Novembro, o mês em que o lucro não paga as contas

Há meses em que gerir uma empresa é uma atividade perfeitamente racional. E depois há novembro.
Novembro é aquele mês em que o empresário descobre que a sua conta bancária tem mais pretendentes do que uma herdeira milionária numa aplicação de encontros. Chega o subsídio de Natal, para quem o paga nesta altura, o IVA, particularmente simpático para quem está no regime trimestral, o IMI e, naturalmente, os salários, a Segurança Social, as retenções na fonte e as faturas dos fornecedores. Tudo isto enquanto dezembro se aproxima com a delicadeza de um elefante numa loja de porcelanas, trazendo ainda o terceiro pagamento por conta de IRC.

O Estado, como sempre, é um credor exemplar. Nunca se esquece de cobrar, raramente aceita desculpas e tem uma relação muito particular com o conceito de flexibilidade. O cliente, pelo contrário, é uma criatura bastante mais espiritual. Quando recebe uma fatura a 30 dias, interpreta frequentemente o prazo como uma sugestão filosófica. Aos 30 dias ainda está a analisar. Aos 45 aguarda autorização. Aos 60 o responsável financeiro está de férias. Aos 90 pergunta se podemos enviar novamente a fatura. Entretanto, o empresário continua a pagar salários, impostos e fornecedores com dinheiro que ainda não recebeu. Uma boa gestão de tesouraria começa por duas regras simples: receber dos clientes nos prazos acordados e utilizar inteligentemente os prazos concedidos pelos fornecedores. Não se trata de pagar tarde, mas de evitar pagar antecipadamente sem necessidade. Pagar uma fatura a 30 dias logo no quinto dia pode parecer um gesto de grande elegância empresarial. Mas, sem desconto financeiro, é também uma excelente maneira de oferecer crédito gratuito ao fornecedor. E depois pedir dinheiro emprestado ao banco, pagando juros. Um modelo de negócio fascinante. Sobretudo para o banco.

Recordo-me de uma empresa alemã que acompanhei há alguns anos, quando se instalava em Portugal. Tinha uma estrutura comercial simples e, numa reunião, perguntei quem ficaria responsável pelas cobranças aos clientes. O responsável alemão fez uma pausa, olhou para mim com genuína perplexidade e perguntou:

— Mas por que razão precisamos de alguém para lembrar os clientes de que têm faturas para pagar? Eles sabem perfeitamente quais são as suas obrigações contratuais.
Foi um daqueles momentos em que percebemos que a Europa tem uma moeda única, mas ainda não conseguiu harmonizar o significado da palavra «vencimento».

A empresa dispensou o departamento de cobranças e preferiu recorrer à COSEC, através de um seguro de créditos.
Existem também outras soluções, como o factoring, que permite antecipar o recebimento de faturas, ou o confirming, que permite organizar pagamentos a fornecedores e, em determinadas condições, antecipar-lhes o recebimento.
Nenhum destes instrumentos substitui uma boa gestão de tesouraria. Antes de telefonar ao banco para pedir mais uma linha de crédito, talvez seja aconselhável olhar para os saldos dos clientes, os prazos dos fornecedores e uma previsão de tesouraria para os próximos três meses. Não é tão emocionante como negociar um financiamento, mas costuma ser bastante mais barato.

Porque uma empresa não entra necessariamente em dificuldades por falta de vendas. Pode entrar em dificuldades por vender muito, receber tarde e pagar cedo. E novembro tem o talento especial de revelar essas fragilidades.
No fundo, gerir uma empresa é também saber administrar o tempo que separa o momento em que pagamos daquele em que recebemos. O lucro mede o sucesso económico. A tesouraria determina se conseguimos sobreviver até ao próximo mês. E convém não esquecer uma última verdade: com lucros podemos impressionar os acionistas. Mas é com dinheiro na conta que pagamos o Natal aos trabalhadores.

O Pai Natal, ao que se sabe, ainda não aceita pagamentos em resultados transitados.

Publicidade

Deixe um Comentário

Your email address will not be published.

Start typing and press Enter to search