Marcia Lima

Entre Portugal e França, Márcia Lima construiu um percurso artístico marcado pela interpretação, encenação e pedagogia teatral. Licenciada em Teatro pela ESMAE, no Porto, e antiga estudante estrangeira do Conservatório de Paris, encontrou em França o espaço ideal para aprofundar a sua formação e ampliar horizontes artísticos, sem nunca perder a ligação às suas raízes portuguesas. Atriz, encenadora, professora e voz-off, soma mais de três décadas dedicadas às artes performativas. Participou recentemente nos filmes Les Capone attendent un bébé, de Gaël Leforestier, e Les Talents d’Achille, de Ged Marlon, enquanto no teatro tem assinado encenações de autores como Feydeau, Molière e Ionesco. Paralelamente, desenvolve um intenso trabalho pedagógico junto de jovens, adultos e refugiados, defendendo o teatro como uma poderosa ferramenta de inclusão, expressão e encontro humano. Nesta entrevista, fala-nos do seu percurso entre duas culturas, dos desafios da criação artística e da paixão que continua a alimentar uma carreira feita de palco, partilha e descoberta.

A sua formação começou cedo, entre Portugal e França. De que forma esses dois universos culturais moldaram a atriz e encenadora que é hoje?

Hoje é difícil separar essas duas culturas dentro de mim. Sou uma atriz portuguesa que cresceu artisticamente também em França, e acredito que é precisamente desse encontro, entre as minhas raízes e tudo o que fui descobrindo ao longo do caminho, que nasce grande parte da minha identidade artística.
Depois veio França e, com ela, um outro universo artístico, outras referências e outras formas de trabalhar e de pensar o teatro. Portugal deu-me as raízes, a língua, a emoção e uma maneira muito visceral de sentir. França trouxe-me outras ferramentas, outras exigências e uma enorme abertura artística.
Por isso, quando penso no início do meu percurso, penso sobretudo nas pessoas. Comecei rodeada de pessoas apaixonadas, generosas e profundamente humanas, e acredito que isso marcou para sempre a atriz e a professora que sou hoje.
Comecei ainda no liceu, onde tive a sorte de ter como professor de Filosofia e encenador Afonso Fonseca, aquele a quem gosto de chamar o meu «pai do teatro». Foi ele que me empurrou para o grupo de teatro da Escola Sá de Miranda e foi aí que nasceu verdadeiramente a minha paixão pelo teatro.

Faz voz OFF em português para agências em França — como é trabalhar com voz versus trabalho em palco? Que técnicas usa para manter a autenticidade linguística?

A voz e o palco parecem dois mundos diferentes, mas para mim partem do mesmo lugar: a intenção. No palco temos o corpo inteiro, o olhar, o espaço, o parceiro. Na voz-off, tudo isso tem de passar apenas pela voz. É um trabalho muito subtil.

Quando trabalho em português, procuro sobretudo não perder a minha musicalidade natural. Vivo em França há muitos anos, por isso tenho muito cuidado em regressar à escuta da língua, ao seu ritmo, às suas respirações. Não quero “fabricar” um português perfeito; quero que ele continue vivo, verdadeiro e meu.

Nos últimos anos participou em “Les Capone attendent un bébé” e “Les Talents d’Achille”. O que a atraiu nestes projetos e como foi trabalhar com Gaël Leforestier e Ged Marlon?

O que me atrai num projeto é, antes de tudo, o encontro: com uma personagem, com um universo e sobretudo com as pessoas.

Cada experiência de rodagem é diferente e obriga-nos a estar disponíveis, atentos e muito presentes. Trabalhar com artistas com universos tão particulares é sempre enriquecedor porque nos tira dos nossos automatismos. Gosto quando um projeto me surpreende e me obriga a procurar algo que ainda não conheço em mim.

Em teatro assinou encenações como L’Hôtel du libre-échange, de Feydeau. O que a move quando assume a direção de um espetáculo?

Quando enceno, o que mais me interessa é o ator. Posso ter uma visão muito clara do espetáculo, mas não quero impor uma forma fechada. Gosto de descobrir aquilo que cada ator traz e construir a partir daí.

Interessa-me muito o ritmo, o corpo, a escuta e aquilo que acontece entre os atores. Sobretudo na comédia, onde o ritmo é fundamental.

Para mim, encenar é criar as condições para que os atores possam surpreender-se — e surpreender- me.

Em teatro assinou encenações como L’Hôtel du libre-échange, de Feydeau. O que a move quando assume a direção de um espetáculo?

O que mais me inspira é ver alguém descobrir que é capaz de fazer aquilo que pensava não conseguir. Ensino teatro há muitos anos e continuo a emocionar-me quando vejo uma pessoa tímida ocupar o espaço, quando um aluno encontra a sua voz ou quando um grupo começa verdadeiramente a escutar- se.

Não procuro fabricar atores iguais. Procuro dar ferramentas para que cada um encontre a sua própria maneira de estar em palco. O corpo, a voz, a imaginação, a escuta e o prazer de jogar são fundamentais no meu trabalho.

Como equilibra as várias facetas da asua carreira — atriz, encenadora e professora — e o que cada uma lhe traz em termos criativos?

Na realidade, não as separo completamente. Elas alimentam-se umas às outras. Ser atriz lembra-me constantemente o que significa estar vulnerável em palco, procurar, falhar e recomeçar. Ser encenadora obriga-me a olhar para o conjunto e a acompanhar o trabalho dos outros. E ensinar obriga-me a questionar continuamente aquilo que penso saber.

Talvez seja justamente esse movimento que me mantém curiosa. Continuo a aprender enquanto atriz porque ensino, e ensino melhor porque continuo a ser atriz.

Como vive a experiência de ser artista lusófona em França e que pontes procura construir entre as duas culturas?

Vivo em França há muitos anos, mas Portugal nunca deixou de estar presente em mim. Está na língua, na memória, na música, na maneira de sentir e até na forma como conto histórias.

Durante muito tempo estas diferentes pertenças pareciam ocupar lugares separados. Hoje percebo que a minha riqueza artística está precisamente aí: não ter de escolher.

Quero cada vez mais criar projetos que façam essa ponte entre Portugal e França e que permitam ao público francês descobrir também uma parte da nossa cultura para além das imagens habituais associadas a Portugal.

Depois de mais de 30 anos de carreira, o que ainda a entusiasma e que novos desafios gostaria de abraçar? Pode-nos revelar alguns dos seus projetos para 2026?

O que ainda me entusiasma é exatamente aquilo que me entusiasmava no início: não saber completamente o que vai acontecer quando entramos em cena.

Continuo com vontade de aprender, de trabalhar com novos encenadores, de fazer cinema, televisão e voz, mas também sinto cada vez mais a necessidade de participar em projetos que criem pontes entre os diferentes universos que fazem parte de mim.

Em 2026, um dos projetos que ocupa um lugar muito especial para mim é “SAUDADE ou La Dernière Maison  de  Fado”,  um  espetáculo no qual  estou envolvida  como  atriz.  É um  projeto  que  me  toca particularmente porque cria uma ponte entre Portugal e França e aborda temas como a memória, a identidade, as raízes, a família e o fado. É um universo que ressoa profundamente em mim e no meu próprio percurso entre estas duas culturas.

Tenho também a felicidade de continuar a formar-me. Para mim, depois de tantos anos de profissão, continuar a ser aluna é essencial. Um ator que deixa de procurar começa, talvez, a deixar de se surpreender.

Uma mensagem para todos os autores, criadores e artistas do mundo.

Não deixem que o medo de falhar vos impeça de criar.

A arte não precisa apenas de perfeição. Precisa de verdade, de risco, de curiosidade e de pessoas que ainda tenham alguma coisa para dizer.

Num mundo que nos pede constantemente rapidez e resultados, continuemos a defender o tempo da criação, o encontro humano e a liberdade de imaginar.

E sobretudo: continuemos inquietos. Porque talvez seja dessa inquietação que nasce a arte.

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