Aprender a Ver com o Tacto
A Integração Multissensorial na Baixa Visão Pediátrica

O desenvolvimento visual na infância é um processo complexo que depende da receção contínua de estímulos. Quando uma criança tem um défice visual grave desde cedo, o sistema nervoso central, graças à sua elevada neuroplasticidade (a capacidade do cérebro se reorganizar), desenvolve mecanismos de compensação adaptativa.
Um dos fenómenos neurológicos mais extraordinários, nestes casos, é a plasticidade cruzada. Na ausência de informação visual adequada, a área do cérebro habitualmente responsável pela visão (o córtex visual) passa também a processar estímulos de outros sentidos, como o tacto e a audição. Em alguma medida, estas crianças aprendem inatamente a ver com as mãos e com os ouvidos. É também por isso que observamos, com regularidade, crianças com baixa visão a desenvolverem uma aptidão táctil e auditiva excecional, atingindo marcos de linguagem mais cedo do que crianças normovisuais. O cérebro privilegia instintivamente as vias que lhe dão respostas mais rápidas e seguras na interação com o meio ambiente. Contudo, esta adaptação esconde um desafio importante. Como a exploração através do toque e do som é altamente recompensadora, existe a tendência natural de focar a aprendizagem exclusivamente nestes sentidos. O perigo reside na negligência involuntária do estímulo visual. Do ponto de vista médico, as vias sensoriais que não são estimuladas acabam por não se desenvolver plenamente ou até atrofiar — um princípio que está na origem da ambliopia, o vulgarmente chamado “olho preguiçoso”. Não usar o resíduo visual, por muito pequeno que seja, compromete ainda mais o seu desenvolvimento.

A reabilitação visual eficaz exige uma estratégia que contrarie esta privação. O objetivo não é substituir a visão pelos restantes sentidos, mas usá-los como facilitadores. É aqui que entra o papel crucial de uma estrutura cerebral profunda chamada colículo superior. Este pequeno centro de integração no nosso cérebro funciona como um “cruzamento” onde existem mapas espaciais sobrepostos: um mapa para a visão, outro para a audição e outro para o tato.
Na prática, isto significa que quando uma criança toca num objeto com textura (ativando o seu mapa tátil) ou ouve um som (mapa auditivo), o colículo superior alinha essa informação e envia um sinal automático que orienta os olhos para esse ponto exato. O tato e a audição funcionam como “âncoras” que captam a atenção da criança e obrigam o sistema visual a focar-se no alvo, treinando ativamente a oculomotricidade (os movimentos dos olhos). Este sistema é também fundamental para a integração dos sentidos e a percepção plena das características de um objeto em concreto, e da realidade em geral.
Em suma, a reabilitação na baixa visão pediátrica vai muito além da prescrição de óculos ou lupas. É feita por todos aqueles que acompanham estas crianças – Pais, Professores, Terapêutas, Médicos, etc. E se compreendermos que o cérebro funciona de forma integrada, percebemos que incentivar a criança a explorar o mundo com as mãos e os ouvidos — aliando sempre cores fortes, contrastes e luzes a essa mesma exploração — é a chave clínica para prevenir a regressão e maximizar todo o potencial visual desta criança.
O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico



