Emídio Sousa

Portugal Nação Global

© Descendências/Tiago Araújo

Para Emídio Sousa, Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Portugal já não se limita ao território que se vê no mapa. É neste contexto que surge o conceito de “Portugal Nação Global”, uma rede económica e cultural que visa unir portugueses e lusodescendentes em todo o mundo, transformando afetos e identidade em oportunidades concretas de desenvolvimento. A primeira materialização deste conceito acontecerá nos dias 29 e 30 de abril, e reunirá empresários pequenas e médias empresas nacionais e municípios. O objetivo é claro: apresentar oportunidades de investimento, criar parcerias estratégicas e impulsionar o desenvolvimento territorial, sobretudo no interior do país. Para Emídio Sousa, trata-se de um primeiro na criação de uma comunidade portuguesa global que fixe talentos, atraia investimento e projete Portugal como país moderno e competitivo.

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Territórios de baixa densidade, com desafios demográficos e necessidade de reindustrialização, podem encontrar neste encontro uma oportunidade transformadora. Existe alguma estratégia concreta para garantir equilíbrio territorial e evitar que os fluxos de investimento se concentrem maioritariamente nas áreas metropolitanas tradicionais?

Claramente, o projeto “Portugal Nação Global” tem uma componente muito significativa de presença dos municípios. Aliás, eu diria que assenta em quatro grandes ideias estruturantes.
A primeira é o próprio conceito de nação. O que estamos a propor é que deixemos de olhar para Portugal apenas como um espaço geográfico delimitado e passemos a entendê-lo como uma comunidade de pessoas espalhadas pelo mundo. Se mudarmos essa perspetiva – se substituirmos o conceito estritamente territorial por um conceito humano e comunitário – percebemos que somos, na verdade, uma das maiores nações do mundo.
A segunda componente é o apelo direto aos empresários da diáspora. Existem muitos portugueses no estrangeiro que alcançaram grande sucesso. O português tem sucesso em muitas geografias e, muitas vezes, mantém a vontade de regressar ou de se voltar a ligar à sua terra. O que estamos a fazer é chamá-los. Mas com uma inovação relativamente a tentativas anteriores: queremos promover encontros diretos entre empresários, frente a frente, criando oportunidades reais de contacto, de troca de cartões, de partilha de interesses comuns e, a partir daí, de desenvolvimento efetivo de negócios.
A terceira dimensão é a presença ativa dos municípios. Estou a desafiar os presidentes de Câmara a apresentarem, num curto espaço de tempo – num pitch de cinco minutos – as oportunidades de investimento dos seus territórios. Esta é, na minha perspetiva, uma oportunidade extraordinária para qualquer município, e muito particularmente para os do interior. Num único momento, o presidente de Câmara poderá ter à sua frente dezenas ou mesmo centenas de empresários da diáspora – e também empresários nacionais – potencialmente interessados em investir. É uma ocasião única para apresentar a sua terra, os seus ativos e as suas condições de atratividade.
O quarto elemento é talvez o mais ambicioso: a criação de uma verdadeira Comunidade Económica dos Portugueses. Mais do que nos lamentarmos sobre o que fazemos ou deixamos de fazer, importa agir. E esta é uma ideia exigente e estruturante. Quando falo de Comunidade Económica dos Portugueses, não me refiro apenas à dimensão clássica do negócio, da compra e venda. A economia é muito mais do que isso: é a nossa vida coletiva, é a escola, é a cultura, é a confiança que depositamos uns nos outros e nas instituições. Trata-se de criar uma rede em que, em qualquer parte do mundo, um português saiba que pode contar com outro português – que pode pedir informação, aconselhamento ou um primeiro apoio sempre que necessário.
Este projeto é, naturalmente, um primeiro degrau. A vertente dos negócios é a mais imediata e apelativa para iniciar este caminho, mas a ambição é muito maior. O interior do país, em particular, tem aqui uma oportunidade relevante. O que permite a um município do interior atrair ou manter população é, antes de mais, o emprego. Sem emprego, as pessoas continuam a sair. Alguns permanecerão nas atividades tradicionais, mas a maioria procurará novas oportunidades. Se conseguirmos atrair investimento, captar empresas e desenvolver os nossos territórios, estaremos a criar condições para fixar jovens e, eventualmente, para atrair novos residentes. É isso que está subjacente a este projeto.
É uma visão ambiciosa. Se correr bem, acredito que poderá representar um marco importante na forma como encaramos o que é ser português e na maneira como entendemos a nossa nação.

© Descendências/Tiago Araújo
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Durante décadas, a promoção dos territórios portugueses junto da diáspora esteve muito associada à cultura, à gastronomia e às tradições locais. No contexto do “Portugal Nação Global”, acredita que essa dimensão identitária pode, ou deve, evoluir para uma apresentação mais estruturada das oportunidades económicas de cada município, capaz de captar a atenção de investidores de forma concreta e estratégica?

Sim, essa dimensão cultural é muito forte e continua a ser uma realidade. Quando vamos ao estrangeiro, encontramos uma verdadeira cultura de saudade nas nossas comunidades. O rancho folclórico é muitas vezes uma referência central, tal como o bacalhau, o vinho, o azeite, o pão ou o pastel. Esse mercado existe e funciona. Há uma ligação emocional muito profunda a esses símbolos. Mas chegou o momento de darmos um salto mais ambicioso.
A minha ideia é que os presidentes de Câmara, além de levarem o vinho tradicional da sua terra ou a garrafa de azeite – produtos de excelência que naturalmente nos orgulham – levem também o PDM, o Plano Diretor Municipal. É tempo de não nos limitarmos a apresentar as nossas tradições, por mais valiosas que sejam, mas de mostrarmos também as nossas oportunidades concretas de desenvolvimento.
Se conseguirmos captar a atenção de um investidor – seja ele português da diáspora ou estrangeiro – devemos ser capazes de lhe dizer, com clareza: neste território há um lago, há uma montanha com potencial turístico, há património histórico que pode sustentar um projeto hoteleiro; ou então há necessidade de habitação e espaço para construir; ou ainda há terrenos industriais disponíveis para acolher novas empresas.
Ou seja, para além da dimensão afetiva, temos de apresentar a dimensão estratégica. A tradição continua a ser um ponto de ligação, mas deve ser também a porta de entrada para uma proposta concreta de investimento e desenvolvimento. É esse o salto que estamos a propor.

Que papel as Comunidades Intermunicipais poderão ter, também, neste processo?

As Comunidades Intermunicipais, assim como os Governos Regionais e as Áreas Metropolitanas, assumem um papel natural de representatividade dos territórios, uma liderança capacitadora e serão a garantia que o projeto tem uma ligação às estratégias de desenvolvimento numa lógica de complementaridade, especialização e concertação estratégica. Para além disso terão a oportunidade de expor, de forma permanente ao longo dos dois dias do fórum, comunicando todo um universo de 308 municípios, garantindo a representação de todos territórios no espaço de exposição, superior a 1000 metros quadrados nesta 1ª edição.
Desta forma, garantimos escala, coerência estratégica e que todos os municípios podem ser apresentados aos potenciais investidores.

O evento pretende mobilizar empresários de segunda e terceira geração, fundadores de startups tecnológicas, investidores institucionais e executivos em multinacionais. As novas gerações lusodescendentes mantêm a mesma ligação emocional e estratégica a Portugal que os seus antecessores? Que abordagem diferenciada está a ser desenhada para captar esse segmento?

Há, claramente, uma diferença entre a emigração de há 60, 70 ou 80 anos e as novas gerações. A paixão por Portugal continua a existir – isso pude constatá-lo pessoalmente nas minhas visitas ao estrangeiro. No entanto, manifesta-se de forma diferente.
Hoje temos, por um lado, o emigrante tradicional, muito ligado às expressões clássicas da portugalidade e às tradições comunitárias. Por outro lado, temos uma nova geração de emigrantes – muitas vezes ainda pouco integrada nas estruturas associativas – que pode não estar tão presente na vida formal das comunidades, mas que mantém uma ligação forte ao país. A portugalidade continua lá, apenas se expressa de outra maneira.
Há também uma questão de perceção. Para muitos destes portugueses e lusodescendentes, a imagem de Portugal ainda é a de há 50 ou 60 anos. Mas o país mudou profundamente. Hoje temos um Portugal diferente, mais desenvolvido, mais competitivo. Cerca de 14% da nossa emigração é altamente qualificada, e é precisamente essa camada que queremos mobilizar de forma mais estratégica.
Quando falamos de empresários portugueses, faço sempre questão de clarificar: o empresário tradicional é o dono da empresa, mas nas grandes companhias globais essa figura nem sempre existe dessa forma. As grandes empresas têm múltiplos acionistas. Quem tem capacidade de decisão estratégica é muitas vezes o diretor-geral, o CEO, o executivo que lidera a operação ou que integra o Conselho de Administração. É também essa camada de decisão que queremos captar para o “Portugal Nação Global”.
Portugal hoje oferece condições muito relevantes. Somos um país com soluções tecnológicas avançadas, com startups de grande potencial, com um ecossistema empresarial dinâmico. Já não somos apenas o Portugal rural que muitos ainda guardam na memória. Somos um dos países mais desenvolvidos, com capacidade técnica e inovação reconhecida.
Recentemente, estive presente numa sessão com o Presidente do Banco de Fomento, onde interveio um alto quadro de uma multinacional inglesa. Foi feita uma pergunta simples: porque escolheram Portugal para investir? A resposta foi reveladora. Falou da estabilidade governativa, do ambiente empresarial, do contexto económico, da qualidade de vida, da facilidade linguística, das competências técnicas e da mão de obra qualificada. Ouvi um estrangeiro descrever as qualidades de Portugal de uma forma que raramente escuto internamente. Muitas vezes, dentro do país, tendemos a sublinhar apenas as dificuldades. Ali, era alguém do Reino Unido a explicar, com convicção, porque é que a sua empresa ia investir em Portugal.
Portugal hoje é diferente. É mais competente, mais capaz, mais preparado. Formámos uma geração de quadros altamente qualificados que hoje ocupam posições relevantes em algumas das maiores empresas do mundo. É esse novo Portugal – moderno, preparado, competitivo – que estamos a convocar para o “Portugal Nação Global”. É essa realidade que queremos mostrar e mobilizar.

Muitos executivos portugueses em multinacionais não são investidores diretos, mas influenciam decisões estratégicas globais de localização de operações e cadeias de valor. Existe uma estratégia específica para mobilizar essa camada de influência económica que, muitas vezes, permanece invisível?

Claramente que sim. Nas minhas deslocações às comunidades portuguesas nos Estados Unidos, no Brasil, no Canadá e por toda a Europa, tenho procurado, em articulação com os nossos serviços diplomáticos e consulares, identificar esses portugueses – empresários, quadros altamente qualificados, políticos locais, lusodescendentes com influência nas suas áreas de atuação.
Temos vindo, inclusive, a incutir essa cultura dentro do próprio Ministério dos Negócios Estrangeiros: a cultura da identificação estratégica de talento e liderança na diáspora. Não se trata apenas de acompanhar comunidades, mas de mapear capacidade económica, institucional e política. E estamos a chamá-los.
O “Portugal Nação Global” é muito mais do que um evento de negócios. O evento empresarial é o primeiro momento, o primeiro passo. Mas o conceito é mais amplo e pretende evoluir no futuro para abranger também o meio académico, o setor cultural, o desportivo e até a esfera política. Queremos mobilizar todos os emigrantes – não apenas o emigrante tradicional, mas também esta nova geração, com perspetivas diferentes, com uma cultura distinta, com novas formas de encarar a família, a vida e a mobilidade internacional. Queremos integrá-los neste movimento.
Sentimos, aliás, que existe hoje um orgulho crescente em ser português. Os nossos serviços consulares registam um aumento significativo dos pedidos de nacionalidade portuguesa, sobretudo na Europa. Isso demonstra que há uma valorização renovada da ligação ao país.
Portugal é, de facto, um bom país para viver. Costumo dizer que o que nos falta é melhorar o poder de compra e os salários – estamos ainda aquém do que desejamos e do que é possível alcançar. Mas, mesmo assim, poucos países no mundo podem afirmar que têm um Serviço Nacional de Saúde como o nosso. Quando viajamos e conhecemos outras realidades, percebemos melhor o que temos. Se muitos portugueses conhecessem em detalhe o funcionamento de sistemas de saúde noutros países, valorizariam ainda mais o nosso.
O mesmo acontece com a educação universal, com o nível de segurança, com a ação social e com o equilíbrio intergeracional que conseguimos manter. Naturalmente, queremos sempre melhorar. Mas, no contexto global atual, Portugal oferece uma qualidade de vida muito relevante.
Os filhos e netos dos nossos emigrantes começam a reconhecer isso. Começam a perceber o valor da nacionalidade portuguesa e da ligação ao país. E quando falamos destes quadros altamente qualificados que queremos reaproximar, essa base emocional e identitária está presente. Muitas vezes, é esse pequeno fundamento que pode fazer a diferença quando surge a decisão de investir ou de desenvolver um novo projeto em Portugal.

A criação de redes de mentoria intergeracional é apresentada como um dos objetivos estratégicos. Como imagina estruturar esse processo? Poderemos assistir à criação de programas formais de mentoria que liguem empresários experientes da diáspora a jovens empreendedores e startups portuguesas?

Esse é precisamente o cerne do conceito “Portugal Nação Global”. Trata-se de valorizar a experiência de quem já está no terreno, o conhecimento acumulado de quem conhece os mercados, os contextos e as dinâmicas locais. Queremos transformar esse conhecimento numa vantagem estratégica para quem pretende iniciar um processo de internacionalização.
A lógica é simples: quem já está pode apoiar quem quer ir; quem quer ir deve procurar quem já está. É essa a essência da mentoria de que falamos – uma rede de apoio baseada na experiência concreta, na confiança e na partilha de informação qualificada. No fundo, a essência do projeto é o encontro. É a conversa direta. É o modelo B2B. Criar condições para que as pessoas se sentem frente a frente e falem de oportunidades reais. Se uma empresa portuguesa que está a iniciar um processo de internacionalização conseguir encontrar, no outro lado, um parceiro que já opera nesse mercado há vários anos e conhece bem o seu funcionamento, cria-se uma oportunidade evidente para ambas as partes. Para quem chega, reduz-se risco e ganha-se orientação; para quem já está, pode abrir-se espaço para novas parcerias, expansão ou reforço de posição.
É essa dinâmica de encontro, confiança e cooperação que está no centro do “Portugal Nação Global”.

A articulação com a Rede Global da Diáspora, desenvolvida pela Fundação AEP, sugere que “Portugal Nação Global” é a dimensão presencial de uma infraestrutura digital permanente já existente. Como pretende garantir que esta rede não seja apenas uma plataforma de contactos, mas uma estrutura operacional contínua, com acompanhamento, métricas e resultados concretos ao longo do ano?

É precisamente isso que queremos fazer. A nossa ideia passa por transformar o atual site da Rede Global da Diáspora na plataforma do “Portugal Nação Global”, sob tutela do Estado, numa parceria com a AEP.
A escolha da AEP não foi casual. Resulta do trabalho consistente que já vinha a ser desenvolvido. Estamos a falar de uma rede presente em cerca de 133 países, construída com método e conhecimento acumulado. Quando já existe trabalho bem feito, não faz sentido começar do zero. O que fizemos foi reconhecer esse valor e convidar a AEP para uma parceria estratégica.
A intenção é que esta plataforma passe a ser uma propriedade do Estado português, sem prejuízo de mantermos uma entidade parceira responsável pela sua gestão operacional permanente.
Porque há um risco evidente: muitas plataformas, quando regressam exclusivamente à esfera do Estado, acabam por perder dinâmica, atualização e acompanhamento regular. Perdem alimentação, perdem seguimento. Uma parceria com uma fundação empresarial como a AEP pode garantir essa continuidade, essa agilidade e essa gestão ativa. É nesse modelo que estamos a trabalhar.
Quando referi que este é apenas o primeiro passo de uma ideia mais vasta, estava precisamente a pensar nesta dimensão estrutural. O alargamento do conceito ao meio cultural, científico, académico ou desportivo só será possível se tivermos uma plataforma viva, permanentemente atualizada e bem gerida.
Se quisermos integrar a cultura, a academia ou a investigação, temos de alimentar continuamente essa rede. E é isso que estamos a preparar: uma infraestrutura que não seja apenas um momento, mas um instrumento ativo e duradouro.

O envolvimento da AICEP, IAPMEI, Turismo de Portugal e da rede consular indica uma coordenação interministerial rara na política de comunidades. Estamos finalmente perante uma integração efetiva entre política externa, política económica e política territorial, ou ainda há barreiras institucionais a ultrapassar?

Este Governo tem precisamente como objetivo ultrapassar essas barreiras institucionais. E este fórum é um bom exemplo dessa nova abordagem.
Ainda queremos integrar áreas como a agricultura e o desporto, porque o “Portugal Nação Global” tem de ser verdadeiramente transversal. Não pode limitar-se a um setor. Faz parte do programa do Governo que esta visão seja abrangente e articulada.
Durante muitos anos, governou-se por vezes de forma estanque, com cada área a funcionar de modo relativamente isolado. Neste caso, o envolvimento da AICEP é pleno – é um dos grandes parceiros – precisamente porque detém um conhecimento e um know-how muito significativo na área da internacionalização e captação de investimento. O IAPMEI está igualmente envolvido, dado o seu conhecimento profundo do tecido das pequenas e médias empresas, que queremos mobilizar. E o mesmo se aplica aos diferentes ministérios.
Como tenho referido, o “Portugal Nação Global” é uma plataforma ambiciosa e só será verdadeiramente exequível se for transversal a todo o Governo. E é isso que estamos a fazer. Já realizámos reuniões com Secretários de Estado da Economia, das Autarquias, do Mar, da Agricultura, das Florestas, do Turismo, da Cultura, entre outros.
Foram reuniões conjuntas, onde o conceito foi apresentado e discutido, e onde cada área governativa identificou o seu contributo específico. Porque acredito que todos estes setores têm de estar representados neste projeto.
A vontade deste Governo é clara: deixar de olhar para as comunidades portuguesas apenas sob o prisma da saudade, da tradição ou da memória. Queremos vê-las como aquilo que realmente são – um ativo estratégico do país.

Um projeto desta dimensão enfrenta riscos: dispersão de interesses, expectativas excessivas, fragmentação territorial ou sobreposição de iniciativas. Quais são os principais riscos estratégicos que identifica e como está a preparar mecanismos de mitigação?

Como referi, este é o primeiro passo – e temos plena consciência de que existem riscos.
Muitas vezes, os projetos são bons na sua conceção, mas acabam por se perder pelo caminho. Mudam os protagonistas, muda o Governo, não se consolida o trabalho feito, não se assegura a sua transmissão ao sucessor. E é precisamente isso que quero evitar. Por essa razão, estamos a envolver a Direção-Geral neste processo, para que o projeto tenha continuidade institucional, independentemente das circunstâncias políticas. O objetivo é que não dependa apenas de uma pessoa ou de um ciclo governativo, mas que fique estruturado dentro da própria máquina do Estado.
Sabemos que há riscos. No final desta primeira edição, faremos uma avaliação rigorosa. Analisaremos o que funcionou, o que não funcionou e quais devem ser os passos seguintes.
Estou habituado a trabalhar assim – tenho formação em gestão e acredito que os projetos devem ser avaliados com método e realismo. Haverá certamente aspetos que não correrão como previsto. Outros, talvez, irão surpreender-nos positivamente. O importante é fazer o balanço com honestidade e decidir em função dos resultados. Mas há uma regra essencial: só podemos dar o segundo passo depois de dar o primeiro. Este é o primeiro. Depois, com base na avaliação, avançaremos para o seguinte.

Como evitar que “Portugal Nação Global” seja percecionado como um fórum elitista focado apenas em grandes investidores, garantindo inclusão, diversidade geográfica e representatividade das múltiplas realidades da diáspora portuguesa?

Elitista, jamais será. Se considerarmos empresários de sucesso como uma elite, talvez se pudesse dizer isso, mas não é o caso. Basta olhar para o perfil de muitos empresários, tanto em Portugal como no resto do mundo. Venho de uma região que produziu alguns dos maiores empresários portugueses, muitos dos quais sem qualquer formação superior. O mesmo se verifica entre os empresários da diáspora que conheci, no Brasil e nos Estados Unidos: a maioria não tinha formação académica.
Portanto, este fórum nunca será exclusivo para uma elite. Pelo contrário, estamos a convidar empresas de diferentes dimensões, sem qualquer foco apenas nas grandes empresas ou multinacionais. Teremos pequenas e médias empresas, oferecendo-lhes a oportunidade de se internacionalizarem. Quanto aos empresários estrangeiros, também podem ser grandes ou pequenos: não há qualquer limitação quanto ao tamanho da empresa para participar. O espaço está aberto para crescer.

© Descendências/Tiago Araújo
© Descendências/Tiago Araújo

Se o encontro anual se consolidar e escalar internacionalmente, imagina “Portugal Nação Global” como uma marca-país reconhecida globalmente, capaz de competir com grandes fóruns económicos internacionais e posicionar Portugal como plataforma privilegiada de negócios globais?

Esse é o meu sonho. Obviamente, acredito que não vai acontecer rapidamente, mas gostaria muito que se concretizasse.
Uma coisa que já estamos a fazer é registar a marca, e estamos a fazê-lo por uma razão simples: queremos que ela seja livre e que ninguém se aproprie dela. Por isso, estamos a tentar registá-la em nome do Estado português.
Estamos ainda no primeiro grau; não sei quantos graus vamos subir, mas para mim, isso seria o culminar deste evento. Vamos ver até onde conseguimos chegar. Há muitas hipóteses em análise. Tenho várias ideias na cabeça: uma delas seria fazer uma edição bianual, eventualmente alternando entre Portugal e outros países. Mas há muitas possibilidades e não quero adiantar demasiado, porque podemos concluir que algumas não são viáveis ou não devem ser implementadas assim. Por enquanto, há apenas ideias a trabalhar para o futuro. Primeiro, precisamos de ver como tudo corre.

Enquanto responsável máximo pela política das comunidades e filho de emigrantes, que mensagem deixa aos empresários portugueses espalhados pelo mundo que mantêm ligação afetiva ao país, mas hesitam em investir ou expandir para Portugal? Porque devem acreditar que este é o momento certo?

Como disse, Portugal oferece hoje a qualquer investidor condições excecionais, difíceis de encontrar em qualquer outra parte do mundo. Outro ponto importante é a língua: os portugueses falam português. Portanto, quem vier para cá já dispõe de um grande ativo desde o início.
Acredito que, muitas vezes, a dificuldade reside em não conseguir encontrar o interlocutor certo. Hoje, temos agências que fazem um excelente trabalho, como é o caso da AICEP, embora muitas vezes direcionadas para o grande investidor. Quando organizo este fórum e envolvo os municípios, estou a colocar no radar do possível investidor o interlocutor adequado, a pessoa certa para quem quer investir em Portugal. Com os presidentes de câmara presentes, qualquer investidor internacional percebe que tem ali alguém com quem realmente deve falar.
Ao proporcionar ao investidor um contacto ao nível do presidente de câmara, estamos a disponibilizar a pessoa que lhe pode transmitir maior confiança para o investimento. Penso que esta é uma das grandes novidades e uma das maiores forças na construção da confiança do investidor.

O conceito “Portugal Nação Global” não é apenas um projeto, mas uma afirmação estratégica sobre o que significa ser Portugal no século XXI. Ao recordar que existem mais de cinco milhões de portugueses e lusodescendentes espalhados por 178 países (o equivalente a cerca de um terço da população residente) está, no fundo, a propor uma redefinição do perímetro económico, social e até político da nação. Estamos perante uma evolução conceptual do Estado-nação para uma comunidade económica global portuguesa?

Sim, claramente. Aliás, os números dos 5 milhões são os nossos números oficiais, mas os números reais serão muito superiores. Penso que existe um estudo académico de 2017 que aponta para 30 a 31 milhões, e acredito que esse valor seja mesmo real, ou até superior. Os portugueses têm viajado pelo mundo há cerca de 700 anos e têm uma cultura de integração nos territórios onde se estabeleceram muito significativa. Por isso, considero que os 30 a 31 milhões refletem de forma muito mais fiel a verdadeira dimensão da comunidade portuguesa.
A realidade é que sabemos que temos comunidades em 178 países, incluindo grandes territórios como o Brasil, que tem 27 Estados; os Estados Unidos, com 50 Estados; e o Canadá, com 10 províncias. Este é um potencial tremendo.
Esta “nação global” é, de facto, o que costumo chamar uma comunidade económica diferente. Existe trabalho a fazer, é preciso superar expectativas, desconfianças, dificuldades de perceção, e lidar com as características das pessoas e do contexto em que se desenvolvem. Há, portanto, muitos fatores condicionantes. Mas, como digo sempre, este é apenas o primeiro passo. Depois, seguiremos com os próximos.

Durante décadas, a diáspora foi sobretudo analisada sob o prisma das remessas. No entanto, “Portugal Nação Global” propõe algo muito mais ambicioso: transformar essa presença externa numa alavanca estratégica ativa de investimento, exportação, internacionalização e transferência de conhecimento. Como se operacionaliza esta transição de uma lógica financeira passiva para uma lógica estratégica ativa e integrada na política económica nacional?

As remessas dos emigrantes portugueses são, claramente, muito importantes, quer pelos investimentos que trazem, quer pela dinamização económica que geram, por exemplo através do consumo quando vêm de férias. Tudo isto representa remessas significativas para Portugal.
No entanto, há uma evolução no conceito de “Portugal Nação Global”, que se traduz na unidade económica dos portugueses. Acredito que a melhor forma de o nosso país crescer e desenvolver-se ainda mais, e de potenciar melhores salários – que é, na minha opinião, um dos aspetos em que precisamos de melhorar significativamente – passa pelo investimento, pelos negócios e pelo mercado. É precisamente esta visão que está por detrás desta iniciativa.
O mundo dos negócios, do investimento e do empreendedorismo foi e continua a ser, ao longo da história, o fator que faz um território crescer e melhora a vida das pessoas. É isso que está presente aqui. Quando deixamos de ver o emigrante apenas como alguém que envia remessas para comprar uma casa, passar férias ou adquirir bens, passamos a vê-lo como um ativo estratégico.
Este é um fórum de negócio, não apenas num sentido tradicional, mas num sentido global. E torna-se ainda mais disruptivo num tempo em que enfrentamos complexidades geoestratégicas, tarifas e caminhos inversos em vários países. Ao adotarmos esta visão agora, estamos a olhar para o futuro de Portugal. É essa a nossa ambição.

“Portugal Nação Global” pode alterar estruturalmente a forma como o Estado português olha para as comunidades, deixando de as ver apenas como extensão cultural para as assumir como verdadeira infraestrutura económica estratégica. Considera que este projeto pode representar uma das reformas mais estruturais da política de comunidades nas últimas décadas?

Sou suspeito para falar sobre isto, pois estou a falar de mim próprio, do meu governo, do excelente ministro que temos e do excelente primeiro-ministro. Deixo a análise final aos outros, mas acredito que, se tivermos sucesso, estaremos perante uma grande reforma estrutural na relação com as comunidades.

O projeto “Portugal Nação Global” apresenta-se como uma estratégia estrutural de mobilização económica da diáspora, mas escolhe materializar-se publicamente através de um grande encontro anual cujo lema é “Onde o mundo português faz negócios”. Como garante que o encontro não é apenas um momento simbólico, mas sim a porta de entrada para uma infraestrutura contínua de ligação entre identidade, capital económico e desenvolvimento nacional?

A nossa ambição com este fórum é que, no futuro, o conceito de “Portugal Nação Global” envolva vários setores, especialmente o económico. Mas, afinal, o que é a economia? A economia é tudo: é a nossa vida, a escola, o transporte, a confiança que temos para comprar uma casa. Isto é economia.
O fórum “Portugal na Ação Global” começa pelo mundo dos negócios, pela vertente mais comercial. Mas o objetivo é ir muito mais além: queremos chegar à dimensão cultural, desportiva, científica, académica e educativa. A ambição é, portanto, muito, muito grande.

O evento de 29 e 30 de abril de 2026 apresenta metas muito concretas: 180 empresários da diáspora provenientes de mais de 40 países, 150 PMEs nacionais em processo de internacionalização, 50 municípios com políticas ativas de atração de investimento, mais de 200 reuniões B2B previamente agendadas e um pipeline de investimento superior a cinco milhões de euros identificado e em desenvolvimento. Estes números são ambiciosos e implicam uma mobilização diplomática, empresarial e territorial significativa. Que trabalho preparatório está a ser desenvolvido para garantir que estas metas se traduzem em resultados mensuráveis?

Estamos a desenvolver este trabalho há alguns meses.
Nas minhas visitas às comunidades portuguesas, procuro sempre ter encontros com o meio empresarial, com os nossos diplomatas e serviços consulares, e com as Câmaras de Comércio quando existem. Mesmo no meio científico, busco apoio para a identificação de potenciais participantes. Trata-se de um trabalho muito intenso, da minha parte e de toda a minha equipa. Entretanto, já reuni com todos os embaixadores e cônsules, apelando ao seu envolvimento nesta nova cultura de diplomacia económica. Acredito que vamos ter sucesso.
Obviamente, os números que apresentamos são muito prudentes. Este primeiro evento é ainda muito prospectivo, porque não temos histórico suficiente. Sei que, no passado, ocorreram um ou outro evento semelhante, mas que não tiveram o desenvolvimento esperado. Este é um evento pioneiro, ainda exploratório. As métricas que definimos são mínimas, podendo ser superadas ou não. Mas vamos começar a escrever história nos dias 29 e 30 de abril.

A decisão estratégica de adotar um formato “sóbrio e frugal”, concentrado em dois dias úteis intensivos, eliminando programas paralelos e visitas institucionais opcionais, transmite uma mensagem de foco e eficiência. Num contexto em que muitos fóruns internacionais privilegiam espetáculo e dimensão mediática, que sinal pretende enviar ao tecido empresarial da diáspora ao optar por um modelo centrado exclusivamente na criação de valor económico concreto?

A ideia de ser um evento muito frugal foi exatamente essa: queremos que as pessoas se conheçam e que conversem entre si. Se tivéssemos um programa de entretenimento muito extenso, as pessoas acabariam por se desviar do foco.
O foco é falar de negócios, conhecer empresários interessados, encontrar presidentes de câmara e identificar oportunidades de investimento. Esse é o objetivo principal. No entanto, há também uma componente de diversão. Marcámos o evento para os dias 29 e 30 de abril, uma quarta e uma quinta-feira, permitindo depois aproveitar o feriado de 1 de maio e o fim de semana. Assim, quem vem de fora, mesmo de locais distantes, pode prolongar a viagem mais um, dois ou três dias, explorando Lisboa ou outros destinos em Portugal, incluindo atividades culturais e turísticas. A própria escolha da data não foi inocente: são dois dias de trabalho intenso, mas depois deixamos a cada participante a liberdade de organizar o seu programa como quiser.
Acredito que alguém que venha dos Estados Unidos ou do Brasil, investindo tempo e recursos na viagem e estadia, possa querer conhecer a terra, visitar Lisboa, o Porto, o Algarve, ou mesmo a região de onde vieram os seus pais ou avós. Portugal é um país pequeno, e em poucas horas é possível deslocar-se para outro local. A ideia é dar esse espaço para que cada participante possa depois aproveitar o seu tempo da forma que entender.

O objetivo de formalizar pelo menos 15 parcerias estratégicas durante o evento sugere uma orientação clara para resultados tangíveis. Estamos a falar de joint ventures empresariais, protocolos territoriais de investimento, acordos sectoriais ou compromissos institucionais? Que mecanismos de acompanhamento pós-evento estão previstos para garantir que estas parcerias evoluem para investimentos reais e sustentáveis?

Eu sou gestor de base e acredito que, se não tivermos métricas claras para medir o sucesso das nossas ações, podemos sempre dizer que correu muito bem, mas sem sabermos exatamente porquê. Por isso, como gestores, queremos definir objetivos bem quantificados e métricas concretas. Depois, vamos acompanhar o processo: haverá uma descrição detalhada do evento, faremos inquéritos e monitorizaremos os resultados posteriormente.
Diria que, dos múltiplos encontros que vão acontecer, podem surgir apenas alguns negócios, mas o mais importante é que se criem essas conexões e se fortaleça o espírito da comunidade portuguesa.

A identificação de um pipeline mínimo de cinco milhões de euros em investimento é apresentada como meta inicial. No seu entendimento, este valor é simbólico ou estrutural? Existe uma ambição de crescimento exponencial nas edições seguintes, transformando “Portugal Nação Global” numa plataforma permanente e escalável de captação de investimento da diáspora?

Sim, fomos bastante contidos na ambição. Um investimento de 5 milhões de euros não é nada de extraordinário. Neste momento, a nossa métrica é muito prudente. Como digo, não temos histórico associado a este evento, que se realiza pela primeira vez. Por isso, optámos por ser cautelosos na definição da nossa ambição. Só depois vamos perceber realmente o que acontecerá – e pode ser que chegue a 50 milhões. Mas, por agora, quisemos manter a prudência.

Um dos elementos mais inovadores deste projeto é a participação ativa de cerca de 50 municípios, muitos deles com parques empresariais, zonas industriais disponíveis e políticas específicas de atração de investimento. Podemos afirmar que está a nascer uma nova forma de diplomacia económica territorial, em que autarquias dialogam diretamente com empresários globais da diáspora?

Sem dúvida. Não estamos a descobrir nada que já não se esteja a fazer. Eu próprio fui Presidente de Câmara durante 11 anos e Vice-Presidente durante 8, em Santa Maria da Feira, e, durante os meus mandatos, a diplomacia económica tornou-se um dos principais eixos de trabalho. Recordo que, quando fui eleito em 2013, a minha primeira viagem, apenas um mês depois, foi a um evento de negócios em Genebra, na Suíça, onde apresentei as oportunidades de investimento na minha terra. Passados três meses, já levava empresários da área do calçado para a Suíça, para eventualmente concretizarem negócios. A diplomacia económica começou, a partir dessa altura, a integrar de forma mais consistente o papel dos Presidentes de Câmara. Antes disso, não fazia parte, em regra, das funções municipais. Os municípios tinham, quase todos, Gabinetes de Apoio ao Empresário, mas o apoio era muito básico, feito sobretudo através de panfletos para abrir pequenos negócios locais, como padarias, peixarias ou mini-supermercados. Penso que fui pioneiro, juntamente com três ou quatro outros Presidentes de Câmara, ao perceber que era necessário fazer mais para atrair investimento para os nossos territórios.
Fui eleito Presidente em pleno mandato da Troika, quando Portugal enfrentava níveis de desemprego muito elevados e famílias em grandes dificuldades. Naquele contexto, a melhor forma de criar emprego era precisamente através da atração de investimento. Foi nessa altura que fizemos a mala e percorremos o mundo inteiro em busca de oportunidades.
Hoje estou absolutamente convencido de que uma das principais responsabilidades de um Presidente de Câmara é precisamente atrair investimento para o território. É isso que melhora a qualidade de vida das pessoas, fixa residentes, evita a emigração e atrai novos habitantes.
A inclusão dos municípios neste processo é, para mim, fundamental e constitui um pilar essencial do sucesso deste projeto.

© Descendências/Tiago Araújo

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