Editorial agosto

Caros Leitores,
Agosto chega sempre com esta luz oblíqua que abranda o ritmo e nos devolve ao essencial. E é precisamente nessa claridade que a obra de capa de Manuel Casimiro se impõe: uma Mona Lisa envolta numa névoa verde, inquietante, quase tóxica, como se o quadro respirasse uma atmosfera própria. A intervenção casimiriana, analisada por Rodrigo Magalhães, prolonga a experiência monalisante e devolve-nos a pergunta que atravessa décadas: o que acontece quando a cor deixa de ser apenas cor e passa a ser narrativa, emboscada, memória? Dessa névoa simbólica avançamos para um gesto que, ao contrário da Mona Lisa, não esconde o sorriso: o Obrigado e Boa Viagem 2026, que este ano chega ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro e transforma a despedida dos emigrantes num momento de afeto nacional. A Tômbola e a Roda da Sorte acrescentam alegria, mas é o abraço — esse símbolo maior — que continua a definir o projeto. Um país que agradece a quem parte é um país que sabe que a distância também constrói identidade. Este mês traz de volta o som das malas a bater no chão das casas antigas, o cheiro das cozinhas que voltam a acender-se, o riso das crianças que correm pelas ruas onde os avós esperam o ano inteiro. As aldeias enchem-se de cor, de vida, de sotaques misturados, de reencontros que fazem renascer memórias. É Agosto! A M Maison Particulière, mostra como a hospitalidade pode ser elevada à categoria de arte. José Ribeiro e Castro, presidente da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, conduz-nos por uma reflexão sobre memória, identidade, patriotismo e História. Num tempo em que tantas referências parecem efémeras, recordar que “sem independência, Portugal simplesmente não existiria” é também um convite a compreender melhor o passado para construir o futuro. Imperdível! Refletimos sobre o coração dividido de quem aprendeu a chamar “casa” a dois países, e revisitamos João de Loureiro e o universo da Flora Cochinchinense, onde ciência, missão, língua e circulação de conhecimento desenham uma presença portuguesa que ultrapassa fronteiras e séculos. Simone Veloso é uma talentosa artista que transsforma herança em criação contemporânea, e, num salto inesperado, chegamos ao Lobo, que já não é vilão — porque a natureza também merece ser reescrita. Levamos música para os mais novos e celebramos a gratidão e a excelência das frutas, esse património sensorial que atravessa gerações. A saúde com presença habitual, foca um tema por diversas vezes ignorado: a tosse, sintoma comum mas frequentemente desvalorizado, que merece atenção e conhecimento. E porque a diáspora é parte da nossa identidade, viajamos até à Venezuela, onde a comunidade portuguesa continua a escrever histórias de resiliência. Histórias que se cruzam com os Retratos da Nova Emigração, desta vez com Miguel Picaluga, que saiu da Costa da Caparica para Bruxelas e encontrou no mundo o seu lugar. A lente de João Mariano captura o instante em que a superfície se torna espelho, em que a corrente se torna narrativa, em que a luz encontra no reflexo, uma segunda vida. Cada imagem é um fragmento de silêncio líquido, uma memória em suspensão, uma paisagem que não se limita a ser vista — é sentida. Desfrutem. Descubra quem foi a Donzela que não casou com Paris, porque escolheu ficar onde a luz é outra, onde o fado respira, onde cada rua guarda uma história que não se repete. Há ainda uma pergunta que nos acompanha há séculos: “Qual é a Língua Mais Antiga do Mundo?” Na terceira parte deste artigo, continuamos a exploração de um mistério que é, também, um espelho de nós próprios, e terminamos como começamos, com agosto, mês de descanso… até para alguns impostos, porque até a fiscalidade tem o seu verão. Assim se constrói esta edição: entre arte e ciência, entre história e viagem, entre tradição e futuro. Uma revista que, como a Mona Lisa verde de Manuel Casimiro, nos convida a olhar duas vezes — e a descobrir o que está para lá da primeira impressão.
Boas férias!



