Qual é a língua mais antiga do mundo?

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Parte III

É esta associação entre língua e norma escrita que justifica que alguém considere o irlandês uma língua recente – os irlandeses já o falam há milénios, mas a sua norma escrita actual é mais recente. No entanto, esta maneira de encarar a história é muito enganadora: os irlandeses falam essa língua há muito tempo, apesar de agora já só sobreviver em zonas particulares.
Essa associação estrita – e errada – entre língua e escrita também explica que haja quem considere o galego uma «invenção» do século XIX: a literatura galega moderna renasce nesse século – mas mesmo assim, para dizer que o galego nasceu no século XIX, é preciso ignorar que já tinha havido textos bem mais antigos escritos na língua dos galegos, por exemplo, as cantigas de amigo.
A mim, na verdade, interessa-me a história do uso escrito das línguas, mas há tanto que se esconde por trás – tanto e tão interessante!
Gosto de pensar como o português não surgiu do nada quando surgem os primeiros documentos – mesmo que seja muito difícil ter certezas sobre o que se passou antes.
Gosto de pensar que a palavra «mãe» veio da «mater» latina, mas entre uma e outra existiram muitas formas pelos séculos fora, todas tão expressivas e maternais como a nossa.
Gosto de pensar que a «mater» latina veio de qualquer coisa de anterior, até chegar à «méh₂tēr» indo-europeia, uma forma reconstruída duma língua que ninguém escreveu. Gosto de pensar que os tais indo-europeus nunca se chamaram assim e nunca escreveram a palavra «méh₂tēr» – mas fosse qual fosse a forma da palavra «mãe», existiu na boca de pessoas reais que percebiam e sentiam a sua língua como nós sentimos a nossa.
E gosto de pensar que essa «*méh₂tēr» também terá vindo doutra «mãe» mais antiga, assim até chegarmos ao dia em que alguém, pela primeira vez, disse a palavra «mãe».
A linguagem humana e a sua variabilidade serão como o barro, sempre moldável e sempre a caminho de ser outra coisa. De vez em quando, há quem pegue num pedaço desse barro e coza uma língua-padrão – mas, na rua, as pessoas continuam a brincar com o mesmo material, mudando a forma da língua até a forma rígida da norma se partir e ter de ser substituída por outra – felizmente, a norma não tem de ser assim tão rígida; e é bom que não o seja, pois só assim garantimos que não se parte, como aconteceu com o katharevousa. Note-se: a norma não pode inventar uma língua do nada – tem de usar os materiais que existem. A norma é uma força que actua sobre esses materiais, por vezes como política consciente, com mais ou menos êxito, outras vezes através de mecanismos inconscientes de aproximação à fala do grupo de prestígio. Houve gregos que tentaram moldar o barro para se parecer ao grego antigo – falharam, embora algumas palavras dessa norma artificial tenham sobrevivido. Os bascos ensinam agora uma língua unificada, e esse processo tem corrido bem. Curiosamente, a língua dos galegos e dos portugueses viveu séculos debaixo de normas diferentes, mas o material comum ainda lá está, a permitir que nos entendamos, quando vemos quão parecido é o barro dum lado e doutro da fronteira.
Voltemos à nossa pergunta: qual é a língua mais antiga do mundo? A única resposta razoável é explicar que as línguas não têm idade. As línguas mudam, passam por fases, vão-se sujeitando a diferentes normas, misturam-se e influenciam-se umas às outras. Neste percurso complexo, damos-lhes nomes e assumimo-los como bandeiras das nossas identidades. É normal que queiramos saber quando nasceram as tais bandeiras, mas a resposta nunca poderá ser simples. Todas as línguas foram criadas ao longo dos séculos, a partir de materiais anteriores, num processo que começou há muitos milénios – e não acabou!
A língua que o leitor tem na cabeça tem pergaminhos tão antigos como a língua de todos os outros seres humanos. Todos falamos o que resultou da sucessão ininterrupta de gente a falar desde o princípio dos tempos – e assim continuaremos, de palavras na boca, a moldá-las sem fim, por muitos e bons séculos.

O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico

Parte I

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