Retratos da nova emigração
Rui Freitas, de Grijó para Gent na Bélgica

Entre laboratórios de investigação biomédica e a procura de uma vida mais equilibrada, Rui Freitas representa uma geração de jovens qualificados que decidiu procurar fora de Portugal aquilo que sente faltar dentro de portas: reconhecimento profissional, estabilidade e qualidade de vida. Natural de Grijó, em Vila Nova de Gaia, o investigador de 29 anos trocou o conforto do país natal pela cidade belga de Gent, onde trabalha atualmente na Sanofi, uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo. É licenciado, mestre e doutorado na área das ciências biomédicas. Nesta entrevista Rui Freitas fala de uma emigração pensada, ao longo de vários anos e marcada pela necessidade de “fugir” a uma mentalidade laboral com a qual nunca se identificou. Partilha as dificuldades da adaptação, a solidão dos primeiros tempos, a descoberta de um maior equilíbrio entre vida pessoal e profissional e um olhar simultaneamente crítico e saudoso sobre Portugal.
O que o levou a tomar a decisão de emigrar?
No geral, a principal razão foi tentar procurar melhores condições de vida. No particular, tentei arranjar um melhor ambiente de trabalho e um melhor equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. No fundo, vim à procura de liberdade. Parti no dia 1 de janeiro de 2025. Vim sozinho, mas a minha namorada juntar-se-á a mim no final do ano.
Que fatores em Portugal mais pesaram nessa decisão?
Um pouco de tudo, mas a principal razão foi a mentalidade. Sendo português, não me identifico da forma como se pensa em Portugal, principalmente a nível laboral. Foi uma decisão pensada nos últimos dois anos. Tive necessidade de fugir. Senti-me apoiado nesta decisão pela minha família, embora ela tenha ficado triste por ver-me sair do país.
O que procurava no estrangeiro que sentia não existir em Portugal?
Podia estender a resposta, mas vou destacar um melhor equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, sem dúvida. Esperava também uma vida mais calma, penso que aqui se vive a um ritmo mais lento. E pelo facto de vir sozinho, esperava uma vida menos social, o que inevitavelmente acabou por acontecer. Tinha um plano que consistia em arranjar um trabalho na área da biotecnologia, no ramo da investigação ou fora dela. Quando vim, já tinha trabalho.
Como foi a sua chegada? O que pensou nesse dia?
A chegada foi tranquila, a viagem correu bem e cheguei com facilidade ao Airbnb onde estive alojado até encontrar casa. Nesse dia, pensei que os primeiros tempos iam ser difíceis, mas que me tinha de aguentar porque foi uma decisão pessoal e ponderada e tinha de saber lidar com ela. A principal tarefa foi comprar comida para jantar nesse dia e tomar o pequeno-almoço no dia seguinte, bem como descansar para estar bem no dia seguinte, que já era dia de trabalho.
Quais foram as maiores dificuldades de adaptação?
O mais difícil foi talvez lidar com a solidão, ainda que tenha conseguido fazer amigos rapidamente. Quanto à língua, ainda estou a aprender o neerlandês, que é a língua que se fala na zona da Flandres, mas quase toda a gente sabe falar inglês na Bélgica.
A Bélgica tem três idiomas oficiais e na região onde estou fala-se neerlandês. Sei falar um pouco, mas ainda estou a aprender de forma autodidata (utilizando plataformas como o DuoLingo e a inteligência artificial) e consigo praticar no trabalho com os meus colegas.
Que estereótipos tinha sobre o país e descobriu que não eram verdade?
A única ideia que tinha é que as pessoas eram um pouco mais frias, o que se verificou, por isso não encontrei nada que descobri que fosse verdade.

Como conseguiu arranjar trabalho e casa?
Arranjei trabalho ainda em Portugal, através de uma candidatura no site da empresa. Trabalho na área da investigação em saúde, que é a minha área de formação. Relativamente à habitação, estive um mês num Airbnb até arranjar casa. Para isso consultei algumas plataformas digitais para ver anúncios de casas para arrendar.
Já enfrentou situações de preconceito ou discriminação?
Felizmente, ainda não.
Como é o seu dia a dia atualmente?
Durante a semana começo a trabalhar às 7h30 e termino por volta das 16h30. Raramente faço horas extras. Demoro sensivelmente 15 minutos a chegar a casa vindo do trabalho. Depois de chegar faço desporto e aprendo o neerlandês. Durante o fim de semana, invisto mais tempo no estudo, bem como a ler, jogar basquetebol, correr e acompanhar a atualidade de Portugal através dos noticiários e programas e podcasts de comentário político.
Sente que é mais valorizado no estrangeiro do que em Portugal?
Sem dúvida. Existe uma preocupação com o meu bem-estar na empresa e a nível pessoal que nunca tinha experienciado anteriormente. Só isto já tem muito valor.
Aqui encontro oportunidades para crescer, algo que acabei por não ter em Portugal durante os dois últimos anos de doutoramento.
Quanto à progressão de carreira, ainda não posso comentar porque o contrato é apenas de dois anos e ainda há uma incerteza quanto a prolongá-lo. Quanto aos outros fatores, sim, as condições são muito melhores.
O que mais o surpreendeu no mercado de trabalho belga?
Não é que me tenha surpreendido porque já estava à espera do que estou a viver, mas foi com muito agrado que percebi que a organização, o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, bem como a preocupação com o bem-estar de cada um é uma realidade.

Há algo em que considera que Portugal está mais avançado do que a Bélgica?
Após pensar muito nesta questão, vou dizer que não.
Mesmo algumas coisas de que não gosto na Bélgica, devo reconhecer que fazem mais sentido do que a forma como Portugal as tem organizado.
Fez facilmente amigos?
Felizmente sim.
Fiz dois amigos que trabalhavam comigo. São ambos portugueses.
Depois fui conhecendo mais pessoas de outras nacionalidades, mas os amigos mais próximos são portugueses.
Como é viver longe da sua família e dos amigos de infância?
É difícil, mas graças à tecnologia é possível ir mantendo o contacto e, desta forma, torna-se um pouco mais fácil.
Que aspetos positivos encontra em Portugal e que acha que deviam ser mais valorizados?
A gastronomia é fantástica¸ penso que é muito bem promovida. Aqui posso dizer que como com menos variedade e a qualidade dos produtos não é tão boa.
O clima e as paisagens também, mas isso também é já muito explorado. De resto, vou citar Alberto Pimenta “Portugal é um país igualzinho aos outros”.
Como vê Portugal agora, estando longe?
Olho para Portugal como quem olha para algo que podia ser muito mais e melhor (porque tem condições para isso), mas não quer. Faltam claramente líderes com visão e projetos a longo prazo. Pelo que vejo nas notícias, parece-me que Portugal piorou ligeiramente. Mas penso que ainda não estou fora há tempo suficiente para me alongar nesta questão. O que mais me desilude quando penso em Portugal é o facto de não haver uma visão de futuro para o país por parte dos líderes.
Que aspetos do quotidiano português lhe fazem mais falta?
Comida, convívio e língua, sem dúvida.

Que valores portugueses leva consigo no dia a dia?
Eu não sei bem o que são “valores portugueses”. Há muitos valores que são comuns a vários povos e não penso que seja isso que nos defina quanto à nossa cidadania.
Nunca me identifiquei com a mentalidade da maioria dos portugueses. Posso dizer que talvez carregue o pessimismo português, mas é algo que estou cada vez mais a combater.
Se comparar a sua vida cá e lá, quais são as maiores diferenças?
Tenho muito mais tempo para me dedicar às minhas atividades extra profissionais e sou uma pessoa mais saudável aqui do que era em Portugal.
Que imagem têm os belgas dos portugueses?
Têm uma ideia muito positiva. Pessoas trabalhadoras e esforçadas. Mas também sabem que muitos portugueses não gostam de se levantar cedo. Uma vez uma senhora no supermercado disse-me que tínhamos o idioma mais sensual.
Volta regularmente a Portugal? Com que frequência?
Ainda só fui uma vez, mas a ideia é ir duas vezes por ano. Quando regresso, sinto que estou verdadeiramente em casa, independentemente de tudo.
O que significa “saudade” para si?
Saudade é difícil de definir, mas para mim, é o sentimento de sentir falta de algo, não pela utilidade prática, mas por todo o sentimento associado ao que inspira essa saudade.
Sente que mudou como pessoa depois de emigrar?
Acho que não.
Sente-se mais português, mais europeu ou já com uma identidade “mista”?
Sinto-me português e europeu na mesma medida.
Seria uma pessoa diferente se tivesse ficado em Portugal?
Infelizmente seria mais infeliz.


Vê uma nova “geração de emigrantes portugueses” diferente das anteriores?
Para ser sincero, eu não consigo responder a esta pergunta. Não tenho contacto nem conhecimento suficiente sobre outras gerações que emigraram. O que posso dizer é que a minha geração, que ainda é jovem, tem muitos emigrantes. Os meus melhores amigos estão também fora.
Acha que os jovens de hoje emigram por razões diferentes das gerações dos seus pais/avós?
Julgo que não, mas mais uma vez, não tenho a certeza. Os meus padrinhos estão em França há muitos anos e as razões que os levaram para lá foram as mesmas que as minhas na sua maioria. Mas é uma amostra pequena para eu conseguir responder com mais certeza.
Acha que Portugal valoriza a sua diáspora?
Penso que sim.
Se tivesse de enviar uma mensagem aos jovens que vivem e trabalham em Portugal, qual seria?
Desejo-lhes a melhor das sortes e muito sucesso na vida profissional e pessoal. Quero demonstrar solidariedade para todos os que ganham pouco, não conseguem sair da casa dos pais e que não são valorizados no trabalho. Também quero-lhes dizer que há alternativa.
Que conselhos daria a jovens portugueses que estão a pensar emigrar?
Eu diria para fazerem um bom planeamento e que tentem vir já com contrato de trabalho assinado e, se possível, já com casa ou pelo menos com algumas visitas agendadas.
Aviso também que o custo de vida pode ser um pouco maior e que se mentalizem que provavelmente não vão comer tão bem e o clima será diferente; claro que depende do país para que forem, mas a nível europeu é o que penso.



