Como transformar a diáspora qualificada num fator de competitividade para Portugal

Durante décadas, a emigração portuguesa foi contada como uma história de perda: de braços, primeiro, e de cérebros, depois.
Essa leitura já não chega. Portugal tem hoje fora das suas fronteiras uma geração de engenheiros, médicos, investigadores, gestores e especialistas digitais que trabalha nas empresas, universidades e centros de decisão mais exigentes do mundo. A questão estratégica deixou de ser apenas “como evitar que saiam” e passou a ser “como pôr esse talento a trabalhar também para o país”.
Os números mostram um fenómeno de dimensão estrutural. Segundo o Observatório da Emigração, Portugal teria em 2024 cerca de 1,8 milhões de nacionais a viver permanentemente no estrangeiro, o equivalente a aproximadamente 17% da população residente. Os fluxos de saída abrandaram — cerca de 65 mil pessoas em 2024, em grande parte pela quebra da emigração para o Reino Unido após o Brexit — e deverão estabilizar entre 60 e 65 mil por ano.
É importante não simplificar: a maioria dos emigrantes portugueses continua a não ter formação superior, sobretudo nos destinos tradicionais como França e Suíça.

Mas é precisamente por isso que o segmento qualificado merece atenção própria.
Nos Países Baixos, na Bélgica ou nos países nórdicos, a emigração portuguesa é já dominada por profissionais com formação superior. E os vistos de trabalho concedidos a portugueses pelo Reino Unido depois de 2021 concentram-se em finanças e consultoria, tecnologias de informação, saúde e engenharia — exatamente as áreas de que a economia portuguesa mais precisa. Este novo emigrante tem um perfil diferente do de gerações anteriores. Sai mais tarde, depois de concluir estudos em Portugal; circula entre vários países ao longo da carreira; mantém ligações diárias ao país através das redes digitais; e não encara a partida como definitiva. Muitos trabalham em regime híbrido ou remoto, alguns já o fazem a partir de Portugal para empregadores estrangeiros. A fronteira entre “quem ficou” e “quem partiu” é hoje muito mais porosa do que as estatísticas sugerem.
A formação de cada um destes profissionais foi, em larga medida, financiada pelo país.

Deixá-los desligados é desperdiçar um investimento público considerável. Mas há uma leitura mais ambiciosa: a experiência que acumulam lá fora — em mercados, tecnologias, redes de contactos e práticas de gestão — é precisamente o que falta a muitas empresas portuguesas para crescer, inovar e internacionalizar-se.
Países como a Irlanda, Israel ou a Índia perceberam há muito que a diáspora qualificada é uma extensão da sua economia. Os seus emigrantes abriram portas a investimento estrangeiro, criaram pontes entre ecossistemas de inovação e, em muitos casos, regressaram com capital e conhecimento para fundar empresas. Portugal tem condições para fazer o mesmo, mas precisa de passar de uma política de comunidades centrada na dimensão consular e cultural para uma verdadeira estratégia económica de talento.
Portugal sabe pouco sobre as competências da sua diáspora. É necessário um mapeamento voluntário e permanente, que identifique setores, funções, empresas e geografias, articulado com as associações, os consulados e as universidades. Sem este conhecimento, qualquer política será feita às cegas.
Portugal não pode competir com os salários de Zurique ou Amesterdão no curto prazo. Mas pode competir em algo que nenhum outro país oferece aos seus emigrantes: pertença, qualidade de vida e a possibilidade de fazer a diferença no país de origem.
O desafio é converter esse vínculo afetivo em cooperação económica. Um país com quase um quinto da sua população lá fora não é um país mais pequeno — é um país maior do que o seu território. Está na hora de agir como tal.




