Tantas casas para tão pouca gente, tanta gente para tão poucas casas

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Muitas são as aldeias que calcorreamos de lés-a-lés e não encontramosvivalma. O mesmo não se poderá dizer das casas. Estas, estão espalhadas por todo o lado. Umas, pequenas e antigas, com as paredes de granito já escurecidas pelo tempo. Outras, grandes, de dois ou três pisos, varandas largas e alpendres, grandes janelas, portões de ferro e garagensde dimensões generosas. São, muitas delas, particularmente estas últimas, casas de emigrantes. Foram construídas ao longo das últimas décadas, com dinheiro ganho longe, com anos de trabalho em França, na Suíça, no Luxemburgo, na Alemanha, no Canadá ou em tantos outros lugares para onde partiramnum tempo em que ficar não era opção.

Todas e cada uma dessas casas contam uma história que não aparece retratada nas estatísticas oficiais. São o resultado de uma vida inteira de trabalho e de uma vontade muito portuguesa de deixar alguma coisa para os vindouros. Aqueles que partiram quiseram construir a casa na terra que os viu nascer. Não apenas uma casa de férias modesta para viver durante um mês no ano, mas uma prova visível de que a partida tinha valido a pena. A casa na aldeia materializa uma espécie de regresso antecipado, mesmo sabendo que o regresso definitivo, provavelmente, nunca chegará a acontecer. O problema é que, entretanto, o tempo passou e a terra mudou. As casas permanecem como um marco para relembrar quem nelas viveu, mas as pessoas foram desaparecendo, uns para o estrangeiro, outros para o além. Fechou a mercearia, o café e a escola, não necessariamente por esta ordem. A aldeia não fecha de uma vez, vai fechando, aos poucos. Apesar de muitas casas continuarem de pé, muitas delas bem tratadas, com as paredes pintadas e o jardim aparado, ao lado, porém, os terrenos começam a ganhar silvas, o muro caiu num canto, a água da chuva infiltra-se noutro, e abre regos profundos nos caminhos.

O mato aproxima-se cada vez mais dos povoados, sinalizando a ausência dos rebanhos que outrora o mantinham rasteiro.Ficamos com a sensação de que há qualquer coisa de estranho nesta paisagem. Temos muito património construído, mas pouca gente para o habitar. Temos casas que permanecem fechadas onze meses por ano e terrenos que já ninguém cultiva. Há garagens vazias, quartos onde já ninguém pernoita e cozinhas pensadas para uma família que entretanto se dispersou pelos quatro cantos da Europa e do mundo. Construímos a pensar no futuro e acabámos, sem dar por isso, a construir para um mar de gente que já não existe.

Todavia, basta percorrer o país e chegar a uma grande cidade para encontrarmos o paradoxo que se nos apresenta como o reverso da moeda. Em Lisboa, no Porto, em Braga, ou noutras cidades onde se concentram empregos, universidades e serviços, há gente a perder de vista à procura de casa, e casas que custam cada vez mais. Há jovens que trabalham e não conseguem arrendar um simples e modesto apartamento, famílias que adiam sair de casa dos pais e pessoas que passam horas em transportes porque viver perto do trabalho se transformou num luxo demasiado caro. Nas cidades parece haver pessoas demais para as casas que existem; nas aldeias, casas demais para aqueles que ficaram. Somos, pois, um país de muitas casas vazias e de demasiada gente sem casa!

Estamos, pois, perante uma contradição que diz muito sobre o país que fomos construindo. Durante décadas deixámos que a população se concentrasse onde havia trabalho e que o interior fosse deixado para trás, ao abandono. Depois continuámos a construir, muitas vezes sem que nos perguntássemos quem iria ali viver. O emigrante construía porque um dia queria voltar. Por sua vez, o município licenciava porque aprovar novas construções era um sinal de desenvolvimento e encaixe garantido de receita. A aldeia via com  bons olhos a construção de mais uma casa nova. E tudo parecia estar bem, só que ninguém pensou na falta de população que naquela época já não conseguia ocupar todas aquelas casas.

Urge ressalvar que, as casas dos emigrantes merecem ser olhadas para além da caricatura, tantas vezes injusta, da varanda em mármore, do portão alto ou da fachada vistosa. Há em cada uma delas uma história social importante. Muitas dessas casas foram pagas com sacrifício, com salários ganhos a limpar hotéis, trabalhar em fábricas, na construção civil, nos campos ou em restaurantes dos países estrangeiros de acolhimento. Foram construídas por pessoas que passaram décadas a contar francos, dólares, marcos ou euros para poderem levantar quatro paredes  e um telhado na terra onde nasceram. Por essa via, não me parece justo olhar para elas apenas como exemplos de mau gosto ou de desperdício de recursos.

O problema começa quando percepcionamos que uma casa não vive sozinha. Precisa de uma aldeia viva ao seu redor, de caminhos cuidados, de comércio, de transportes, de vizinhos, de agricultores, de alguém que abra a porta não apenas no mês de Agosto. Uma casa pode permanecer impecável durante anos, mas uma terra sem gente acaba por se degradar.

Talvez este seja um dos grandes desperdícios silenciosos do interior de Portugal: termos construído tanto para uma população que entretanto foi viver para outro lugar. E, ao mesmo tempo, no reverso da moeda, termos cidades onde uma parte da população já não consegue pagar uma casa ou, mesmo quando consegue pagar, não existem casas disponíveis no mercado de arrendamento ou para comprar.

Importa referir que, não precisamos necessariamente de transformar as casas vazias das aldeias em apartamentos urbanos, nem de imaginar que todas as pessoas que vivem no Porto ou em Lisboa irão mudar-se amanhã para o interior. Isso seria uma utopia. A questão é outra e é profunda. É precisoque se perceba porque chegámos a este ponto e se ainda vamos a tempo desair dele através da aproximação destas duas realidades. Porque, sejamos pragmáticos, enquanto houver aldeias com dezenas de casas fechadas e cidades onde milhares de pessoas procuram desesperadamente um lugar para viver, alguma coisa está profundamente desequilibrada neste país e em muitas outras partes do mundo, pois não se trata de um problema exclusivamente português.

Talvez um dia os filhos dos emigrantes regressem às casas que os pais construíram. Ou talvez não. Pois, muitos desses filhos já nasceram longe e têm a vida, o trabalho e os amigos noutros países. Algumas das casas ficarão para herdeiros que mal as conhecem e que nunca lá irão viver. Outras serão vendidas. Outras continuarão fechadas e abandonadas, como pequenas cápsulas de um tempo em que partir para a Europa ou para a América era a única maneira de construir uma vida melhor.

E é possível que daqui a alguns anos alguém passe por uma dessas aldeias e veja essas mesmas casas, algumas de pé, outras em ruinas. E, talvez esse alguém se pergunte como foi possível haver tantas casas para tão pouca gente, quando nas cidades havia tanta gente para tão poucas casas. Como foi possível chegarmos aí?

O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico

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