Da Pérola do Atlântico ao Caribe

A história da emigração portuguesa para a Venezuela

Poucas comunidades da emigração portuguesa têm uma identidade tão nítida como a que floresceu na Venezuela.
Nascida da Madeira e construída ao balcão das padarias, atravessa hoje um momento de viragem — agravado por uma tragédia natural — que interpela a solidariedade de todos os portugueses.
A emigração portuguesa para a Venezuela inicia-se na década de 1940 e prolonga-se até meados dos anos 1980. Empurrada pela pobreza, pela pressão demográfica e por um regime que pouco oferecia, encontrou do outro lado do Atlântico um país que precisava de braços.
Nos anos 1950, o boom petrolífero e o impulso modernizador do presidente Marcos Pérez Jiménez abriram as portas a uma vaga de mão de obra europeia: portugueses, espanhóis e italianos ocuparam, por essa ordem, os primeiros lugares dessa chegada.
A esmagadora maioria partiu da Madeira — a tal «pérola do Atlântico» —, com contributos das regiões de Aveiro e do Porto. Muitos viajaram com a documentação em regra, munidos do «permisso» consular e da carta de chamada de um familiar; outros arriscaram a travessia clandestina, à mercê dos engajadores que prosperavam com a esperança alheia. Em comum, traziam a vontade de trabalhar e a ambição de um negócio próprio.

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Começando frequentemente por conta de outrem, os madeirenses depressa se tornaram comerciantes. Dominaram a distribuição alimentar e o retalho de proximidade, fixando na paisagem urbana venezuelana marcas que ainda hoje se reconhecem: as padarias, os «abastos» (mercearias), as «fuentes de soda» de sandes e sumos, os restaurantes, a construção civil e os transportes. O pão português transformou-se quase num símbolo nacional — a prova mais saborosa de uma integração profunda.
Essa integração teve também rosto associativo e económico. O Centro Português de Caracas, tido como o maior do mundo, chegou a reunir cerca de dez mil pessoas nos dias de festa. Hoje, a comunidade luso-venezuelana é uma das maiores comunidades portuguesas do planeta e a segunda da América Latina: estão inscritos nos consulados de Caracas e Valência perto de 218 mil cidadãos nacionais, num universo que, somando descendentes, se estima em cerca de meio milhão de luso-venezuelanos.
A Constituição bolivariana de 1999 reconheceu a dupla nacionalidade e estreitou os laços de pertença. Mas a partir de 2013-2015, o colapso dos preços do petróleo precipitou uma crise económica, política e social sem paralelo: hiperinflação, escassez de bens essenciais e medicamentos a contar-se a peso de ouro.
A maré que outrora trouxera os madeirenses para o Caribe começou a inverter-se, e milhares de portugueses, lusodescendentes e cidadãos venezuelanos regressaram, sobretudo à Madeira.
Para muitos descendentes, voltar à terra dos avós foi, paradoxalmente, emigrar pela primeira vez.

A 24 de junho de 2026, o destino impôs-se da forma mais brutal. Dois sismos de forte magnitude — 7,2 e 7,5 —, em sucessão de segundos, abalaram o centro-norte da Venezuela, com epicentros próximos de Morón, no estado de Carabobo.
Sentiram-se em Caracas, em La Guaira e em vários estados, e até na Colômbia e no norte do Brasil.
O balanço, ainda provisório e a agravar-se, apontava já para centenas de mortos, e milhares de feridos— entre as quais portugueses e lusodescendentes.
A Venezuela declarou o estado de emergência.
Seja qual for o desfecho desta nova travessia, há um legado que não desaparece: o das gerações que fizeram do pão, do comércio e da palavra portuguesa uma presença indelével no coração da América Latina.
Honrar essa memória é, hoje, estender a mão — porque a mesma solidariedade que um dia acolheu os nossos emigrantes é a que, agora, somos chamados a retribuir.

Fundação AEP

Rede Global da Diáspora

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