Editorial setembro

Caros Leitores,

Setembro chega com a cadência dos recomeços, com o regresso às rotinas e a memória ainda quente dos caminhos percorridos durante o verão. É nesse tempo de passagem que a Obra de Capa de Manuel Casimiro nos convida a olhar de novo para uma imagem que julgávamos conhecer: uma Mona Lisa revisitada, onde a apropriação, a transformação e a multiplicação de sentidos fazem da pintura digital um território aberto à imaginação. O texto de Rodrigo Magalhães acompanha esta intervenção casimiriana e lembra-nos que ser original também pode significar recriar, acrescentar e devolver ao olhar uma obra renovada. Da arte que se reinventa passamos à força de uma comunidade que também procura novas formas de se afirmar: a AILD inicia um novo capítulo, com uma direção renovada e uma missão cada vez mais clara de unir, valorizar e representar os 31,19 milhões de lusodescendentes espalhados pelo mundo.

E porque setembro é, para muitos, o mês do regresso a casa — ou da partida de volta ao país onde se construiu uma vida —, Gilda Pereira conduz-nos por uma reflexão sobre a saudade, os reencontros e os novos ciclos que acompanham os emigrantes portugueses. A ideia de construir o futuro exige também decisões sólidas no presente, e é essa visão integrada que encontramos na conversa com a Axist Business Partners, empresa associada desta edição, dedicada ao diagnóstico, ao planeamento e à estruturação de projetos de investimento. Entre estratégia e compromisso, chegamos à nossa grande entrevista: Isabelle de Oliveira, professora da Sorbonne e presidente do Instituto Português das Doenças Neurodegenerativas, fala-nos de duas pátrias, de ciência, de família e da responsabilidade de transformar uma experiência de dor numa plataforma de conhecimento, ação e esperança. O seu percurso é, acima de tudo, uma história de pontes — entre Portugal e França, entre a academia e a sociedade, entre a investigação, os profissionais de saúde, os cuidadores e as famílias.

Da construção de pontes entre pessoas e instituições seguimos para as pontes que a História nem sempre soube reconhecer. Em Macau, Rita Santos analisa o novo plano quinquenal e o papel estratégico que a região pode desempenhar como elo de ligação entre a China e os países de língua portuguesa, incluindo a importância de um centro de arbitragem para aproximar sistemas jurídicos e oportunidades económicas. Depois, Joaquim Magalhães de Castro leva-nos pelos caminhos do Brasil para reencontrar gaúchos e tropeiros no Rio Grande do Sul, recuperando presenças portuguesas que a memória oficial tantas vezes deixou na margem. Na rubrica Artes e Artistas Lusos, João Simões revela uma obra nascida entre a terra, a memória e a experimentação, cruzando desenho, pintura, escultura e assemblage numa linguagem onde a infância da Beira Baixa continua viva.

A relação com o futuro passa também pela forma como usamos as palavras. Em “A lista negra do greenwashing”, Vítor Afonso desmonta as promessas ambientais vagas e observa a nova exigência de provar aquilo que as marcas afirmam ser sustentável. Para os mais novos, Luso-Criança prossegue as suas “Noções básicas sobre política” e distingue Estado, nação e povo, preparando a continuação de uma viagem essencial pelo funcionamento da democracia. E porque há saberes que se guardam na mesa e na memória, “A gratidão e a insuperável excelência das frutas” celebra sabores, receitas e tradições que atravessam gerações.

É justamente na gratidão que encontramos o grande destaque do nosso suplemento. “Obrigado e Boa Viagem” acompanha a iniciativa da AILD e da Fundação AEP, que, em 2026, voltou a reconhecer os emigrantes e lusodescendentes no momento do regresso aos países onde vivem, estudam e trabalham. De Vilar Formoso ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro, entre sacos com produtos portugueses, abraços, sorrisos, sorteios e palavras de carinho, este projeto transforma uma despedida num gesto de pertença e lembra-nos que quem parte continua a fazer parte de Portugal. Depois do afeto que acompanha cada viagem, a secção Saúde e Bem-Estar chama a atenção para um tema tão comum quanto frequentemente desvalorizado: as quedas, os seus riscos, as lesões e as formas de tornar os espaços e os comportamentos mais seguros.

A ligação entre a diáspora e o desenvolvimento do país é aprofundada por Paulo Dinis, que defende uma verdadeira política de captação de investimento estrangeiro capaz de reconhecer o potencial económico das comunidades portuguesas no mundo. Essa reflexão encontra um rosto concreto em Rafael Dias, de Viseu para Bruxelas, protagonista de mais um “Retrato da nova emigração”: um jovem engenheiro informático que fala de oportunidades, adaptação, comunidade, saudade e da coragem necessária para escolher um caminho diferente. E, quando as palavras cedem lugar às imagens, Gonçalo Lobo Pinheiro oferece-nos, pela sua lente, um Macau de silêncio, revelação e contemplação, onde a geometria urbana e a vulnerabilidade humana se encontram em instantes de rara densidade.

A mala de cartão regressa depois como símbolo de todos os que partiram levando sonhos, esperança e desespero, mas também a vontade de construir uma vida nova. Em “O Sonho da Emigração na Mala de Cartão”, a viagem torna-se memória coletiva e o fado do emigrante reencontra as antigas despedidas, os novos caminhos e as diferentes formas de chegar. No capítulo dedicado à língua, descobrimos que falamos uma língua bastarda — e deliciosa precisamente por isso —, feita de encontros, desvios e reinvenções. E terminamos com uma questão muito concreta: em “O preço não é o custo”, a fiscalidade recorda-nos que o valor de uma decisão não se mede apenas pelo número que aparece à partida, mas pelas consequências que esse número produz.

Assim se constrói esta edição: entre a obra que se reinventa e a comunidade que se afirma, entre a ciência e a memória, entre os caminhos do Brasil e as partidas da emigração, entre a saúde, a sustentabilidade, a língua e a economia. Uma revista sobre aquilo que somos quando atravessamos fronteiras — e sobre tudo o que continua a ligar-nos, mesmo quando a distância parece maior. Setembro começa, mas as histórias continuam.

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