Macau – A diáspora e o desempenho global de Portugal

Portugal tem em Macau um ativo singular: uma porta de entrada na China onde se fala português, se aplica direito de matriz portuguesa e vive uma comunidade com laços afetivos ao País. Esse ativo tem ainda muito por explorar. Mobilizar a diáspora ligada a Macau — portugueses residentes, macaenses e antigos residentes espalhados pelo mundo — é uma via eficaz e acessível para reforçar a projeção internacional da economia portuguesa.
Macau é a única plataforma formal entre a China e o mundo lusófono. Em 2003, Pequim atribuiu ao território essa função e criou o Fórum de Macau, que junta a China e os nove países de língua portuguesa. A escala em jogo é considerável: em 2025, as trocas de mercadorias entre a China e esses países somaram cerca de 225,8 mil milhões de dólares, segundo dados das alfândegas chinesas divulgados pelo Fórum.

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A esta função soma-se a integração na Grande Baía Guangdong–Hong Kong–Macau. A Zona de Cooperação Aprofundada de Hengqin, lançada em 2021 e gerida em conjunto por Macau e Guangdong, ocupa cerca de 106 km² e contava, em fevereiro de 2026, com 7 782 empresas de capital de Macau. Em 2025, o Governo de Macau anunciou ali um centro de serviços económicos para os países de língua portuguesa e espanhola, e o Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, tem convidado empresas lusófonas de tecnologia e ciência a instalar-se em Macau ou em Hengqin.
Para uma empresa portuguesa, isto significa entrar no mercado chinês a partir de um sistema jurídico reconhecível e com o português como língua oficial. Há ampla margem para crescer: em 2025, os mercados lusófonos representaram 1,06% do comércio externo de Macau.
A diáspora ligada a Macau é maior e mais diversa do que se pensa. O Consulado-Geral estima em cerca de 155 mil os portadores de passaporte português residentes em Macau e Hong Kong. O Observatório da Emigração contabiliza 8 991 residentes de nacionalidade portuguesa em Macau, sem contar mais de 100 mil residentes chineses com passaporte português, o que faz dos portugueses a quinta maior comunidade estrangeira do território.
Esta rede tem três camadas, cada uma com um valor próprio:

  • Portugueses residentes — mais de 2 200 nascidos em Portugal (Censos de 2021), com peso na advocacia, no ensino, na administração e nos tribunais. Conhecem as regras, os decisores e o mercado.
  • Macaenses — comunidade euro-asiática de raízes lusas, hoje dispersa por vários continentes e organizada em Casas de Macau e no Conselho das Comunidades Macaenses, que voltou a reunir a sua diáspora em 2024.
  • Antigos residentes e chineses com passaporte português — quadros que trabalharam no território e empresários locais com laço jurídico a Portugal, muitos com negócios na Grande Baía.

Juntas, estas camadas oferecem aquilo que as agências públicas dificilmente compram: confiança, contactos e conhecimento cultural dos dois lados.
Um potencial por desenvolver
O maior desafio é transformar esta rede dispersa num recurso organizado. A comunidade portuguesa em Macau está em transformação: a chegada de novos residentes portugueses abrandou nos últimos anos, com 14 novas autorizações de residência em 2024, o que torna a renovação geracional uma questão central.
Ao mesmo tempo, a presença empresarial portuguesa concentra-se muitas vezes em feiras e missões pontuais, e as associações da diáspora, muito ativas na cultura e na língua, têm ainda uma ligação limitada às empresas que procuram a Ásia. Aproximar estes dois mundos é onde está o maior ganho.

Sete passos para ativar a diáspora de Macau

  1. Mapear e ligar. Criar um registo voluntário de profissionais e empresários ligados a Macau, integrado em redes já existentes como a Rede Global da Diáspora, para saber quem está onde e em que setores.
  2. Mentores de mercado. Formar uma bolsa de conselheiros — residentes portugueses, macaenses e antigos residentes — que acompanhem PME portuguesas na entrada na Grande Baía.
  3. Aterragem suave. Instalar um espaço partilhado para empresas portuguesas em Macau ou Hengqin, articulado com o novo centro de serviços lusófonos e com as agências de promoção locais.
  4. Facilitar a mobilidade. Favorecer a circulação de quadros, estudantes e empresários entre Portugal e Macau, incluindo melhores ligações aéreas.
  5. Talento bilingue. Multiplicar protocolos entre universidades portuguesas e de Macau, com estágios cruzados e bolsas para jovens macaenses em Portugal.
  6. Das feiras aos resultados. Dar a cada presença em eventos como a MIF e a PLPEX um programa de seguimento de 12 meses, e preparar a participação empresarial na 7.ª Conferência Ministerial do Fórum de Macau, prevista para 2027.
  7. Triangulação lusófona. Usar Macau como ponto de encontro entre empresas portuguesas, brasileiras e africanas para projetos conjuntos com parceiros chineses.

Uma oportunidade a aproveitar
Macau não é apenas memória partilhada; é também uma plataforma de futuro. O interesse é recíproco: em abril de 2026, a delegação de Macau que visitou Portugal incluiu cerca de 120 empresários. A Conferência Ministerial do Fórum de Macau, em 2027, será um novo momento de encontro.
Mobilizar a diáspora de Macau aproveita capital humano que já existe e oferece às empresas portuguesas uma vantagem distintiva na relação com a Ásia. Associações empresariais, universidades e a própria comunidade podem ser os grandes motores desta ligação.

Fundação AEP

Rede Global da Diáspora

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