, seguidores da doutrina de Nestor, antigo arcebispo de Constantinopla, ostracizado por Roma.

A teimosia em encontrar o Cataio encontra explicação plausível numa indefinição geográfica e num equívoco de carácter étnico. O termo Cataio tem a sua origem nas tribos manchus, os kitans, que durante dois séculos ocuparam a parte setentrional da China. A dúvida consistia em saber se essa “Terra dos kitans” se aplicava a toda a China ou a um só reino independente habitado por uma etnia peculiar. (Curiosamente, ainda hoje, para muitos dos povos da Ásia Central, os chineses são os kitais e a China é o Kitai).

Bento de Góis tinha como missão esclarecer em definitivo essa questão.

Vestido de mercador arménio e “com o nome à maneira daquela nação, Abdula, que significa senhor”, o nosso Bento de Góis partiu de Lahore, no Punjab, onde estava sediada a corte do Grão Mogol, acompanhado por dois gregos: o padre Leo Griman e o comerciante Demétrio, que lhe foram recomendados pelo superior da missão jesuíta nessa cidade, o padre Jerónimo Xavier. Preciosas eram também as cartas de recomendação, os salvo‐condutos e o auxílio monetário que lhe foram dispensados por Acbar, o poderoso e tolerante monarca mogol (mongol indianizado), junto do qual os religiosos portugueses sempre tiveram bom acolhimento e até alguns privilégios. Ao grupo inicial Góis acrescentaria um importante aliado, o arménio Isaac, “que tinha mulher e filhos nesta mesma corte”. Assim disfarçados, deixaram a cidade, a 15 de Fevereiro de 1603, “na altura da Quaresma”, integrados numa caravana que todos os anos partia “desta Corte com destino a outra de outro reino, chamado Cascar”, ou seja, Kashgar. Num mês chegaram à cidade de Attock, ainda na província de Lahore, e 15 dias depois atingiram o rio Indo, “com a largura de um tiro de seta, que para comodidade dos mercadores, foi atravessado em navios”. Alertados para a presença de ladrões nas imediações, aguardaram junto à margem do Indo cinco dias e, depois, “em dois meses, chegaram a outra cidade chamada Pessaur (Peshawar), onde estiveram vinte dias, necessitados que estavam de descanso”.

No texto redigido por Matteo Ricci são escassos os dados referentes ao trajecto efectuado através do Hindu Kush e do Pamir, das mais dramáticas e inacessíveis regiões do planeta. Mas estão lá referenciados todos os lugares habitados e os pontos geográficos de relevo. Pena é que não tivessem chegado até nós as descrições detalhadas desses largos meses de viagem e de esperas, roubadas a um Góis já bastante doente, na parte final da sua viagem, que seria também a derradeira etapa da sua vida.

A pouca distância de Peshawar, a cáfila em que Bento de Góis seguia encontrou um desses ermitães peregrinos “a que chamam iogues, pelo qual souberam que a trinta dias de caminho dali estava uma cidade chamada Caferstan”. Estas linhas dão a entender que o nosso aventureiro não entrou propriamente nesse território, “onde não permitem que entre mouro nenhum, sob pena de morte”, habitado então por tribos pagãs ferozmente guerreiras, das quais são actualmente fiéis depositários os admiráveis kafir kalash, que povoam ainda três aldeias no vale de Chitral, na zona fronteiriça entre o Paquistão e o Afeganistão, e com quem partilhei muitos meses da minha vivência asiática, riquíssima e inesquecível experiência que não se insere no âmbito deste relato.

Bento de Góis afirma que no temido Caferstan “os mercadores gentios podem entrar na cidade, mas não nos templos” e menciona as vestes negras dos seus habitantes, a fertilidade da terra e a abundância de uvas. Ao provar o vinho da terra, “semelhante ao nosso”, Góis deduz que toda aquela região seria habitada por cristãos.

Depois de uma demorada estada em Cabul, o jesuíta seguiu em direcção ao norte, e aí aumentaram as dificuldades. Bento refere um local onde os direitos eram cobrados pelo “rei de Bucarate” (Bucara) e fala‐nos da dificuldade em passar por Teshkan (Tashkent), à época administrada simultaneamente pelos emirados afegãos de Bucara e de Samarcanda. Para além dos problemas com as esferas do poder, havia que contar ainda com os entraves geográficos – “porque é apertadíssimo o caminho, e não há passagem para mais que uma só pessoa, num altíssimo precipício sobre um rio” – e os assaltos dos ladrões, sem esquecer os imprevistos meteorológicos, “a força dos aguaceiros”, que os chegaram a deter durante =”quinze dias em campo aberto”.

Em Serpanil (actual Sir‐i‐Pamir ou Grande Pamir), “dez dias adiante”, em lugar ermo e sem mantimentos, “subiram a um alto monte chamado Sacrithma, ao cimo do qual não puderam subir senão os que tinham cavalos fortes e valentes”. Vinte dias depois atingiram “a província de Sarcol” (actual Sirikol) onde encontraram várias aldeias, tendo daí iniciado a subida para um dos passos de montanha mais temerosos, “em cuja subida, por causa da muita neve de que estava coberto, morreram muitos homens»”, e ao próprio Bento pouco faltou para acabar a vida, porque estiveram seis dias inteiros naquela neve.

Uma das curiosidades da jornada de Bento de Góis é a passagem por uma zona extremamente montanhosa chamada Calcia, que corresponde à actual região de Kachu, no norte do Afeganistão. Quando os viajantes chegaram a Talikhan, onde descansaram um mês, “foram atemorizados por um alvoroço civil, porque, por causa de uma rebelião dos povos de Calcia, se dizia que os caminhos não estavam seguros”. É salientado, no relato de Ricci, que “a gente desta terra tem o cabelo e barba ruivos, como os alemães e habitam em várias aldeias”. A caravana, que pretendia viajar de noite por sua conta e risco, recusando a protecção dos muros de Tashkent, acabaria por ser impedida de seguir viagem pelo governador daquela cidade que receava que os rebeldes, que não tinham cavalos, “se tomassem os daquela cáfila, com eles assolariam mais cruelmente a terra e causariam mais dano ao povo”.

É difícil perceber a que povo exactamente se refere o texto, mas optei por destacar estas passagens porque ainda hoje, numa aldeia do Xinjiang chinês, muito perto do Cazaquistão, existe uma comunidade de origem caucasiana com características físicas similares aos povos da Europa Central. Há quem diga que descende dos soldados de Alexandre, o Grande, que por aqui ficaram após as conquistas do general macedónio, controversa teoria que, de resto, se aplica a várias outras comunidades do Hindu Kush. Pensando bem, traços fisionómicos desses não são de espantar nesta latitude, já que existem povos de origem ariana do Cáucaso às cordilheiras do norte da Índia, que separam o subcontinente do planalto tibetano e estão na origem do bramanismo hindu.

Na proximidade de Turfan, situada num vale 160 metros abaixo do nível do mar conhecido como “Vale da Uvas”, produzem‐se as melhores uvas da China. Bento de Góis permaneceu na região um mês. Como ele próprio indica, Turfan era então uma cidade fortificada.

Chegado a terras arbitradas pelo rei de Kashgar, e revelada a sua verdadeira identidade, também o nosso Bento de Góis, com a dupla desvantagem de ser forasteiro e homem religioso, foi posto à prova por diversas ocasiões. Ricci conta que, um dia, estando o açoriano sentado a comer com “alguns mouros”, convidado por um deles, “entrou não sei quem, furioso, com um alfange na mão” e, encostando‐lhe a arma ao peito, mandou‐lhe que invocasse o nome do profeta Maomé.

Mas esse foi a excepção numa maioria que sempre se mostrou hospitaleira e muito curiosa pela presença na sua terra de tão singular personagem. Prova disso é a reacção imediata dos restantes convivas: “Defendiam‐nos os que estavam presentes, e expulsaram de casa o louco. Isto mesmo de o quererem matar se invocasse o nome de Mafamede conta ter‐lhe sucedido uma e muitas vezes, mas Deus livrou‐o até ao fim da jornada.”

No relato que deixou, Bento de Góis afirma que “os mouros desta parte que confina com a China são cobardes, e os chineses poderiam sujeitá‐los com facilidade se cuidassem de conquistar nações estrangeiras”. Um comentário que, de algum modo, antecipa os acontecimentos históricos que viriam a acontecer séculos depois e que levariam à anexação daquele território pela China.

Bento de Góis chegou a Acsu depois de atravessar a secção oeste do temido Taklamakan, em 20 dias apenas. De Iarcanda a Acsu, passando por lugares míticos como Talik, Kurma e Kaptar Kol, o leigo jesuíta seria solicitado pelo governador local, que “era um neto do rei, de doze anos”, a quem Góis presenteou com “alguns brinquedos, açúcar e outras coisas semelhantes”. Esse soberano recebeu‐o bem, e como havia uma festa, pediu a Góis “que bailasse ao modo da sua terra”. O nosso aventureiro anuiu ao pedido, “para não parecer que lhe negava uma coisa tão pequena”.

O destemido português, logo na cidade de Cialis (a actual Korla, na província de Xinjiang), teve plena consciência de que a China e o Cataio eram uma mesma realidade quando alguns mercadores vindos de leste lhe mostraram uma carta escrita em português, pois “tinham convivido com os nossos em Pequim, no Palácio dos Estrangeiros, e deram notícias seguras do padre Mateo e dos seus companheiros, com regozijo do nosso Bento de Góis, por haverem falado da China em vez do Cataio”. Contentes com a boa nova, Bento e o seu companheiro “dali em diante não tiveram dúvida alguma de que o Cataio só no nome se diferenciava da China, e de que a própria corte, que os mouros chamavam Cambalu, era Pequim”.

Infelizmente, Bento de Góis não conseguiu concluir a sua saga, tendo morrido, provavelmente envenenado, às portas da Grande Muralha, na cidade de Socheu (Soh‐Chow), em 1607, onde estava retido havia já dois anos, doente e sem meios financeiros que lhe permitissem seguir viagem. E assim desapareceu o primeiro verdadeiro explorador europeu dos inóspitos reinos da Ásia Central, cujo nome continua a ser praticamente desconhecido.

Relata‐nos o seguinte Mateo Ricci, após ter enviado o leigo jesuíta João Fernandes ao encontro do corajoso açoriano: “Encontrou o nosso Bento na cama com uma doença mortal, o qual na noite anterior (se foi sonho ou visão não se sabe) soube que no dia seguinte havia de chegar de Pequim um dos nossos, pelo que mandou o companheiro arménio à praça comprar alguma coisa para repartir pelos pobres, rogando a Deus que aquele sonho não lhe enganasse a sua esperança.”

O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico

Acompanhe-me nesta magnífica viagem

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