Eça de Queiroz – Parte I

Do mais “alto lugar” queirosiano. Entre a ficção e a realidade

Percorridos os três quilómetros que nos trouxeram vagarosamente da Estação Ferroviária de Aregos até à Casa e Quinta de Vila Nova, em Santa Cruz do Douro, e descansando, agora, à sombra dos ramos da parreira que refrescam a esplanada natural do Restaurante de Tormes, apetece-nos, ainda, repetir o que Zé Fernandes e o seu amigo Jacinto iam murmurando, pelo mesmo caminho:

  • Que beleza!
  • Que beleza!

Poucas horas antes, ainda no comboio, ali para os lados da Régua e de Mesão Frio [o meu Príncipe] “murmurava, no seu primeiro encanto de iniciado: – Que doçura, que paz…”
Estas exclamações de extasiados louvores à Natureza, a caraterizar e sublimar a paisagem duriense circundante, eram assobiadas pela companhia de um franciscano “irmão melro”. E são elas da ordem da fantasia romanesca, mas não fique sem dizer que o autor de “A Cidade e as Serras”, quando subiu, ele próprio, as mesmas veredas para chegar à única habitação que, de sua propriedade lhe coube em vida, por via da herança da mulher, Emília de Castro, ocupada em Paris com os “adorados meninos”, lhe escrevia, de seguida, nestes termos:

“St.ª Cruz é inteiramente de outra natureza. É extremamente belo. O caminho íngreme e alpestre da estação até à quinta é simplesmente maravilhoso.
Vales lindíssimos, carvalheiras e soutos de castanheiros seculares, quedas de água, pomares, flores, tudo há naquele bendito monte,” (Santo Ovídio, Porto, 28 de maio de 1892).
Não é, porém, devido exclusivamente a este paraíso da serra, que se ousa, neste apontamento, falar de um sítio especial na geografia da vida do escritor, ou de um significado particular para o romance referido, objeto de sucessivas e muito diferentes leituras, ao longo dos tempos.

Por certo, é consensual que, tanto na geografia da vida como, sobretudo na referência mais global da obra, é a cidade de Lisboa, metáfora de todo um país, que ocupa um lugar central, já porque na perspetiva de quem lhe analisa criticamente os textos, é apontada como “a personagem capital das páginas queirosianas”, como, por declarações do próprio e testemunho de amigos – ao contrário do que, aqui e além, possa parecer – amou esta cidade, por onde muito gostava de passear, por exemplo, com um dos seus amigos mais íntimos:

“Alta noite, quando a excitação do trabalho e do café nos havia quase alucinado, saíamos pelas ruas desertas do Bairro Alto – ou estendíamos as nossas explorações à Mouraria, à Alfama, em volta da Sé e pelas encostas mouriscas e fadistas do Castelo de São Jorge, a examinar a fisionomia fantástica, e quase humana, das casas antigas, algumas ainda então, nesses bairros mais ou menos medievais” (Jaime Batalha Reis, Introdução às “Prosas Bárbaras”).
Muitos outros são, porém, os “sítios” que, excluindo a análise literária mais englobante, da obra como um todo, ou daquilo que, decorrente dessa análise se convencionou, com maior ou menor justeza, designar das três ou quatro “fases” da mesma, nos podem acrescentar motivação à sua leitura, que é o mais desejável. A quem, justamente, pretende juntar ao simples prazer de ler, a compreensão mais funda do legado queirosiano, abundantes são os trabalhos académicos, em Portugal e no estrangeiro, a quem vamos acumulando a dívida de lançar novas luzes sobre os romances e outros escritos, como é, desde logo, e para referir apenas os tempos mais recentes, a “Edição Crítica”, sob a coordenação do Prof. Carlos Reis.

Desta “Casa”, entre seminários internacionais e Cursos de Verão, tem saído periodicamente a “Queirosiana” com estudos extensivos a toda a sua Geração.
Esta é, por isso, uma nota despretensiosa. Partilho com o leitor algo do que uma visita e um olhar sobre o horizonte desta esplanada – parte da antiga eira e logradouro do beiral da Casa, integrados no restaurante novo – onde um sem número de visitantes experimentou já o prazer simultâneo de como Jacinto ia “ressuscitando” para uma vida nova, o desfrute da paisagem que descreveu, como ninguém, e, por essa via, a antevisão do deleite de novas leituras.
E já cá voltamos, a muito do que nos diz dessa obra, todo este deslumbrante horizonte do “douro verde”, para referir que, antes, ou depois, ou – na impossibilidade de aqui chegar, de viatura, de comboio, de barco, ou a pé – podem os meus amigos, a qualquer hora, e em qualquer sítio, empreender uma viagem virtual por todos estes espaços, memórias e objetos, bastando para isso, ligar um computador ou um smartphone, logo no início do site da Fundação Eça de Queiroz.

Parte II

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