Natal do Emigrante entre Solidão e Saudade

Natal & Emigração – Conjunção que entrelaça romantismo da época mais festiva e luminosa do ano com a decisão de viajar para, na regra, além-fronteiras na expetativa de procurar e encontrar uma vida melhor – um ato que, recordando a expressão “a salto”, não apresenta uma nuance de um pensar romântico. No entanto, existe uma faceta, que desenha a diferença, de quem festeja no seu país ou em terras longínquas. A faceta da Solidão e Saudade, porque a recordação e a memória dirigem o olhar para o sentimento de outrora, que nem sempre é realista.

Quando o emigrante deixa seu país, leva na célebre “Mala de Cartão”, que hoje é mais moderna, a saudade. Outrora, após a II-Guerra-Mundial, principalmente nos anos 60 durante a ditadura salazarista, a emigração realizava-se “a salto” ou “com contrato”. Entre as mais variadas razões para tão severa decisão, o resultado era para todos igual. Começavam uma vida nova em terras desconhecidas, perante culturas que de início pareciam opostas às vividas, enfrentavam idiomas que não percebiam e muito menos sabiam falar, não pertenciam a nenhuma comunidade, trabalhavam em ofícios, cujos conhecimentos precisavam de aprender, realizavam que não existia um estatuto jurídico para o emigrante e por fim sentiam a saudade de um país, que se chama pátria, mas que não lhe ofereceu futuro.
A palavra Solidão deixou de ser um termo alheio, mas sim uma companheira, que andava acompanhada da Saudade. Situação que deu origem a algo até ao presente momento desconhecido: as Associações Migratórias. Os emigrantes juntaram-se e começaram a fundar sociedades, centros culturais, missões católicas, orquestras, ranchos, grupos musicais … e até jornais. Nos dias de festa juntavam-se nos respetivos salões, que por vezes precisavam de ser restaurados ou construídos, para, como se diz, “matar a saudade das suas terras natais”. Música portuguesa, iguarias de todas as províncias, tradições de todo o país e até missa com um senhor padre português. Momentos em que se esqueciam, que estavam no estrangeiro. Mas ao mesmo tempo criaram a emigração e nasceu a lusodescendência. Era nos dias festivos que realizavam, que precisavam de lutar por direitos e suas novas vidas – vidas com as quais pretendiam oferecer aos filhos um melhor futuro.
O Natal do Emigrante começou a ser uma festa especial. De início não era possível vir a Portugal e festejar com a família e as amizades. Hoje a nova vaga de emigrantes não enfrenta uma ditadura e vive no meio de uma infraestrutura, onde a mobilidade no contexto de meios de transportes facilita viagens e as novas tecnologias com videochamadas juntam as famílias. Mas outrora era impossível. Nas novas comunidades migratórias nasceram novas famílias, que no princípio atenuavam a solidão e saudade. Eis a principal diferença do Natal do Emigrante. As associações substituíram a pátria. Era um mundo de outrora no meio do mundo estrangeiro, que ao longo do tempo começaram a criar laços de integração. Foi a hora do re-nascimento de paradigmas como “Cosmopolitismo” (Sua origem remonta à afirmação de Diógenes de Sinope, que se descreveu como “cidadão do mundo”.) e “Multiculturalismo” (Ganhou relevância nas décadas dos anos 1960/70 – principalmente como contraponto do conceito “Melting Pot”.) na era Pós-II-Guerra-Mundial. Palavras que influenciaram a emigração.
O Natal do Emigrante começou com a Solidão e a Saudade, mas evoluiu para a aceitação e integração das descritas visões na própria cultura Lusitana e estrangeira – um Natal Internacional com raízes de todas as terras natais – migrantes e nacionais. Levaram seu legado para o estrangeiro e ao longo do tempo trouxeram novas tradições para a sua pátria. Entre fronteiras encontraram novos mundos e criaram novas vidas. Uma filhó ao lado do Stollen fazendo companhia ao Bûche de Noël, Panettone ou Plum Pudding deixou de ser algo de estranho nas mesas da emigração e até mesmo nos países de origem. Solidão e Saudade com a Integração criaram novas recordações, que deram origem à memória escrever um diferente Fado de Natal do Emigrante nos novos capítulos da História da Emigração e da Pátria.

Boas Festas.

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