É apenas uma garrafa…

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Há uma garrafa de plástico junto à estrada. Está ali há dias, talvez há semanas. Ninguém sabe quem a deixou e, tampouco se sabe quem a vai apanhar. Parece não ser problema de ninguém. Não é notícia de abertura de telejornais, não incomoda o trânsito apressado e também não é assunto relevante para constar da agenda da próxima reunião de Câmara. É apenas uma garrafa, pousada na berma, sobre a erva seca que, talvez por obra do acaso ou talvez não, também não foi cortada no seu devido tempo. E é precisamente assim que começa a mudança de uma paisagem, silenciosamente, sem alarme e sem alarmismos, sem escândalos, quase sem darmos por isso.

Alguns dias depois aparece um saco a fazer companhia à solitária garrafa. E como não há duas sem três, a estes juntou-se-lhes, mais tarde, uma embalagem. Depois, uma cadeira partida. Alguns restos de obras indiferenciados. Um velho colchão cheio de história e de estórias da vida das gentes. Um velho frigorífico que perdera utilidade. As lixeiras começam todas assim: há sempre alguém que descobre um sítio escondido e decide que aquele é um bom lugar para deixar a “primeira garrafa”. O primeiro lixo parece uma excepção. O segundo já encontra companhia. O terceiro, cria uma espécie de habituação. E aí reside o perigo: quando os nossos olhos se habituam, deixamos de reparar.

É uma coisa curiosa esta nossa relação com o lixo. Quase ninguém gosta de o ter em casa, mas há quem não veja grande problema em despejá-lo no terreno do vizinho, na berma da estrada, no monte que é de todos ou junto a uma ribeira. Talvez seja assim porque, depois de sair da nossa porta, deixa de ser nosso. Apetece perguntar se o lixo perde o dono no momento em que passa o portão?

Nas aldeias e nos arredores das cidades, sobretudo naqueles lugares onde já há pouca gente, isto torna-se mais evidente. Há caminhos que foram usados durante décadas para chegar às terras, aos moinhos, às fontes ou aos montes e que hoje quase ninguém percorre. O mato cresce descontrolado, os muros que outrora delimitavam propriedades começam a ruir, a vegetação densa toma conta da paisagem. E, por consequência, um lugar que deixou de ser frequentado torna-se também um lugar que deixou de ser vigiado. Chegados aqui, basta então que alguém deixe ali uma coisa. Depois outra. E pouco a pouco aquele caminho, que fazia parte da vida de várias gerações, começa a adquirir outro significado. Deixou de ser um local de passagem para se transfigurar num sítio onde se deixam coisas, vulgarmente designadas por lixo.

O mais estranho é que ninguém se considera responsável por essa transformação. Quem atirou a “primeira garrafa” dirá que foi apenas uma garrafa. Quem deixou o sofá dirá que era só e apenas um velho sofá. Quem despejou os restos da obra talvez diga que não tinha onde os colocar. E todos terão uma explicação e mil e uma desculpas para os seus actos.
Todavia, a chuva não conhece desculpas. Leva a garrafa para a valeta, da valeta para a ribeira e da ribeira para o rio. O que estava escondido atrás de um muro pode acabar muito longe do lugar onde alguém decidiu abandoná-lo. E aquilo que, isoladamente, parecia um gesto sem importância passa a fazer parte de um problema que já ninguém sabe onde começou.
Há uma frase que ouvimos inúmeras vezes quando alguém é chamado à atenção: “É só um.” É só um saco, só uma garrafa, só uma beata, só um papel. Mas é sempre “só um”. É assim que, em pouco tempo, uma encosta se transforma numa extensa lixeira a céu aberto e um rio fica sujo.

Arriscaria dizer que, talvez o problema maior nem seja o lixo. O problema reside no momento em que deixamos de o ver. Passamos por uma garrafa durante semanas e já não nos incomoda. Vemos um monte de entulho junto à estrada e pensamos que alguém devia tratar daquilo. Esperamos pela Câmara, pela Junta, pelos serviços de limpeza, pelo proprietário do terreno. E, naturalmente, muitas vezes há responsabilidades que pertencem às entidades públicas ou aos proprietários. Mas há uma responsabilidade que não começa nos regulamentos aprovados nem termina nos serviços municipais: a responsabilidade de não deitar lixo para o chão. Ora, essa responsabilidade é de todos nós, sem excepção.

É uma coisa pequena, dirão alguns. Tão pequena como a garrafa que alguém deixou na berma, direi eu. Sabemos como começa e também sabemos como acaba.

Talvez tenhamos perdido um pouco daquela velha ideia de que determinados lugares pertenciam a todos. A fonte não era de ninguém, pertencia a todos. O caminho não tinha dono, mas todos o utilizavam. O rio passava pela propriedade de uns e de outros, mas a água não pertencia a ninguém. Havia uma noção simples de que aquilo que era comum merecia algum cuidado no seu tratamento.

Hoje falamos muito de ambiente, de alterações climáticas, de sustentabilidade, de biodiversidade. São palavras importantes, sem dúvida. Mas às vezes penso que o ambiente começa numa coisa muito menos sofisticada: na capacidade de olhar para um lugar e sentir que não temos o direito de o deixar pior do que o encontrámos.

É sempre importante ter uma visão externa sobre os problemas que nos afligem todos os dias. É possível que um emigrante perceba isso melhor quando regressa. Quem vive longe conserva muitas vezes uma imagem antiga da terra. Recorda a fonte de água fresca que brotava da terra, a ribeira que nunca secava, o caminho por onde todos passavam, o monte, a sombra das árvores. Quando volta, depois de alguns anos emigrado, percebe as mudanças que se operaram na terra-mãe. A casa continua no mesmo lugar, mas o terreno ao lado está abandonado. O caminho, esse, começa a ficar coberto de mato. A ribeira ainda não secou, mas já leva menos água. E, algures, um pouco por toda a parte, há lixo.

A distância tem essa particularidade: permite comparar. Quem ficou adapta-se. Quem regressa estranha.
Talvez seja por isso que os emigrantes tenham também uma relação especial com estas pequenas mudanças da paisagem. Não é preciso pedir-lhes que salvem Portugal. Basta lembrar-lhes que aquela terra continua a ser parte daquilo que levaram consigo. E que, quando regressarem, seria bom que ainda pudessem reconhecer alguma coisa.

No fundo, não é preciso transformar cada pessoa num ambientalista. Talvez fosse suficiente recuperar uma coisa mais antiga e mais simples, numa atitude de profundo respeito pelo lugar onde estamos: não deixar lixo no caminho porque alguém vai passar por lá; não atirar uma garrafa para a ribeira porque a água continua a correr depois de deixarmos de a ver; não despejar entulho num terreno abandonado só porque ninguém parece tomar conta dele.

A paisagem não é de ninguém, mas é de todos. E talvez seja essa a primeira coisa que devíamos voltar a aprender.
O lixo começa sempre por ser pequeno. Uma garrafa, um saco, uma beata. A degradação também. O que não sabemos é em que momento deixamos de estar perante uma coisa abandonada e passamos a viver numa paisagem abandonada.
Às vezes, a diferença está apenas no número de pessoas que passaram por ali e decidiram que era “apenas uma garrafa”, que não era problema delas. E é aí que talvez comece o verdadeiro problema.

O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico

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