Slow Contabilidade

Durante as férias, encontrei um cliente numa esplanada. Ia cumprimentá-lo e seguir caminho, mas vi-o a ler um livro sobre como melhorar a qualidade de vida através do espírito slow. O assunto intrigou-me. Não é todos os dias que encontro um cliente a estudar uma forma de abrandar, sobretudo quando, durante o resto do ano, me pede respostas antes de acabar de formular a pergunta.

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Falou-me do Slow Food, que convida a comer com prazer, valorizando quem produz os alimentos e a forma como são produzidos. Depois vieram as cidades pensadas para passear e conviver, as viagens em que se permanece tempo suficiente para conhecer um lugar, a roupa feita para durar e a ideia, aparentemente revolucionária, de terminar uma refeição antes de começar a responder a mensagens. Agradeci-lhe a conversa. Como estava de férias, até tive tempo para a agradecer sem consultar o calendário.

Mais tarde, sentado na praia a olhar para o mar, pensei que esta filosofia também podia entrar no meu gabinete. Imaginei a Slow Contabilidade. Antes que alguém se entusiasme, esclareço: não estou a propor entregar declarações de IVA fora de prazo. A Autoridade Tributária ainda não aceita «estava a contemplar o horizonte» como justificação para uma declaração tardia.

Penso, antes, no tempo que dedicamos a compreender as pessoas por trás dos números. Hoje tenho reuniões por videoconferência que começam com «está a ouvir-me?» e terminam com «tenho de sair, já está a começar outra». Entre estes dois momentos discutem-se investimentos, riscos fiscais, salários e, por vezes, o futuro de uma família. Fecho o computador e apercebo-me de que conheço o NIF, o volume de negócios e a margem de lucro do interlocutor, mas quase nada sei sobre ele.

Nas reuniões presenciais havia sempre uns minutos antes e depois. Falava-se do percurso de cada um, dos projetos, das preocupações. Às vezes nasciam amizades. Outras vezes, uma conversa aparentemente lateral bastava para perceber que não partilhávamos os mesmos valores éticos. Informação que não aparece no balancete, mas que pode evitar problemas muito maiores do que um erro de classificação contabilística.

Também a relação com os serviços públicos entrou na modalidade fast. Enviamos pedidos por plataformas, recebemos respostas sem assinatura e, por vezes, já nem sabemos se alguém leu o que escrevemos ou se um sistema encontrou uma palavra-chave e decidiu que estava tudo esclarecido. A resposta chega depressa; o problema continua connosco.

Lembro-me do tempo em que, de tantas visitas a uma repartição, acabávamos por conhecer os funcionários. Havia quem nos explicasse um procedimento menos conhecido ou ajudasse a identificar o caminho certo para resolver uma situação urgente. Não se tratava de pedir favores nem de contornar regras. Tratava-se de conseguir falar com alguém que compreendia a questão, em vez de receber pela terceira vez a indicação para consultar uma página que já tínhamos lido quatro vezes.

Não sou contra a tecnologia. Sem ela, provavelmente passaria as férias a transportar pastas de faturas para a praia, ocupando o lugar do chapéu de sol. A videoconferência poupa deslocações; os serviços digitais podem poupar filas. Mas a velocidade só representa progresso se nos deixar mais tempo para pensar, decidir e viver. Se cada minuto poupado servir apenas para marcar outra reunião, criámos um imposto sobre o tempo livre, cobrado à taxa máxima e sem direito a dedução.

Talvez a Slow Contabilidade comece com gestos simples: uma reunião sem outra imediatamente a seguir, uma pergunta adicional antes de dar uma resposta automática, um telefonema quando um email não consegue explicar o problema. E, no fim do dia, tempo para os clientes, os amigos e a família que nenhuma aplicação consegue arquivar por nós.

Porque a vida não tem declaração de substituição. E quando chegar o prazo de a entregar, será tarde para corrigir os momentos que não vivemos.

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