Uma ilha com nome de País
Ilha de Moçambique, Património da Humanidade

Esta ilha que deu nome ao país – não é um caso único mas é um caso singular – situa-se à entrada de uma bela baía a três quilómetros da massa continental, mede dois quilómetros e meio de comprimento e um quilómetro e meio na sua máxima largura, e percorre-se de uma ponta à outra numa hora apenas. Porém, caso o visitante decida assumir as rédeas do tempo, facilmente aqui estabelecerá um baluarte de sábia resistência à vida de correria e folguedos tolos, já que não é nada difícil ficar rendido aos encantos deste pedacinho de paraíso.
DE MACUTI E PEDRA E CAL
Existe uma clara linha divisória que separa a cidade cristã, ou cidade de pedra, a norte, da cidade indígena, ou cidade de macuti, a sul, constituída pelas palhotas tradicionais africanas, adaptadas ao clima. A amenizar com tons de verde o contrastante espaço arquitectónico, há coqueiros, figueiras da Índia e acácias vermelhas trazidas do Madagáscar.
A frota de Vasco da Gama fez aqui aguada em 1498, mas a ocupação portuguesa só aconteceria oito anos depois. Perpetuou-se a memória desse navegador numa estátua erguida em frente ao Colégio dos Jesuítas onde funciona hoje um museu, contíguo à Igreja da Misericórdia, um excelente local para apreciar o espólio resgatado ao processo de delapidação do património que anos de caos proporcionaram.
Pela sua posição estratégica, fulcral ponto de apoio à navegação, e também devido ao facto de o governo da colónia ter ficado aqui sedeado até finais do século XIX, a Ilha de Moçambique reúne o mais impressionante acervo arquitectónico de origem portuguesa em toda a África
Percorro as ruas de saibro ladeadas por casarões senhoriais com uma traça arquitectónica comum aos que encontramos nas cidades históricas do Brasil, da Índia ou um pouco por todo o Sudeste Asiático. Moradias pintadas de amarelo-torrado com umbrais brancos, varandas e janelas de guilhotina. Protegem as janelas do rés-do-chão finas barras de ferro e, nas esquinas, aferrolhados às paredes, sobressaem bonitos candeeiros de ferro forjado de cor verde e com motivos decorativos, se bem que a ferrugem tenha corroído grande parte deles.

PEDRA DE LIÓS E BURACOS DE BALAS
O café Âncora D´Ouro, propriedade de portugueses, é um bom exemplo desse meritório trabalho de gradual recuperação em curso. Dizem-me que é o melhor local para comer. A preço europeu, saliente-se. Quem opte por comer a preço africano deve dirigir-se à cidade de macuti, onde não faltam botequins ou vendedeiras sentadas nos muros que ladeiam as ruas, ou em frente ao mercado local, disponibilizando iguarias de confecção caseira. Em frente ao Âncora D`Ouro, a fachada branca de uma pequena igreja destaca-se do céu intensamente azul. Ali está instalado o Museu de Arte Sacra, como vem indicado no frontispício com a data 1700, embora a igreja deva ser anterior. A cinquenta metros dali, um pedestal sem estátua ergue-se no meio de uma praça ladeada por várias casas senhoriais bastante degradadas e a longa parede leste do antigo colégio do Jesuítas que se prolonga até uma outra praça, já ribeirinha, pois a banda leste da Ilha de Moçambique é já ali.
Nas ruas o movimento é reduzido. Avisto um ou outro homem de bicicleta e várias mulheres, novas e velhas, com bacias à cabeça e baldes na mão. Vejo-as depois a entrar nos pátios interiores dessas imponentes casas onde se advinham estendais de roupa e crianças a brincar.
Os buracos de balas nas paredes conferem ao local uma atmosfera de ruína de guerra, pois esta também aqui se fez sentir com grande intensidade logo após o dito processo de descolonização.
CALÇADA DE XISTO
A fachada ocre da igreja do Colégio dos Jesuítas, com sino no campanário e um enorme relógio que não há muito tempo parou nas 7.30 horas de um dia qualquer, disputa as atenções com a estátua de Vasco da Gama, erguida numa praça embelezada por um género de calçada à portuguesa bastante peculiar. Aqui, pequenos paralelipípedos de quartzo e xisto substituem os tradicionais paralelipípedos de basalto e calcário que «exportamos» em grande quantidade para sítios como o Brasil ou Macau. O formato geométrico – motivos ondulados escuros sobre um fundo claro – é exactamente o mesmo.
Há nesta praça duas outras estátuas. Figuras femininas semi-nuas, quais estátuas romanas, verdes como os raros bancos de jardim. Só que neste caso, assemelham-se mais a mulheres indianas. Uma delas, em jeito de Estátua da Liberdade, enverga um facho que culmina num candeeiro. A estátua é, na realidade, um simples candeeiro. No metal, vários buracos provocados por balas perdidas é mais um sinal de uma Moçambique outrora dividido. Saliento ainda a existência de um coreto – que não deve ter visto qualquer banda a tocar ali há muito, muito tempo – e do Edifício dos Correios e Telegrafia, o único sítio com computador e acesso à Internet em toda a Ilha. Ou seja, quando se consegue rede, o que nem sempre acontece.
A troco de uns magros meticais, e antes de avançar para a fortaleza de São Sebastião, tomo aqui uma espécie de pequeno-almoço, servindo-me dos deliciosos doces de banana frita caseiros que três meninas de sorriso luminoso transportam em bacias e pequenas caixas de plástico.
Deparo com mais casas em avançado estado de degradação, mas com pequenas hortas onde cresce milho, abóboras e árvores de papaia, o que não deixa de ser irónico.
Num edifício já recuperado, mas com a porta fechada, funciona o Gabinete de Conservação da Ilha de Moçambique, entidade que resulta do esforço conjunto do Governo moçambicano e da Unesco, que, a julgar pelo que vejo, tem imenso trabalho pela frente. As paredes de certas habitações estão de tal modo carcomidas pela erosão que apenas se vislumbram os blocos de saibro e o tradicional chunambo, constituído por areia, conchas e barro, pois essa era a argamassa de outrora. Casas há que nem paredes têm. Noutras, as janelas e portas que restam foram seladas com blocos de cimento e placas de zinco. Apesar de tudo vive ali gente, ou pelo menos há sinais disso. Pobres de hoje albergados nos palácios dos ricos de outrora; o antigo cafre que ocupa o anteriormente inacessível domínio do senhor branco.

A PRESENÇA DO ISLÃO
Sou interpelado por dois vendedores de colares de missangas, as tão faladas missangas! Também me mostram moedas portuguesas. E búzios. São de tal forma insistentes que me vejo obrigado a prometer que irei comprar algo mais tarde. Será difícil não cumprir a promessa, pois a Ilha é uma verdadeira aldeola onde todos se conhecem e todos se encontram ao dobrar da esquina, mesmo que tudo se faça para o evitar. Então, se confinarmos esta realidade à cidade de pedra, as probabilidades de passar despercebido são ainda mais escassas. Na parede do edifício com que me deparo mais adiante uma placa indica que estou perante a «primeira mesquita construída no nosso país, no século XIII». Muito antes da passagem de Vasco da Gama, o reino do xeque Moussa M`Biki (de onde deriva o nome Moçambique) era já um importante centro de intercâmbio comercial e cultural. Como resultado disso, multiplicaram-se etnias e crenças que ainda convivem neste exíguo espaço, apontado como exemplo de ecumenismo, como o comprova a frase «Unidos por Moçambique» escrita nas paredes da mesquita.
Não fosse a ténue chamada para a oração vinda das mesquitas e os barretes na cabeça de alguns dos homens, seria impossível distinguir os muçulmanos dos cristãos ou estes dos hindus. O islamismo está há muito tempo aqui instalado, tal como no Golfo da Guiné, se bem que na costa oriental africana tenha chegado por via marítima e não com as caravanas que estoicamente cruzavam as regiões mais inóspitas do planeta.
FORTALEZA E A MEMÓRIA DE CAMÕES
O bastião leste da fortaleza de São Sebastião está mesmo ali, assente na barreira natural do coral. Quando a maré vazar por completo poderei certamente circundá-la, para assim melhor poder apreciá-la. Uma vedação de chapa ondulada é sinal que parte da estrutura sofre obras de restauro, estando por isso todo o monumento fechado ao público. Porém, o militar no alto da ameia, e que me confirma esse facto, dá-me a entender que se lhe pagar algum dinheiro permitirá que eu entre para fazer uma breve visita. Para além de não querer pactuar com esse tipo de estratagema, a verdade é que, por enquanto, sinto-me satisfeito com o que vejo a partir do exterior.
A muralha, com bastantes canhões assentes nas ameias, prontos para um combate que jamais acontecerá, aparenta estar em óptimas condições.

O militar percorre o parapeito interior das ameias, seguindo-me sempre com o olhar, esperando certamente que aceite a sua proposta, e até me faz continência quando me vê tirar fotos da fortaleza de diferentes ângulos. Dedico particular atenção à entrada principal, caracterizada por um bonito brasão com as armas de Portugal e a uma vistosa janela, ambos em mármore, que se destacam da muralha de granito maciço.
Existe aí perto uma pequena enseada com uma árvore submergida nas águas calmas e tépidas e os restos de um barco de madeira enfiados na areia. Esta é a única praia da ilha digna desse nome.
Na praceta em frente, junto a um obelisco que honra os mortos da Segunda Grande Guerra e que foi vandalizado na sua parte inferior, encontro mais vendedores de missangas e de moedas antigas. Ao largo do canal de Moçambique passam graciosas embarcações – os zambucos – de panos desfraldados, repletos de pessoas vindas das ilhas vizinhas.
A parte leste desta ilha é mais agreste e a praia quase inexistente. Para norte, uma dessas peculiares calçadas à portuguesa liga a Casa Branca à fortaleza, havendo no intervalo um hotel gerido por indianos, um jardim e um centro de férias.
Em frente à Casa Branca está uma estátua de Luís Vaz de Camões, sem qualquer placa que a identifique, embora o vate tenha sido um dos mais ilustres residentes deste local.
A Ilha de Moçambique percorre-se num dia, mas digere-se mal se não permanecermos aqui, no mínimo, uma semana, tal é o número de surpresas que nos reserva. Pelo menos é isso o que tenho ouvido dizer dela. Infelizmente, não me posso dar ao luxo de ficar todo esse tempo.

O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico




