Christophe Fonseca

Com uma carreira marcada por um olhar humanista, uma estética cuidada e uma curiosidade constante pelo mundo, Christophe Fonseca tornou‑se uma das vozes mais singulares do cinema documental e da produção independente. Entre projetos que cruzam memória, identidade e transformação social, o seu trabalho destaca‑se pela capacidade de aproximar o público das histórias que filma, sempre com sensibilidade e rigor. Nesta conversa, exploramos o seu percurso, a sua visão criativa e os desafios de produzir cinema no mundo contemporâneo.

O que o levou inicialmente ao cinema — houve um momento decisivo ou foi um caminho natural?

O meu percurso artístico começou muito cedo. Em criança, passei pelo conservatório de belas-artes e de música, bem como pela dança, pelo teatro e pela fotografia. Cresci dentro dessas linguagens e, com o tempo, percebi que o cinema tinha algo de único: era o lugar onde todas podiam coexistir. A imagem, o som, o corpo, o tempo e a emoção encontravam ali um território comum. Na adolescência, criei com amigos uma associação de cinema em Paris. Fazíamos filmes de ficção em película e revelávamo-los nós mesmos. Foi uma experiência apaixonante, com grande liberdade, e profundamente formadora. Pouco a pouco, deixou de ser apenas uma paixão: foi ganhando consistência até se tornar um verdadeiro projeto de vida. Durante algum tempo senti-me mais próximo da ficção e do trabalho com atores. Mas a descoberta do documentário, quase por acaso, foi um momento de viragem. Percebi que ali existia uma relação mais direta com o mundo e com o humano. Durante a minha formação universitária, trabalhei sempre em paralelo para ganhar experiência profissional. Quando estava a fazer uma campanha para a organização “Repórteres Sem Fronteiras”, descobri esse mundo e tive a oportunidade de trabalhar como repórter. Deixei tudo e parti de impulso. Isso permitiu-me viver experiências muito intensas: dar várias voltas ao planeta, atravessar a Amazónia e desertos africanos, percorrer as grandes cidades do mundo, estar próximo de zonas de conflito, passar do contraste entre um jato privado e uma favela, das prisões aos grandes palácios, viver tragédias profundas e também momentos de felicidade onde menos se espera. Esses choques de realidade foram uma verdadeira escola de humildade e de compreensão do ser humano, uma experiência de vida acelerada que obriga a olhar o mundo com mais atenção e profundidade. Foi aí que compreendi que, para mim, o documentário não era apenas uma forma de cinema. Era uma forma de presença no mundo.

Como descreve a sua identidade enquanto realizador? Há temas ou preocupações que sente que atravessam toda a sua obra?

O meu primeiro documentário abordava a escravatura, e o meu primeiro filme de ficção colocava em destaque a condição da mulher.
Muito cedo senti que o cinema podia ser uma ferramenta de consciência. Abriu-me definitivamente ao mundo e levou-me a atravessar territórios humanos muito distintos. Vejo cada filme como uma ponte: entre gerações, entre memórias, entre pessoas que raramente se cruzam. Ao longo do tempo, alguns temas regressaram naturalmente ao meu trabalho: a identidade, a transformação, a memória e tudo aquilo que permanece no silêncio. Um dos eixos que se afirmou cedo foi a atenção às condições das mulheres, numa altura em que esse olhar ainda não estava no centro do debate. Realizei vários filmes sobre esse tema, acompanhando mulheres nos seus combates na sociedade: desde os primeiros passos em instituições que se abriam pela primeira vez à sua presença, enfrentando preconceitos muito fortes, como no caso das primeiras mulheres bombeiras de Paris, até um documentário distinguido pelo público da “France Télévisions” sobre mulheres cirurgiãs que desafiavam um sistema patriarcal num meio onde a sua presença não era esperada. Mas, mais do que “temas”, interessam-me trajetórias humanas. Pessoas que atravessam barreiras invisíveis, que desafiam lugares pré-definidos e que deslocam o olhar do mundo, mesmo quando o mundo resiste. Acredito profundamente que muitos preconceitos nascem do desconhecimento. O documentário tem esse poder raro de mostrar o que não se via, tornar familiar o que era distante e, ao fazê-lo, abrir o pensamento. Procuro um cinema exigente, mas acessível, com vários níveis de leitura, capaz de tocar tanto quem domina um assunto como quem o descobre pela primeira vez. No fundo, tento fazer filmes humanos: filmes que esclareçam, mas que também toquem emocionalmente, sem excluir o espectador.

Quando inicia um novo projeto, o que vem primeiro: a história, a imagem ou a emoção que quer transmitir?

Na maioria das vezes, tudo começa por uma intuição muito física. Pode ser um encontro, um rosto, uma injustiça que me inquieta, uma beleza que me interpela ou simplesmente uma pergunta que insiste em permanecer. Essa primeira faísca pode surgir tanto num documentário de investigação como num retrato humano ou num filme de arte. O que é comum a todos é a curiosidade profunda e a necessidade de partilhar algo que sinto que merece ser visto. Antes da história ou da imagem, há sempre uma emoção inicial, uma espécie de impulso interior que me diz: “aqui existe cinema, aqui existe sentido”. A partir daí, a construção começa. A história e a linguagem visual desenvolvem-se em diálogo permanente. A emoção abre o caminho, mas é o rigor da construção que permite que o filme respire e encontre a sua forma justa. No documentário, por mais preparação que exista, procuro manter uma grande disponibilidade para o inesperado. Muitas vezes, é precisamente quando o real contraria aquilo que tínhamos previsto que o filme ganha vida própria e se torna ainda mais verdadeiro.

Há algum filme ou realizador que tenha marcado profundamente a sua forma de trabalhar?

No campo do documentário, fui inspirado por vários cineastas; entre eles, Raymond Depardon marcou-me de forma especial, pela atenção ao real e pela proximidade humana, sem artifício nem julgamento. A minha formação fez-se sobretudo na prática. Tive a oportunidade de trabalhar com muitos realizadores, especialmente na ficção. Aprendi muito por convivência: observando, escutando e retendo de cada realizador aquilo que me parecia essencial. De certa forma, fui-me construindo como a soma dessas experiências e dos universos estéticos que atravessei. Essa fase deu-me ferramentas narrativas, sentido de ritmo e uma atenção muito precisa à découpage, que mais tarde transportei para o documentário. Com o tempo, assumi plenamente a minha natureza e formação pluridisciplinar. Nunca me senti confortável dentro de fronteiras rígidas. Para mim, a forma não é uma etiqueta; é um instrumento que deve servir o tema da forma mais justa. A chegada de câmaras mais leves foi também determinante. Permitiu-me desenvolver uma escrita mais móvel e imersiva. Em muitos filmes trabalhei sozinho, em total proximidade com o terreno, procurando tornar-me quase invisível. Essa discrição permite, muitas vezes, aproximar-se de uma verdade mais nua.

Pode descrever o seu processo criativo desde a ideia inicial até ao roteiro final?

Durante a minha fase de repórter, tudo começava por um desejo e por encontros humanos muito concretos: um pressentimento, uma urgência, a sensação de que ali havia algo a revelar. Seguia-se um trabalho jornalístico rigoroso: investigar, cruzar fontes, compreender profundamente o contexto. Mas, quando chegava ao terreno, procurava libertar-me dessa camada teórica. Tentava filmar com abertura máxima, sem ideias demasiado rígidas, deixando que o real reorganizasse o filme. Muitas vezes, o documentário transformava-se a partir do que eu descobria no terreno, e não apenas daquilo que tinha previsto. E há ainda um segundo tempo essencial: a montagem, onde o filme encontra o seu ritmo, a sua respiração e, muitas vezes, o seu verdadeiro sentido. Na ficção e, sobretudo, nos documentários artísticos, o processo é diferente. A minha formação artística leva-me primeiro a uma aproximação sensorial. Gosto de entrar no atelier, observar os gestos e perceber a respiração do trabalho. Antes de ler muito, preciso de sentir a obra. Só depois entro na camada analítica: textos, críticas, arquivo, testemunhos. No meu filme sobre Amadeo de Souza-Cardoso, por exemplo, parti da obra e fui ligando lugares: a casa, o atelier, as paisagens portuguesas, até à recriação de Paris da época de Amadeo. Procurei que o filme respirasse o mesmo tempo interior do artista. O resultado nasce dessa ligação entre o génio de Amadeo, a sua biografia, a geografia e a sensação.

"CHU TEH-CHUN" - A new documentary film on CHU’s life and work  - Extract (English Subtitles)

Os seus documentários sobre artistas têm um registo muito visual. Parte primeiro do arquivo ou de um tratamento narrativo?

Nos filmes sobre artistas, procuro sempre que a forma esteja em coerência profunda com o universo do criador. Lembro-me de uma crítica que escreveu que eu utilizava a câmara como o artista utiliza o pincel. Essa observação aproxima-se muito daquilo que procuro. O ponto de partida é quase sempre sensorial. Aproximo-me da obra sem ideias pré-concebidas, deixando que a matéria, a luz e o ritmo da pintura produzam uma primeira impressão. Só depois construo um mapa narrativo mais consciente. O arquivo é fundamental, mas não é suficiente. O tratamento narrativo ajuda-me a encontrar a dramaturgia interior do artista. No caso do filme Chu Teh-Chun, quis compreender a sua relação íntima com a paisagem. Parti da sua aldeia natal, na China, e refiz a viagem que ele próprio fez através do país no seu tempo, antes de seguir para a Europa. Revisitei os lugares que, de certa forma, se transformaram em pintura. Posteriormente, tentei criar uma linguagem visual coerente com a sua obra. No meu atelier, recriei um processo de tintas dissolvidas, inspirado na técnica que ele utilizava, recorrendo a superposições de imagens num trabalho complexo de montagem. Quis aproximar-me da sua fusão entre tradição chinesa e arte contemporânea ocidental, baseada na dissolução e na sobreposição de camadas. Assim, procurei não apenas explicar a sua técnica, mas fazê-la sentir de maneira visual e sensorialmente. Interessa-me mobilizar simultaneamente a inteligência intelectual, emocional e sensorial do espectador, criando uma verdadeira imersão no universo do artista.

Há um artista, tema ou forma que ainda não explorou e que gostaria de filmar?

O meu percurso sempre foi guiado pela curiosidade e pela vontade de experimentar. Comecei pela ficção, tanto em registos mais clássicos como em propostas mais experimentais. Um dos meus primeiros projetos foi uma experiência coletiva inspirada no “cadavre exquis” surrealista: éramos vários realizadores a construir o mesmo filme em cadeia, cada um continuando a partir do último plano do anterior, sem saber o que tinha sido feito antes. Só no final descobríamos o filme completo, numa projeção off no Festival de Cannes. Anos depois, estava a realizar um documentário de investigação para o Canal+, revelando um escândalo no setor bancário de grande escala que conduziu a um processo parlamentar de regulação do sistema financeiro. Nos meus filmes sobre arte, utilizo frequentemente filmagens em estúdio com projeções de cenários e dispositivos visuais específicos. Mais recentemente, criei obras imersivas em contexto de arte contemporânea, com filmes projetados em todo o espaço de uma sala para o centro de artes de Genebra e para o museu de arte moderna em Xangai, bem como experiências em realidade virtual. Tive a sorte de me poder exprimir em inúmeros géneros. Sempre que sentia que tentavam enquadrar-me num estilo único, sobretudo quando um determinado género tinha sucesso, eu ia onde o meu instinto me levava. Fugia do já conhecido. Preferi experimentar, mesmo quando isso não seguia uma lógica confortável de carreira. Nunca me senti confortável dentro de fronteiras rígidas entre géneros. Procuro adaptar a forma ao tema e aprender com linguagens diferentes. Hoje interessa-me particularmente trabalhar em zonas cada vez mais híbridas, onde o real e a construção cinematográfica se encontram com transparência. A docu-ficção, no meu último filme “Au-delà du silence”, por exemplo, permite dar corpo a memórias fragmentadas, histórias que por vezes não têm arquivo, mas têm verdade. Se tenho um desejo para o futuro, é continuar a ir ainda mais longe nessa liberdade formal, criando filmes sem fronteiras, onde as linguagens se misturam ao serviço do tema e onde a minha visão se torne, cada vez mais, uma linguagem sem códigos.

O que o fez realizar Au-delà du silence, e que mensagem espera que o público guarde?

Au-delà du silence (Para além do silêncio) é um filme muito especial para mim. É um projeto que sonho realizar desde a infância e que esteve, de certa forma, na origem do meu desejo de cinema. Eu precisava de contar esta história. É a história da imigração portuguesa: homens e mulheres que recusaram a fatalidade, fugiram da ditadura, da guerra e da miséria, atravessaram fronteiras a pé, muitas vezes arriscando a vida, movidos pela promessa de um futuro melhor. Muitos chegaram a bairros de lata em França, como o de Champigny-sur-Marne, nos arredores de Paris, que foi um dos maiores da Europa e uma plataforma central da imigração portuguesa, não só para França, mas para toda a Europa. Esta história é também pessoal: parte da minha família passou por esse lugar. Durante muito tempo, estas pessoas foram tratadas como “invisíveis”, apesar de uma coragem extraordinária, de grande abnegação e de uma solidariedade impressionante que ali nasceu. É uma epopeia feita de dramas, tensões e dificuldades, mas também de momentos de festa, de resistência e até de “milagres” humanos. Ao longo de décadas de pesquisa, reencontrei inúmeros percursos, alguns absolutamente inesperados. O que me parecia essencial era que esta história fosse contada por quem a viveu, com as suas próprias palavras. Muitos permaneceram em silêncio e vários nunca tinham contado tudo nem aos próprios filhos. São vozes que importa ouvir antes que se apaguem. Sinto essa urgência. Espero que o filme funcione como um dever de memória, mas também como uma ponte para o presente. Porque esta história ultrapassa o tempo e os grupos: é a história eterna de quem parte, de quem chega, da exclusão, da integração e do desejo de dignidade. Se “Para além do silêncio” ajudar a nossa sociedade a olhar de forma diferente para aqueles que hoje são julgados ou rejeitados, então terá cumprido algo essencial.

Pode-nos revelar alguns dos seus projetos para 2026?

O ano de 2026 será marcado pela estreia de Au-delà du silence nas salas de cinema. Sinto que é um momento particularmente aguardado pela comunidade portuguesa, mas espero que seja também um momento de abertura para todos. Desejo que o filme ajude a libertar memórias que permaneceram guardadas durante décadas. Sinto nas gerações mais jovens uma vontade real de compreender esse passado e de fazer perguntas. Espero que incentive filhos e netos a interrogarem os seus pais e avós antes que essas vozes se apaguem. Para mim, é essencial que cada família possa transmitir a sua história. Quando a memória circula, deixa de ser apenas passado e transforma-se em legado vivo.

Uma mensagem para todos os autores, criadores e artistas do mundo.

Vivemos um tempo de incerteza e de retração. Em muitos lugares, sente-se um movimento de fecho, medo do outro e perda de escuta. É precisamente nestes momentos que o papel dos artistas se torna essencial: reabrir o sensível, devolver complexidade ao mundo e lembrar a dimensão humana por trás do ruído. Gostaria sobretudo de deixar uma palavra especial aos mais jovens que hesitam em seguir este caminho. Quando olho para o meu percurso, vejo que os filmes que realizei ou produzi foram vistos por centenas de milhões de pessoas, em mais de 120 países, e apresentados em lugares de grande prestígio, como o Louvre, em Paris, ou o MoMA, em Nova Iorque. E, no entanto, nada disso era imaginável no início. Eu era uma criança tímida, filho de imigrantes que passaram por um bairro de lata, crescido em França, num contexto onde a sociedade muitas vezes sugere que não se deve sonhar demasiado alto. Ainda assim, ousei sonhar, inspirado pelo exemplo da minha comunidade, que atravessou fronteiras arriscando a própria vida. Cada vez que uma porta se fechava, pensava neles para continuar. E, passo a passo, esse sonho ganhou forma. Por isso, a minha mensagem é simples: não deixem que vos diminuam. Quando uma porta se fecha, não é uma sentença, é um teste. Persistam. Trabalhem com verdade. Aprendam com humildade. Continuem a caminhar, mesmo quando o caminho parece improvável. Sonhem alto e sem pedir licença. Porque, mais vezes do que imaginamos, tudo começa exatamente aí: no momento em que alguém decide acreditar que é possível.

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