O fim do Parque Nacional da Peneda-Gerês

“Há sítios do mundo que são como certas existências humanas: tudo se conjuga para que nada falte à sua grandeza e perfeição. Este Gerês é um deles. Acumularam-se e harmonizaram-se aqui tais forças e contrastes, tão variados elementos de beleza e de expressão, que o resultado lembra-me sempre uma espécie de genialidade da natureza” – Miguel Torga. Diário VII. Gerês, 6 de Agosto de 1955. Vem este excerto a propósito de um estudo recentemente produzido por investigadores do Instituto Superior Miguel Torga, de Coimbra, cujas conclusões apontam para o risco de perda de estatuto da Reserva da Biosfera Transfronteiriça Gerês-Xurés. A avaliação da sua continuidade estará em cima da mesa daqui a quatro anos. O motivo apresentado no estudo não deixa de ser surpreendente: a falta de práticas sustentáveis no sector hoteleiro. Ou seja, o estudo concluiu que os cafés, restaurantes, hotéis e alojamentos locais não investem (ou, pelo menos, não o suficiente) em energias alternativas, nomeadamente, em painéis solares. Perante esta conclusão, urge perguntar se a maior ameaça à manutenção da reserva da biosfera do Gerês se consubstancia na não proliferação de painéis solares nas unidades hoteleiras locais. Obviamente que não. Não se queira, pois, colocar o ónus de bode expiatório nos empresários da região do Gerês, pois estes não tiveram, não têm e não terão quaisquer responsabilidades na eventual negação da continuidade do selo de reserva da biosfera atribuído à região pela UNESCO.

Um olhar mais atento sobre a delimitação do mapa da reserva da biosfera do Gerês revela algo surpreendente – dentro das suas portas, (sim, leram bem), dentro das suas portas, está em andamento o processo de reabertura de uma exploração mineira de grande dimensão. Nada mais, nada menos, que a Mina da Borralha, cujas escorrências podem contaminar as barragens da Venda Nova, Salamonde e Caniçada, entre outras.
Posto isto, diga-se o seguinte: ao contrário da abertura de uma mina, que é considerada uma ameaça séria, grave e imediata à integridade da reserva da biosfera, que de facto, poderá colocar em risco a manutenção do seu estatuto, a fraca penetração de energias alternativas em negócios locais deve ser entendida como um desafio menor, passível de mitigação por meio de incentivos, sensibilização das populações e implementação de novas políticas locais.
Importa, pois, entender o que é avaliado pela UNESCO para manter o estatuto de reserva da biosfera. Nesse sentido, o que está em causa é a ponderação do equilíbrio entre vários itens, nomeadamente: conservação da biodiversidade, desenvolvimento sustentável, apoio logístico e conhecimento científico, participação das comunidades locais e plano de gestão, entre outros.
Voltemos ao início desta crónica, mormente ao título, que de alguma forma se apresenta em jeito de provocação: o fim do Parque Nacional da Peneda-Gerês! Esse “fim” pode ter dupla interpretação. Por um lado, o “fim”, entendido como terminus, como ponto final irremediável; por outro, o “fim”, do ponto de vista da finalidade, do propósito, do seu objectivo como organismo vivo. Sobressai aqui algum antagonismo entre as duas possibilidades em aberto – finitude e continuidade.

E, na sequência do que atrás foi dito, a Mina da Borralha estará para a finitude da reserva da biosfera, do mesmo modo que os pequenos empresários hoteleiros estarão para a sua continuidade, não só pelas dinâmicas que criam (servindo a população e os turistas), mas também pela fixação das pessoas à sua terra, ainda que continuem a acender as suas lareiras com lenha e estejam aquém do nível de implementação de sistemas de energias renováveis exigido.
Pergunto: será mais grave a não utilização de energias alternativas pelos pequenos empresários da restauração ou a abertura de uma mina altamente contaminante? A resposta parece-me evidente.
Apesar de todas as vicissitudes, quero acreditar que o Parque Nacional da Peneda-Gerês continuará a resistir e a existir mesmo sob ameaça; e continuará a ser o pulmão verde do norte de Portugal, refúgio de eleição para lobos e águias, e guardião-mor dos rios que ainda correm claros e das aldeias que se recusam a desaparecer. Apesar de todos os contratempos, o Parque Nacional da Peneda-Gerês continuará a ser a residência viva da natureza e o abrigo das tradições ancestrais que teimam em resistir.
O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico




